Como "Corrida dos Bichos" nasceu de uma ideia de 20 anos e virou o filme mais ambicioso da Amazon no Brasil
Estreou nesta sexta-feira (7) no Prime Video o longa-metragem nacional Corrida dos Bichos, primeira produção brasileira do serviço de streaming a reunir três diretores no comando — Ernesto Solis, criador do projeto, Rodrigo Pesavento e Fernando Meirelles, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por "Cidade de Deus" (2002). Ambientado em um Rio de Janeiro distópico, o filme propõe uma competição clandestina em que participantes usam máscaras de animais e disputam, de forma violenta e potencialmente mortal, um prêmio milionário — uma releitura sombria do tradicional jogo do bicho. A estrutura de comando nada habitual, confirmada à reportagem pelo portal Abril.com.br, foi exigência direta do estúdio para viabilizar o maior orçamento já destinado a um original brasileiro na plataforma.
De onde veio a ideia de um futuro carioca com bicho
Segundo o portal Abril.com.br, a semente de Corrida dos Bichos foi plantada há cerca de duas décadas. Na época, Ernesto Solis desenvolvia uma história em quadrinhos futurista passada no Rio de Janeiro. Um produtor franco-português que trabalhava com Luc Besson — referência do cinema de ação europeu — viu o material e se interessou pela combinação de futuro com a capital fluminense. A partir desse encontro, Solis enxergou a chance de construir uma distopia genuinamente brasileira, sem copiar a estética deblockbusters estrangeiros.
A escolha do jogo do bicho como elemento central não foi acidental. Criado no fim do século XIX e associado historicamente à cultura popular do Rio, o jogo ilegal funciona no filme como metáfora para "um jogo social perverso" — nas palavras do próprio Solis —, uma alegoria do presente e do passado do país. O roteiro, segundo o diretor, já estava pronto antes do lançamento de Jogos Vorazes (2012) e de Round 6 (2021), o que reforça o caráter pioneiro da proposta dentro do audiovisual brasileiro.
Por que a Amazon exigiu três diretores no maior filme do estúdio
Durante anos, Solis tentou emplacar o projeto em diferentes frentes até que o Prime Video decidiu comprá-lo. Foi nesse ponto que a estrutura de direção começou a ganhar contornos pouco usuais. Como Solis tinha longa experiência em televisão, mas não em cinema, e a produção exigia sequências de ação complexas, o próprio Ernesto trouxe Rodrigo Pesavento para a equipe — diretor de publicidade e de conteúdos de streaming conhecido pelo domínio de câmera e pela fluência na linguagem cinematográfica.
A situação mudou novamente cerca de dois meses antes do início da pré-produção. Segundo relato de Fernando Meirelles à publicação, a Amazon comunicou que nem Solis nem Pesavento tinham creditado um longa-metragem, e que aquela era a produção de maior orçamento da plataforma no momento. O estúdio pediu que Meirelles entrasse no projeto — não para assumir a autoria, mas para "deixar a equipe em Los Angeles confortável".
"A visão era dele, o roteiro era dele e ele sempre tinha a última palavra. Foi muito prazeroso trabalhar desse jeito. A responsabilidade do conceito era dele, e eu foquei em tentar fazer da melhor forma possível as cenas que assumi." — Fernando Meirelles, ao portal Abril.com.br
Como ficou a divisão entre os três diretores
Com três nomes no comando, o roteiro foi loteado para evitar sobreposição e dar ritmo à produção. Pesavento ficou responsável por todas as cenas de ação; o drama foi repartido meio a meio entre Ernesto Solis e Fernando Meirelles. A divisão tinha também uma razão prática e orçamentária: o filme teria apenas dez semanas de filmagem, e duas semanas foram perdidas pouco antes das câmeras começarem a rodar.
"Se não houvesse três diretores, não teríamos dado conta", resumiu Meirelles. O modelo permitiu uma preparação maior e evitou que algum dos profissionais acumulasse um volume de trabalho incompatível com o cronograma apertado.
O retorno de Meirelles atrás das câmeras
Para Fernando Meirelles, o chamado da Amazon veio acompanhado de um reencontro com uma função que ele não exercia havia anos. O diretor de "Cidade de Deus" e "O Jardineiro Fiel" voltou a operar câmera e a criar imagens no set de Corrida dos Bichos. Segundo ele próprio, foi "sensacional" reassumir a função, depois de décadas dedicado principalmente à condução geral de elencos e equipes em produções internacionais.
