A diretoria da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou nesta terça-feira, 8 de setembro de 2026, o edital do primeiro leilão de transmissão de energia previsto para 2027. A proposta, que agora entra em consulta pública, estima investimentos de R$ 12,9 bilhões e a criação de cerca de 29.540 postos de trabalho ao longo da cadeia produtiva, segundo informações divulgadas pelo portal InfoMoney com base em dados da agência reguladora.
O certame representa um dos maiores pacotes já colocados em disputa no setor elétrico brasileiro nos últimos anos e marca a entrada definitiva de uma tecnologia até então inédita nos leilões de transmissão do país: os sistemas de armazenamento por baterias.
O que está previsto no edital
A proposta aprovada pela Aneel está organizada em 12 lotes, com sublotes independentes para os lotes 6 e 7, conforme detalhamento da agência. O conjunto contempla aproximadamente 3.245 quilômetros de novas linhas de transmissão e 1.386 megavolt-ampere (MVA) de capacidade de transformação — equipamentos responsáveis por elevar ou reduzir a tensão da energia ao longo do sistema.
Na prática, esse volume de obras é suficiente para atravessar diversas regiões do país, conectando subestações, estados e até países vizinhos, reforçando a malha do Sistema Interligado Nacional (SIN), que atende a quase todo o território brasileiro.
Quais são os prazos das concessões?
A regra geral prevista no edital é de 30 anos de concessão para os empreendedores vencedores. A exceção fica por conta do lote 5, dedicado ao primeiro sistema de armazenamento de energia por baterias no sistema de transmissão, cujo prazo proposto é de 18 anos. De acordo com a Aneel, a redução leva em conta o ciclo de vida dos equipamentos e a evolução tecnológica esperada para esse tipo de solução, ainda em fase inicial de regulamentação no país.
Baterias entram pela primeira vez no sistema de transmissão
O grande destaque técnico do leilão é o lote 5, que prevê a implantação do primeiro sistema de armazenamento de energia por baterias (BESS, na sigla em inglês) integrado à rede de transmissão brasileira. O equipamento será destinado ao atendimento dos municípios de Cruzeiro do Sul e Feijó, no Acre, regiões historicamente vulneráveis a interrupções no fornecimento de energia devido ao isolamento geográfico e à distância dos grandes centros geradores.
A entrada das baterias no escopo do leilão foi viabilçada pela regulamentação do armazenamento de energia elétrica em sistemas de transmissão e distribuição, que ainda está em curso no âmbito da Aneel e do Ministério de Minas e Energia (MME). O objetivo é oferecer mais estabilidade, qualidade e continuidade ao fornecimento, especialmente em sistemas isolados ou com baixa redundância.
Especialistas do setor ouvidos ao longo dos últimos anos por diferentes veículos da imprensa especializada têm destacado que a tecnologia de baterias é uma tendência global e pode se tornar peça-chave na transição energética, dando mais flexibilidade à operação do sistema.
Interligação Brasil-Bolívia aparece no pacote, mas depende de aval
Outro ponto que chama a atenção é o lote 11, que reúne instalações associadas à interligação elétrica entre Brasil e Bolívia. A inclusão definitiva do lote, no entanto, depende dos chamados "requisitos institucionais" relacionados ao acordo internacional, informou a Aneel.
Isso significa que, embora esteja prevista no edital, a etapa só será confirmada após o cumprimento de formalidades diplomáticas e regulatórias entre os dois países. Se confirmada, será mais um passo na integração energética sul-americana, movimento que já conta com parcerias bilaterais com Uruguai, Argentina e Paraguai.
Quanto será investido e quantos empregos serão gerados?
As estimativas das áreas técnicas da Aneel apontam para R$ 12,9 bilhões em investimentos ao longo do período de execução das obras, o que inclui construção, aquisição de equipamentos, montagem e operação inicial dos empreendimentos. Do total previsto, espera-se a geração de 29.540 empregos diretos e indiretos ao longo da cadeia produtiva, considerando fabricantes de equipamentos, construtoras, fornecedores de serviços e mão de obra especializada.
O porte dos números reforça o papel dos leilões de transmissão como indutores de infraestrutura no Brasil. O modelo, em vigor desde o final da década de 1990, é considerado uma referência internacional por garantir obras de grande vulto com capital privado, remunerado por meio das Receitas Anuais Permitidas (RAPs) — valores pagos pelo uso do sistema de transmissão.
O que são as RAPs e como funcionam?
As RAPs são a contrapartida financeira que as transmissoras recebem pela disponibilização das linhas e subestações ao sistema elétrico. Quanto maior o deságio oferecido pelos proponentes no leilão, menor o custo repassado às tarifas dos consumidores. Os valores exatos das RAPs deste certame ainda não foram divulgados e serão apresentados na próxima etapa: a da minuta do edital para envio ao Tribunal de Contas da União (TCU), após a análise das contribuições da consulta pública.
