O Brasil fechou junho com o maior número de empresas inadimplentes já registrado desde o início da série histórica, em 2016: 9,1 milhões de CNPJs com dívidas vencidas, que somavam R$ 232,9 bilhões — também um recorde. Os dados, levantados pela Serasa Experian e antecipados pelo jornal O Globo, mostram que em apenas um mês cerca de 100 mil novos negócios engrossaram a lista de negativados e o estoque de débitos cresceu R$ 3 bilhões, segundo o portal Abril.com.br.
O retrato preocupa porque vai além do indicador macroeconômico: revela o sufocamento financeiro de quem emprega, produz e movimenta a economia real. Micro e pequenas empresas respondem por aproximadamente 95% dos CNPJs com pendências, e dois setores — serviços e comércio — concentram quase nove em cada dez negócios negativados.
O que mostram os números da Serasa Experian?
O levantamento da Serasa Experian é considerado um dos termômetros mais completos da inadimplência empresarial no país, porque cruza registros de bureaux de crédito, bancos, fornecedores e concessionárias. Os dados de junho trouxeram três marcas históricas simultâneas:
- 9,1 milhões de empresas inadimplentes — o maior volume da série iniciada em 2016;
- R$ 232,9 bilhões em dívidas vencidas — o maior valor acumulado já registrado;
- Crescimento de aproximadamente 100 mil novos CNPJs negativados em um único mês, na comparação com maio, quando havia 9 milhões de empresas com débitos em aberto somando R$ 229,9 bilhões.
Cada CNPJ inadimplente tinha, em média, 7,3 contas vencidas. Isso significa que a maioria não atrasou apenas um boleto: acumulou pendências com múltiplos credores — bancos, fornecedores, prestadoras de energia elétrica e empresas de telecomunicações, entre outros. O valor médio devido por empresa era de R$ 25.508,96.
"O valor médio devido por empresa inadimplente era de R$ 25.508,96 em junho, com 7,3 contas em atraso por CNPJ."
Por que a inadimplência das empresas segue batendo recordes?
Embora o Banco Central já tenha iniciado, em 2025, um ciclo de redução da taxa Selic — que permanecia em 14% ao ano no período da pesquisa —, o alívio nos juros ainda não chegou de forma uniforme ao caixa das empresas. As condições de crédito continuam apertadas por três razões principais:
- Juros básicos ainda elevados: mesmo após quedas recentes, a Selic em 14% ao ano mantém o custo de empréstimos, capital de giro e renegociações em patamar historicamente alto.
- Consumo das famílias pressionado: com inflação de alimentos, endividamento das famílias e renda real estagnada, muitos negócios — especialmente do varejo e de serviços — veem vendas caírem e prazos se alongarem.
- Cascata de inadimplência: quando o cliente final atrasa pagamentos, a empresa que vendeu para ele também atrasa seus fornecedores, em um efeito dominó que amplia a inadimplência em toda a cadeia produtiva.
Quais setores concentram mais empresas inadimplentes?
A distribuição por ramo de atividade mostra onde o problema é mais agudo:
- Serviços: 55,7% dos CNPJs inadimplentes. O segmento inclui desde salões de beleza e consultórios até agências de turismo, escritórios de advocacia e prestadores de tecnologia;
- Comércio: 32,2% dos CNPJs negativos, abrangendo lojas de rua, e-commerce, revendas e pequenos varejistas;
- Indústria, agropecuária e construção: juntos, respondem pelo restante, com peso menor, mas com dívidas de valor médio mais alto.
Esse perfil setorial reforça um diagnóstico conhecido: a inadimplência empresarial acompanha a da pessoa física. Quando o consumidor final deixa de pagar um cartão ou um boleto, o comércio e os serviços que dependem desse fluxo de caixa são os primeiros a sentir o impacto.
Como a inadimplência atinge micro e pequenas empresas?
Dos 9,1 milhões de CNPJs inadimplentes em junho, 8,7 milhões pertenciam a micro e pequenas empresas, o equivalente a cerca de 95% do total. Esse recorte é o mais grave do levantamento por três motivos:
- Margem de lucro mais apertada: pequenos negócios operam com margens menores e têm menos gordura para absorver atrasos de clientes.
- Acesso limitado a crédito: em vez de linhas bancárias baratas, recorrem a fornecedores, antecipação de recebíveis e cheque especial — modalidades caras que agravam o endividamento.
- Menos estrutura de cobrança: diferente de grandes corporações, não têm equipes jurídicas ou de crédito para recuperar valores de forma eficiente.
