Metade dos brasileiros teme interferência estrangeira nas eleições, aponta Datafolha
Quase metade dos brasileiros considera que existe risco de interferência estrangeira nas próximas eleições no Brasil. É o que revela novo recorte da pesquisa Datafolha divulgado neste domingo, 23. Segundo o levantamento, 50% dos entrevistados afirmaram ver esse risco, enquanto 32% disseram não enxergar problemas em uma possível ação externa no processo eleitoral. Outros 18% declararam o contrário — ou seja, não veem ameaça de intromissão — e 8% não souberam ou não quiseram responder.
Os números ganham peso em um contexto de crescente tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos, marcado por tarifas comerciais, debates sobre sanções contra autoridades do Supremo Tribunal Federal (STF) e a recente revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington. O cenário levanta questionamentos sobre até que ponto a opinião pública brasileira percebe pressões externas sobre a soberania eleitoral do país.
Os números da pesquisa em detalhe
O levantamento foi contratado pelo jornal Folha de S. Paulo e pela TV Globo e está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o código BR-04496/2026. Foram ouvidos 2.058 eleitores em todo o território nacional, entre terça-feira, 18, e quinta-feira, 20, com margem de erro máxima de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
O recorte divulgado mostra a seguinte distribuição sobre interferência estrangeira nas eleições:
- 50% afirmam ver risco de interferência estrangeira;
- 32% dizem não ver problemas nessa possível interferência;
- 18% afirmam não enxergar risco de intromissão externa;
- 8% não responderam ou não souberam responder.
Para especialistas em opinião pública, a divisão revela um eleitorado atento, mas ainda dividido sobre a real dimensão da ameaça. A percepção de risco, embora majoritária, não é consensual: mais de um terço dos brasileiros minimiza o problema ou não demonstra preocupação com o tema.
Por que esse debate ganhou força agora?
Nos últimos meses, a relação entre Brasília e Washington passou por sucessivos episódios que inflamaram a discussão sobre interferência externa. O governo dos Estados Unidos, comandado pelo presidente Donald Trump, tem adotado uma postura hostil em relação ao Brasil, com a imposição de tarifas sobre produtos brasileiros e a ameaça de sanções individuais — incluindo debates internos sobre medidas contra o ministro do STF Alexandre de Moraes.
Em um dos episódios mais simbólicos dessa escalada, o governo norte-americano revogou o visto da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Viotti. Em resposta, o Palácio do Planalto classificou a medida como parte de um movimento deliberado de intromissão no processo eleitoral brasileiro. Segundo o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ficou "óbvio o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente".
Apesar de a declaração ter partido do Executivo, o debate extrapolou o campo diplomático e chegou à opinião pública. Pesquisas anteriores do próprio Datafolha já indicavam que uma parcela relevante da população acompanhava as tensões com os EUA e enxergava motivações políticas por trás das medidas comerciais e migratórias.
O que é considerado "interferência estrangeira"?
O conceito de interferência estrangeira em eleições não se resume a ataques cibernéticos ou financiamento ilegal de campanhas, embora essas sejam as formas mais discutidas. Especialistas ouvidos em diferentes ocasiões pela imprensa brasileira apontam ao menos quatro vetores comuns:
- Pressão diplomática e econômica: uso de sanções, tarifas ou restrições migratórias como instrumento de pressão política;
- Operações de informação: disseminação de desinformação em redes sociais e veículos de comunicação estrangeiros;
- Declarações oficiais: manifestações de líderes estrangeiros sobre candidatos, partidos ou processos judiciais internos;
- Sanções a autoridades: punições individuais a juízes, ministros ou investigadores que atuam em processos sensíveis.
No caso atual, a maioria dos indicadores recai sobre os dois últimos itens: declarações e gestos do governo Trump em relação ao Brasil, somados a ameaças de sanções a integrantes do STF. Ainda assim, não há, até o momento, evidências públicas de operações coordenadas de desinformação voltadas especificamente ao eleitorado brasileiro.
Como o eleitorado tem reagido?
O fato de metade dos brasileiros perceber risco de interferência indica que a mensagem do governo federal e de parte da classe política encontrou ressonância na população. Setores da sociedade civil e da academia, porém, alertam para o risco de hiperdimensionar a ameaça — o que poderia, paradoxalmente, ser utilizado como argumento para restrições a direitos digitais e à liberdade de imprensa.
Por outro lado, os 32% que não veem problemas na possível interferência estrangeira podem refletir tanto uma postura de confiança nas instituições eleitorais brasileiras — a começar pela urna eletrônica e pelo próprio TSE — quanto uma descrença em relação ao noticiário sobre o tema. A polarização política no Brasil tende a influenciar diretamente a leitura que cada grupo faz de notícias envolvendo potências estrangeiras.
O papel do TSE e das instituições brasileiras
O Tribunal Superior Eleitoral tem reforçado publicamente a segurança do sistema de votação brasileiro. A urna eletrônica, adotada integralmente desde 2000, passou por sucessivas baterias de testes públicos de segurança e nunca teve sua integridade comprometida em eleições oficiais, segundo auditorias realizadas ao longo dos anos.
Mesmo assim, a pressão externa amplia o desafio institucional. Cabe ao TSE, em conjunto com a Polícia Federal, com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e com o Ministério Público, garantir que eventuais tentativas de manipulação — internas ou externas — sejam identificadas e combatidas com transparência.
Próximos passos e o que esperar
O cenário tende a se intensificar à medida que as eleições gerais de 2026 se aproximam. A expectativa de pesquisadores e analistas políticos é de que novos levantamentos voltem a abordar o tema da interferência estrangeira, em especial após eventos diplomáticos relevantes ou novas decisões da Justiça brasileira envolvendo atores estrangeiros.
Para o eleitor comum, o recado dos dados do Datafolha é claro: a percepção sobre a interferência externa já é um tema consolidado no debate público e deve permanecer no centro das discussões até o pleito. Acompanhar fontes oficiais, verificar a procedência de informações e desconfiar de narrativas extremadas — vindas de qualquer lado — segue sendo a forma mais eficaz de se proteger de manipulações, independentemente da origem.
Perguntas frequentes
Quando foi realizada a pesquisa Datafolha sobre interferência estrangeira?
Os entrevistas foram feitas entre terça-feira, 18, e quinta-feira, 20, e o recorte foi divulgado neste domingo, 23.
Quantas pessoas foram ouvidas pelo Datafolha?
Foram ouvidos 2.058 eleitores brasileiros, com margem de erro máxima de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
Quem contratou a pesquisa?
A pesquisa foi contratada pelo jornal Folha de S. