A guerra na Ucrânia entra em nova fase decisória com a reunião da chamada Coligação das Voughtades, o agrupamento informal de países europeus e parceiros que tem coordenado o apoio militar a Kiev. Na próxima segunda-feira, representantes dos países-membros se reúnem em meio a um cenário marcado por escassez de interceptores antiaéreos, pressão política interna em Kiev e sinais crescentes de estresse econômico em Moscou. O panorama foi traçado pelo professor de Relações Internacionais da Universidade de Lisboa Bernardo Valente no programa Gabinete de Guerra, da Rádio Observador (Portugal), em entrevista resgatada pelo portal Observador.pt.
Os dois eixos da reunião: 22º pacote de sanções e defesa antiaérea
Segundo Valente, a reunião terá duas grandes frentes. A primeira é a construção do 22º pacote de sanções da União Europeia contra a Rússia. "[Os pacotes anteriores] começaram agora a produzir os seus efeitos visíveis", afirmou o especialista. A escassez de combustível em território russo não decorre apenas dos ataques ucranianos a refinarias: é também resultado da ofensiva regulatória europeia no setor petrolífero, que tem forçado Moscou a exportar petróleo para depois recomprá-lo a preços mais elevados por causa da escassez interna — efeito sentido com mais intensidade em áreas contestadas, como a Crimeia.
O analista lembrou que a Hungria e a Eslováquia, tradicionais pontos de atrito diplomático, não são os únicos entraves. Alemanha, Grécia e Portugal chegaram a bloquear trechos do 21º pacote relacionados à exportação de bens alimentícios, mostrando como a unanimidade exigida no Conselho Europeu continua sendo o principal gargalo.
A segunda frente é a defesa antiaérea, diretamente impactada pela redistribuição global de sistemas após a escalada entre Estados Unidos e Irã.
Patriots esgotados e a aposta europeia no Projeto Freya
Para dimensionar o gargalo, Valente citou um dado contundente: "Foram utilizados mais Patriots nestes seis meses de conflito entre Estados Unidos e Irã para defender as monarquias do Golfo do que nos quatro anos e pouco de conflito entre Ucrânia e Rússia." Como cada bateria antiaérea tem produção estimada em apenas duas unidades por dia — cerca de 700 por ano — e precisa ser dividida entre vários países, o estoque disponível para Kiev ficou crítico em meio à nova frente de tensão no Oriente Médio.
Os dois sistemas antiaéreos fabricados atualmente na Europa apresentam baixa taxa de interceptação contra mísseis balísticos, explicou o professor, e por isso estão "fora da equação". A saída em estudo pela Coligação das Vontades é o Projeto Freya, uma iniciativa multilateral para desenvolver baterias antiaéreas próprias no âmbito da chamada autonomia estratégica europeia.
Crise política em Kiev: Fedorov desafia Zelensky
Além da frente militar, a Ucrânia lida com uma crise política interna que ameaça a estabilidade do governo Zelensky. O pivô é Fedorov, ex-ministro da Defesa e figura influente na sociedade ucraniana — conhecida pela aposta em tecnologia na pasta —, que protagonizou três movimentos públicos de confronto com o presidente apenas nesta semana:
- Entrevista à rede americana CBS, demonstrando capacidade direta de interlocução com Washington.
- Vídeo com estética de campanha — música agressiva e fundo preto — criticando a reconfiguração do governo e propondo novas eleições.
- Anúncio de viagem a Washington para reuniões com representantes diplomáticos americanos.
A saída de Fedorov do Ministério da Defesa foi um "dano colateral" das denúncias de corrupção que derrubaram o governo chefiado por Yulia Swiridenko, montado há cerca de um ano justamente para se aproximar dos Estados Unidos. O novo ministro da Defesa nomeado nesta semana é Yevhen Nikmara, e o diretor de compras da pasta pediu demissão na mesma data.
Para Valente, Zelensky criou "quase uma armadilha para si próprio" ao remodelar um governo desenhado sob medida para o diálogo com Washington. As manifestações de rua pedindo o retorno de Fedorov amplificam a pressão interna, e a possibilidade de eleições gerais é vista como um cenário que Moscou tentaria explorar para fragmentar a sociedade ucraniana.
Estresse na Rússia: do combustível ao crédito malparado
Do lado russo, os sinais de pressão econômica se acumulam. Conforme Valente, a queda na qualidade da gasolina e do diesel reflete a dificuldade de Moscou em manter o abastecimento interno, além da destruição de armazéns da Wildberries, gigante do varejo eletrônico russo, atingido por ataques recentes. No sistema financeiro, o crédito malparado nos bancos russos está em alta, e ativistas denunciam aumento do alistamento forçado nas forças armadas.
No campo político, o Kremlin barrou o Yabloko, único partido declaradamente antiguerra, das próximas eleições parlamentares sob a alegação de uso indevido de uma canção em campanha — uma justificativa que, segundo o especialista, foi suficiente para encerrar toda a estratégia eleitoral da legenda a dois meses do pleito.
Mesmo assim, Valente fez uma ressalva importante: o endurecimento das sanções visa criar tensões internas que possam se traduzir em pressão política, "mas isso não é igual a dizer que essa tensão irá resultar numa mudança de paradigma de regime ou na queda de Vladimir Putin".
Por que essa decisão importa para o Brasil
Embora o Brasil não participe da Coligação das Vontades nem das sanções europeias, o 22º pacote e a evolução do conflito têm efeitos práticos para o leitor brasileiro:
- Preço internacional do petróleo, diretamente sensível a sanções ao setor energético russo.
- Comércio de fertilizantes, do qual o agronegócio brasileiro é altamente dependente da Rússia e da Bielorrússia.
- Sanções secundárias dos EUA ao Irã, que dependem do tráfego no Estreito de Ormuz e podem abrir espaço para a China buscar novos parceiros energéticos, enfraquecendo simultaneamente Moscou e Teerã, segundo Valente.
- Reconfiguração do mercado global de defesa, com o Projeto Freya abrindo espaço para novas cadeias de suprimento das quais empresas com presença no Mercosul podem participar como fornecedoras de componentes.
Perguntas frequentes
O que é a Coligação das Voughtades?
É o agrupamento informal de países europeus e parceiros criado para coordenar apoio militar, político e financeiro à Ucrânia, funcionando como fórum alternativo à OTAN para decisões que não dependem do aval americano.
O que pode mudar com o 22º pacote de sanções?
Caso aprovado, o novo pacote endurecerá restrições ao mercado petrolífero e financeiro russo. A proposta precisa da unanimidade dos 27 Estados-membros da UE para entrar em vigor, o que historicamente tem sido o principal entrave.
Quem é Fedorov e por que ele ameaça Zelensky?
Fedorov foi ministro da Defesa da Ucrânia e ganhou popularidade ao apostar em tecnologia na pasta. Saiu após denúncias de corrupção e, em poucos dias, promoveu três movimentações públicas de confronto direto com o presidente Zelensky.
Por que os Patriots estão em falta na Ucrânia?
Porque a produção mundial desse tipo de interceptor é limitada — cerca de 700 por ano — e grande parte do estoque disponível foi redirecionada para a defesa das monarquias do Golfo Pérsico durante a escalada do conflito entre EUA e Irã.
O Brasil é afetado pelas sanções europeias à Rússia?
Não de forma direta, pois o país não aderiu às sanções. Indiretamente, sim: variações no preço do petróleo, no comércio de fertilizantes e no mercado global de armamentos costumam se refletir no bolso do consumidor e na competitividade das exportações agrícolas brasileiras.
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