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Coreia do Sul propõe diálogo para encerrar guerra de 72 anos

Iniciativa histórica quer retomar conversas com Pyongyang e amenizar tensões nucleares na região

Coreia do Sul propõe diálogo para encerrar guerra de 72 anos

O Presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, defendeu neste sábado (15) a retomada do diálogo com Pyongyang para encerrar formalmente a Guerra da Coreia, conflito que persiste tecnicamente desde 1953 por falta de um tratado de paz. O anúncio foi feito no 81º aniversário do fim da ocupação japonesa da península coreana (1910-1945).

Em discurso por ocasião do Gwangbokjeol (Dia da Libertação), Lee afirmou: "Deixemos de lado nossas intenções de nos ameaçarmos mutuamente e iniciemos discussões para pôr fim a esta longa guerra, enquanto partes diretamente envolvidas". Segundo o portal Observador.pt, o presidente sul-coreano acrescentou que o caminho diplomático também permitiria "discutir medidas eficazes para travar o desenvolvimento nuclear da Coreia do Norte".

A proposta marca uma guinada clara em relação à linha dura adotada pelo antecessor, Yoon Suk-yeol, deposto por impeachment, e recoloca no centro do debate internacional um conflito que, embora congelado há mais de sete décadas, nunca foi formalmente encerrado.

Por que a Guerra da Coreia ainda é considerada "ativa" depois de 72 anos?

A Guerra da Coreia eclodiu em 25 de junho de 1950, quando tropas da Coreia do Norte invadiram o Sul. O conflito envolveu diretamente Estados Unidos, China e dezenas de países sob a bandeira da ONU no apoio a Seul, enquanto a União Soviética sustentava Pyongyang. Após três anos de combates e milhões de mortos, as partes assinaram apenas um armistício, em julho de 1953 — nunca um tratado de paz.

O Acordo de Armistício foi assinado por Coreia do Norte, China e o Comando da ONU (liderado pelos EUA). A Coreia do Sul se recusou a assiná-lo. Isso significa que, do ponto de vista jurídico-estratégico, as duas Coreias permanecem em estado de guerra, separadas pela Zona Desmilitarizada (DMZ), uma das fronteiras mais militarizadas do planeta.

O que estabelece o Armistício de 1953?

O acordo criou uma linha de cessar-fogo e a DMZ — faixa de aproximadamente 4 km de largura e 250 km de extensão que corta a península. Institucionalizou também a Comissão Militar de Armistício (MAC) e a Comissão de Supervisão de Nações Neutras (NNSC), órgãos multilaterais que seguem tecnicamente ativos até hoje — o que torna o conflito o único "congelado" do mundo com uma estrutura internacional permanente de monitoramento.

"Deixemos de lado nossas intenções de nos ameaçarmos mutuamente e iniciemos discussões para pôr fim a esta longa guerra, enquanto partes diretamente envolvidas. Desta forma, será também possível discutir medidas eficazes para travar o desenvolvimento nuclear da Coreia do Norte." — Lee Jae-myung, presidente da Coreia do Sul

Quem é Lee Jae-myung e o que mudou na política externa sul-coreana?

Lee tomou posse em junho de 2025 após vencer a eleição antecipada provocada pela destituição de Yoon Suk-yeol. Yoon havia endurecido a retórica e a postura militar contra Pyongyang, em meio à sucessão de testes nucleares e de mísseis balísticos norte-coreanos.

Lee representa a vertente oposta, conhecida como Sunshine Policy (Política do Sol), que marcou governos anteriores como os de Kim Dae-jung e Moon Jae-in. Sua estratégia combina diálogo incondicional com engajamento econômico — incluindo projetos de cooperação transfronteiriça e ajuda humanitária — ao mesmo tempo em que mantém a aliança com os EUA.

No discurso deste sábado, o presidente deixou claro que a reaproximação não significa ignorar o programa nuclear: para Seul, encerrar formalmente o conflito é pré-condição para qualquer avanço real em desnuclearização.

Qual a conexão entre encerrar a guerra e o programa nuclear norte-coreano?

Seul e seus aliados argumentam que a persistência do estado de guerra serve, na lógica de Pyongyang, como justificativa para a manutenção do arsenal atômico. Um tratado de paz mudaria o cálculo estratégico e abriria espaço para negociações de desarmamento.

O problema é que a Coreia do Norte historicamente condiciona qualquer conversa sobre desnuclearização a três exigências:

  • Fim do estado de guerra e assinatura de um acordo de paz;
  • Redução da presença militar dos EUA no Sul da península;
  • Levantamento das sanções internacionais impostas pelo Conselho de Segurança da ONU.

O desafio diplomático, portanto, é alinhar essas posições em um formato aceitável para Washington, Pequim e Seul — algo que não foi possível nos ciclos anteriores, incluindo as cúpulas de 2018 entre Donald Trump e Kim Jong-un.

Como o Brasil entra nessa história?

A ligação brasileira com a Guerra da Coreia é mais profunda do que costuma aparecer nos livros escolares. Entre 1951 e 1953, o país enviou a Força Expedicionária Brasileira na Coreia (FEB-K), com cerca de 3.300 militares em seu auge. O contingente entrou em combate, deixou cerca de 90 mortos e foi reconhecido pela ONU por sua atuação na Batalha do Chipyong-ni e em outras frentes.

Mas a presença brasileira não acabou em 1953. Até hoje o Brasil integra a NNSC como representante do lado do Comando da ONU — ao lado da Suécia —, com soldados regularmente destacados para a zona desmilitarizada. Essa participação dá ao país um lugar único em qualquer mesa de negociação futura para encerrar formalmente o conflito.

Quais são os próximos passos?

A oferta de Lee ainda depende de uma resposta de Pyongyang. O regime norte-coreano tem usado períodos de tensão para reforçar a coesão interna em torno da liderança de Kim Jong-un, e raramente reage de forma imediata a gestos diplomáticos.

Pesam também variáveis externas decisivas:

  • Posição dos Estados Unidos: Washington é parte do armistício e precisa assinar qualquer tratado de paz;
  • Papel da China: Pequim é o principal aliado e maior parceiro comercial de Pyongyang;
  • Cenário no Nordeste Asiático: tensão no Estreito de Taiwan e a rivalidade sino-americana podem influenciar a abertura norte-coreana.

Analistas internacionais avaliam que o gesto de Lee é também um sinal direcionado a Washington e Pequim, para medir o interesse das grandes potências em uma nova iniciativa de paz na península. Caso Pyongyang aceite conversar, o próximo capítulo da diplomacia coreana deve envolver meses — talvez anos — de negociações multilaterais antes que um tratado de paz efetivo possa ser assinado.

Perguntas frequentes

Quando começou e terminou a Guerra da Coreia?
O conflito começou em 25 de junho de 1950, com a invasão norte-coreana ao Sul, e terminou com a assinatura de um armistício em 27 de julho de 1953. Nunca houve tratado de paz.

Por que não existe um tratado de paz entre as Coreias?
Após três anos de guerra, as partes assinaram apenas um armistício. A Coreia do Sul se recusou a assiná-lo, e as negociações por um tratado de paz foram retomadas e abandonadas diversas vezes ao longo das décadas, sem êxito.

O que é a Zona Desmilitarizada (DMZ)?
É a faixa de aproximadamente 4 km de largura e 250 km de extensão que separa as duas Coreias. Foi criada pelo Acordo de Armistício de 1953 e é uma das fronteiras mais militarizadas do mundo, com vigilância 24 horas de ambos os lados.

O Brasil participou da Guerra da Coreia?
Sim. O Brasil enviou mais de 3.000 militares como parte da força da ONU que apoiou a Coreia do Sul. O contingente, conhecido como FEB-K, deixou cerca de 90 mortos e mantém o Brasil até hoje na Comissão de Supervisão de Nações Neutras (NNSC).

Qual a relação entre o fim da guerra e o programa nuclear norte-coreano?
Seul e seus aliados argumentam que o estado de guerra persistente justifica, na visão de Pyongyang, a manutenção do arsenal atômico. Um tratado de paz mudaria esse cálculo, mas Pyongyang exige, como contrapartida, o levantamento de sanções e a redução da presença militar americana no Sul.

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Yuri Augusto
Escrito por
Yuri Augusto

Yuri Augusto Jornalista e entusiasta de inovação digital, Yuri acompanha de perto as principais movimentações do mercado, economia e tecnologia. Com foco em traduzir informações complexas em análises acessíveis, é o responsável por trazer os conteúdos mais relevantes e em primeira mão para os leitores do GCBS News.

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