Como o consumidor brasileiro é impactado?
Embora o leilão trate de obras de grande porte e alto investimento, o efeito direto na conta de luz tende a ser modesto, já que o custo da transmissão representa uma fatia pequena da tarifa final das distribuidoras — estimada historicamente em torno de 10% a 15% do valor total pago pelo consumidor, segundo dados amplamente divulgados pelo setor. O restante é composto por geração, distribuição, encargos setoriais e tributos.
Por outro lado, o impacto indireto pode ser mais relevante: novas linhas de transmissão permitem escoar a energia gerada em regiões produtoras para os centros de consumo, evitando desperdícios, reduzem gargalos e aumentam a confiabilidade do sistema — o que se traduz em menos apagões e menor necessidade de acionamento de termelétricas caras em momentos de crise.
Próximos passos do processo
Com a aprovação pela diretoria da Aneel, o edital entra agora em consulta pública, etapa em que agentes do setor, empresas, especialistas e a sociedade podem enviar sugestões e contribuições. O prazo de participação vai de 10 de setembro a 26 de outubro de 2026, conforme calendário divulgado pela agência.
Depois dessa fase, a Aneel analisará as contribuições, ajustará a minuta do edital e a enviará para análise do Tribunal de Contas da União (TCU). Somente após a aprovação do TCU é que o leilão será realizado em definitivo, com a expectativa de que o certame aconteça em 2027.
Resumo da linha do tempo
- 8 de setembro de 2026: diretoria da Aneel aprova a minuta e abre consulta pública.
- 10 de setembro a 26 de outubro de 2026: período de recebimento de contribuições da sociedade.
- Etapa seguinte: análise das contribuições e envio ao TCU com os valores finais das RAPs.
- 2027: realização do leilão, prevista no planejamento da Aneel.
O que o leilão diz sobre o futuro do setor elétrico?
A inclusão das baterias no escopo de um leilão de transmissão indica que o Brasil está alinhando seu marco regulatório às tendências globais de modernização das redes elétricas. Em países como Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e Chile, sistemas de armazenamento já são contratados em larga escala para dar mais flexibilidade à operação.
No caso brasileiro, a escolha por Cruzeiro do Sul e Feijó também não é casual: são regiões atendidas por sistemas parcialmente isolados, onde a geração local — predominantemente térmica a diesel — é mais cara e poluente. A combinação de baterias com fontes renováveis pode abrir caminho para uma matriz mais limpa e resiliente na Amazônia ocidental, beneficiando diretamente cerca de 200 mil habitantes das duas cidades acreanas.
Já a tentativa de avançar na interligação com a Bolívia mostra a intenção de diversificar fontes e rotas de suprimento, aproveitando o potencial hidrelétrico e gás natural do país vizinho. O sucesso desse tipo de projeto, no entanto, depende tanto de fatores regulatórios quanto de negociações diplomáticas, o que torna o lote 11 o mais incerto de todo o pacote.
Perguntas frequentes
O que é um leilão de transmissão de energia?
É um certame público promovido pela Aneel em que empresas apresentam propostas para construir, operar e manter linhas de transmissão e subestações no Brasil. Quem oferecer a menor Receita Anual Permitida (RAP) vence a disputa, mas se compromete a entregar a obra no prazo e a operar o sistema por todo o período da concessão.
Por que as baterias estão sendo incluídas em um leilão de transmissão?
A Aneel busca modernizar o sistema elétrico e aumentar a confiabilidade do fornecimento em regiões estratégicas. As baterias permitem armazenar energia e liberá-la em momentos de maior demanda, dando mais estabilidade à rede.
Quando o leilão será realizado?
Após a consulta pública e a aprovação do edital pelo TCU, a expectativa é de que o leilão ocorra em 2027, conforme o planejamento da agência reguladora. As datas exatas ainda não foram divulgadas.
Onde fica Cruzeiro do Sul e por que ela foi escolhida para o projeto de baterias?
Cruzeiro do Sul é um município do Acre, na fronteira com o Peru, atendido por um sistema elétrico parcialmente isolado. A região historicamente sofre com interrupções e depende de termelétricas a diesel, o que torna as baterias uma solução promissora para reduzir custos e emissões.
O leilão vai aumentar a conta de luz?
O efeito direto tende a ser pequeno, já que o custo da transmissão representa uma fatia reduzida da tarifa final. A tendência, segundo o histórico dos últimos certames, é de que o deságio competitivo resulte em custos menores do que os tetos inicialmente previstos pela Aneel.
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