Economia

Abegás ameaça levar Redata ao Congresso por causa do gás

Distribuidoras acusam estatal de impor condições que travam investimentos e podem elevar o preço final para o consumidor.

Abegás ameaça levar Redata ao Congresso por causa do gás

Abegás ameaça levar Redata ao Congresso se governo restringir uso de gás natural em data centers

A Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Natural (Abegás) anunciou que vai entrar oficialmente na disputa pela regulamentação do Redata, o regime especial de incentivos a data centers aprovado pelo Congresso Nacional. Em nota que será divulgada nesta segunda-feira (28), antecipada ao Radar Econômico e obtida pelo portal Abril.com.br, a entidade afirma que pretende defender a manutenção do gás natural como fonte energética admitida nos projetos beneficiados pelo programa — e não descarta recorrer ao Legislativo caso o Executivo edite regras que extrapolem o texto aprovado pelos parlamentares.

O que está em jogo na regulamentação do Redata

O Redata foi criado para atrair investimentos em centros de processamento de dados, um setor em expansão acelerada no Brasil diante da corrida global por infraestrutura de inteligência artificial, nuvem e serviços digitais. O regime concede incentivos tributários e operativos, mas a sua eficácia depende diretamente do modelo de fornecimento de energia que será permitido dentro dos projetos.

É exatamente nesse ponto que a Abegás decidiu intervir. Segundo a nota, uma regulamentação que vá além daquilo que o Congresso já deliberou pode gerar insegurança jurídica, afastar investidores e até motivar a apresentação de Projetos de Decreto Legislativo (PDLs) com o objetivo de sustar os atos do governo.

"Defender a neutralidade tecnológica é permitir que esses projetos avancem sem sobrecarregar o sistema de transmissão nem encarecer a conta de energia para os demais consumidores", afirma Marcelo Mendonça, diretor-executivo da Abegás, na nota oficial.

Por que a Abegás quer manter o gás natural como opção

A posição central da entidade é de que o gás natural não deve ser tratado como concorrente das fontes renováveis, e sim como uma fonte complementar, capaz de oferecer fornecimento contínuo — inclusive em horários em que a geração solar e eólica apresentam queda.

Esse atributo é particularmente relevante para data centers, que funcionam 24 horas por dia e não podem correr o risco de interrupções. A continuidade operacional é, na prática, uma exigência contratual dos grandes contratos com hyperscalers (operadoras globais de nuvem).

Outro argumento destacado pela Abegás é de ordem geográfica. A geração a gás viabilizaria a instalação de data centers nas regiões Sul e Sudeste do país — onde está concentrada a maior parte da demanda — sem a necessidade de construir novas e custosas linhas de transmissão para transportar energia renovável vinda do Nordeste, onde a incidência de sol e vento é maior.

Na avaliação da associação, priorizar exclusivamente fontes intermitentes em regiões distantes dos centros de consumo obrigaria aportes bilionários em infraestrutura de transmissão, cujos custos costumam ser rateados com todos os consumidores nas tarifas da ANEEL.

O alerta sobre insegurança jurídica

A nota da Abegás sustenta que o governo, ao editar a regulamentação, não pode ir além daquilo que o Legislativo aprovou. Caso isso ocorra, a entidade não descarta levar a questão ao Congresso Nacional por meio de PDLs — instrumento parlamentar usado para sustar atos do Executivo que exorbitem o poder regulamentar.

Esse movimento é visto com atenção pelo mercado porque pode abrir uma frente de atrito entre o setor de gás e o governo federal em um momento em que o país busca se posicionar como hub regional de data centers na América Latina. A insegurança regulatória é um dos principais fatores citados por investidores internacionais na hora de decidir onde aportar recursos em infraestrutura digital.

Impacto prático para o consumidor e para o setor elétrico

Embora o Redata seja uma política voltada a grandes investidores, seus efeitos podem chegar ao bolso do consumidor comum de pelo menos duas formas:

  • Pressão sobre as tarifas de energia: se os data centers forem obrigados a se conectar a regiões distantes de geração renovável, os custos de novas linhas de transmissão tendem a ser repassados para todos os usuários do Sistema Interligado Nacional (SIN).
  • Segurança no fornecimento: data centers que dependam de fontes intermitentes podem precisar de sistemas de backup, geralmente movidos a diesel, que são mais poluentes e menos eficientes do que a geração a gás natural.

Para o setor elétrico, o debate também importa porque data centers são consumidores industriais de grande porte, com demanda crescente. A forma como essa carga será atendida influencia diretamente o planejamento da expansão da matriz energética nos próximos anos.

Como o governo e o setor de renováveis veem o debate

O setor de energias renováveis, por outro lado, defende que o Brasil deve aproveitar a oportunidade para consolidar data centers alimentados por fontes limpas, reforçando a imagem do país como destino de baixo carbono. Esse grupo argumenta que a abundante oferta de energia solar e eólica, somada à queda nos custos dessas tecnologias, torna desnecessária a dependência de combustíveis fósseis mesmo em projetos de alta criticidade.

O governo federal, por sua vez, tem buscado equilibrar os interesses e atrair investimentos sem comprometer metas ambientais. A regulamentação do Redata é considerada uma das decisões mais sensíveis da agenda econômica do ano justamente porque pode definir o padrão tecnológico da infraestrutura digital brasileira nas próximas décadas.

Próximos passos

A nota oficial da Abegás será divulgada na segunda-feira (28) com o detalhamento completo dos pontos que serão acompanhados pela entidade. A expectativa é que a regulamentação do Redata seja publicada pelo Executivo nas próximas semanas, o que poderá intensificar o diálogo com o Congresso e com os diversos setores envolvidos.

Se houver edição de regras consideradas o texto aprovado pelos parlamentares, a associação já sinalizou que poderá acionar o Legislativo para sustar os dispositivos. Enquanto isso, investidores e empresas de tecnologia seguem aguardando definições claras para confirmar cronogramas de aportes no país.

Perguntas frequentes

O que é o Redata?
O Redata é o regime especial de incentivos fiscais e operativos voltado a data centers instalado no Brasil, criado para atrair investimentos em infraestrutura digital.

Por que a Abegás quer incluir o gás natural no programa?
A associação argumenta que o gás garante fornecimento contínuo e evita a necessidade de novas linhas de transmissão a partir de regiões geradoras distantes dos centros de consumo.

Qual o risco se o governo regulamentar o Redata além do que o Congresso aprovou?
Segundo a Abegás, isso pode gerar insegurança jurídica, afastar investidores e motivar Projetos de Decreto Legislativo para sustar as novas regras.

Como o consumidor final pode ser afetado por essa decisão?
Se a geração renovável vier de regiões distantes, o custo de novas linhas de transmissão pode ser repassado às tarifas, encarecendo a conta de luz para todos os consumidores.

Quando a nota oficial da Abegás será divulgada?
A entidade anunciou que publicará sua nota oficial nesta segunda-feira (28).

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Yuri Augusto
Escrito por
Yuri Augusto

Yuri Augusto Jornalista e entusiasta de inovação digital, Yuri acompanha de perto as principais movimentações do mercado, economia e tecnologia. Com foco em traduzir informações complexas em análises acessíveis, é o responsável por trazer os conteúdos mais relevantes e em primeira mão para os leitores do GCBS News.

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