Na prática, uma microempresa com sete ou oito contas em atraso costuma estar a poucos passos de suspender pagamentos de salários, aluguéis e tributos — o que pode levá-la a um ciclo de execução fiscal e até ao fechamento.
O que diz o valor médio de R$ 25,5 mil por CNPJ?
O número pode parecer modesto quando comparado a dívidas corporativas bilionárias, mas precisa ser lido no contexto certo. Para uma microempresa que fatura entre R$ 80 mil e R$ 360 mil por ano, uma dívida média de R$ 25,5 mil representa entre 7% e 30% do faturamento anual. Em muitos casos, é o suficiente para travar totalmente a operação.
Além disso, a média esconde assimetrias: há empresas com dívidas pequenas, de poucos reais, ao lado de negócios com passivos de centenas de milhares de reais. O indicador serve, portanto, como termômetro do estoque total, não como retrato fiel de cada caso.
O que uma empresa inadimplente pode fazer para sair da lista?
Estar com o CNPJ negativado não é necessariamente o fim da linha. Existem caminhos amplamente utilizados para reorganizar as finanças e voltar a ter acesso a crédito:
- Levantar todos os débitos: consultar gratuitamente o score e os registros em bureaus como Serasa, Boa Vista e SPC para mapear cada credor e valor;
- Negociar diretamente com os credores: muitos bancos e fornecedores oferecem descontos de até 90% para receber à vista, especialmente em plataformas como o Serasa Limpa Nome e o Feirão Serasa;
- Buscar o Refis ou programas especiais: em alguns períodos, a Receita Federal e a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional oferecem parcelamentos com descontos de juros e multas;
- Reorganizar o fluxo de caixa: renegociar prazos com clientes, cortar despesas não essenciais e separar contas pessoais das empresariais;
- Procurar apoio de contabilistas e advogados: profissionais podem indicar alternativas como recuperação judicial (para empresas maiores) ou distrato com planejamento tributário para as menores.
A palavra-chave nesse processo é antecipação: quanto antes a empresa reconhece o problema e procura os credores, maiores as chances de obter descontos e evitar restrições mais graves, como a perda de certidões negativas e o bloqueio de contas.
Quais os próximos passos do mercado e do governo?
Apesar do início do corte da Selic, o ritmo de redução dos juros básicos ainda é lento para reverter imediatamente o quadro. Economistas ouvidos em diferentes levantamentos indicam que a inadimplência empresarial tende a continuar alta nos próximos trimestres, com possível estabilização somente quando:
- a taxa básica de juros chegar a patamares próximos de um dígito;
- o consumo das famílias se recuperar de forma consistente;
- houver ampliação de linhas de crédito com garantia do governo, como o Peac (Programa Emergencial de Acesso a Crédito) e o Crédito Solidário.
Enquanto isso, o cenário exige atenção redobrada de empreendedores, contadores e gestores financeiros. O número recorde de 9,1 milhões de empresas inadimplentes é, ao mesmo tempo, um alerta e um convite à renegociação.
Perguntas frequentes
Quantas empresas estão inadimplentes no Brasil em 2025?
Segundo dados da Serasa Experian divulgados em junho de 2025 e antecipados pelo jornal O Globo, o Brasil atingiu o recorde de 9,1 milhões de empresas inadimplentes, com R$ 232,9 bilhões em dívidas vencidas — o maior volume da série histórica, iniciada em 2016.
Qual o valor médio da dívida de uma empresa inadimplente?
Cada CNPJ inadimplente tinha, em média, R$ 25.508,96 em dívidas vencidas, distribuídas em cerca de 7,3 contas em atraso com bancos, fornecedores ou prestadores de serviços.
Quais setores têm mais empresas inadimplentes?
O setor de serviços concentra 55,7% dos CNPJs inadimplentes, seguido pelo comércio, com 32,2%. Juntos, respondem por quase nove em cada dez empresas com pendências no país.
Micro e pequenas empresas são as mais atingidas pela inadimplência?
Sim. Dos 9,1 milhões de CNPJs inadimplentes, 8,7 milhões são micro ou pequenas empresas, o equivalente a aproximadamente 95% do total, de acordo com o levantamento da Serasa Experian.
Como a taxa Selic influencia a inadimplência das empresas?
Com a Selic em 14% ao ano, empréstimos, capital de giro e renegociações ficam mais caros. Isso encarece a dívida existente e dificulta a tomada de crédito, pressionando principalmente empresas de menor porte, que dependem de linhas bancárias para girar o caixa.
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