A presença de Meirelles também funciona como chancela para um projeto de gênero, uma área historicamente dominada por produções norte-americanas e europeias no streaming global. Para o público brasileiro, ter um diretor com currículo internacional liderando tecnicamente parte do longa dá à produção um peso simbólico relevante dentro da disputa por atenção com títulos estrangeiros do catálogo.
O que o filme diz sobre o Brasil atual
Mais do que uma aventura de ação, Corrida dos Bichos se apresenta como uma alegoria da desigualdade e da espetacularização da violência. A escolha do jogo do bicho como mote é emblemática: trata-se de uma prática ilegal, profundamente enraizada no cotidiano carioca, que mistura sorte, dinheiro fácil e uma economia paralela que movimenta bilhões todos os anos no país. Ao transpor o jogo para uma arena futurista e letal, o roteiro amplifica o que a sociedade já conhece — transformando um hábito cultural em metáfora extrema.
O cenário do Rio distópico dialoga com uma tradição crescente de ficções científicas e distópicas brasileiras, como a série 3% (Netflix) e filmes como Braziliz, além de empréstimos pontuais a referências internacionais de survival como Battle Royale. O diferencial do longa está justamente em recusar a transposição genérica de modelos estrangeiros e ancorar a narrativa em signos locais — as máscaras de bichos, a geografia carioca, o linguajar e os códigos sociais que o espectador brasileiro reconhece.
Por que a aposta da Amazon importa para o audiovisual nacional
A decisão do Prime Video de investir seu maior orçamento em uma produção brasileira com direção tríplice é mais do que uma curiosidade de bastidores. Ela sinaliza uma tendência de mercado: as grandes plataformas de streaming têm ampliado a fatia dedicada a originais locais, especialmente em países de grande mercado consumidor como o Brasil. Segundo o portal Abril.com.br, a exigência de três diretores foi justamente um gesto de proteção institucional do estúdio — uma forma de mitigar riscos em uma produção de alto custo dirigida, em parte, por profissionais sem longa-metragem no currículo.
Para a cadeia produtiva, o efeito é direto: gera empregos em equipes técnicas, abre espaço para novos formatos narrativos e cria vitrine internacional para talentos brasileiros. Para o espectador, o resultado é um catálogo mais plural, em que ficção científica, distopia e crítica social deixam de ser exclusividade de Hollywood ou do audiovisual coreano.
Quem é quem em "Corrida dos Bichos"
- Ernesto Solis: criador do conceito e do roteiro; dirigiu metade das cenas dramáticas. Vem de longa trajetória em televisão.
- Rodrigo Pesavento: responsável por todas as cenas de ação; diretor de publicidade e de conteúdos para streaming, com forte domínio de câmera.
- Fernando Meirelles: entrou a pedido da Amazon para dividir a direção da outra metade do drama e reassumiu a operação de câmera pela primeira vez em anos.
Perguntas frequentes sobre "Corrida dos Bichos"
Onde assistir a "Corrida dos Bichos"?
O filme está disponível no catálogo do Prime Video, plataforma de streaming da Amazon, desde a sexta-feira (7).
Quantos diretores têm "Corrida dos Bichos" e por quê?
Três diretores: Ernesto Solis, Rodrigo Pesavento e Fernando Meirelles. A divisão foi exigência da Amazon para reduzir riscos no maior orçamento do estúdio, somada à necessidade de cumprir um cronograma apertado após a perda de duas semanas de filmagem.
O que é o jogo do bicho retratado no filme?
O jogo do bicho é uma modalidade de aposta ilegal criada no fim do século XIX no Rio de Janeiro, baseada na associação de animais a números. No longa, ele serve de inspiração para uma competição violenta e futurista, funcionando como alegoria da sociedade brasileira.
Fernando Meirelles voltou a operar câmera no filme?
Sim. Segundo Meirelles, foi a primeira vez em muitos anos que ele reassumiu a função de cameraman. Ele conduziu pessoalmente parte das imagens do longa.
A ideia do filme é anterior a "Jogos Vorazes" e "Round 6"?
Sim. Segundo Ernesto Solis, o conceito já estava em desenvolvimento havia cerca de 20 anos, antes do lançamento das duas produções estrangeiras com temática semelhante.
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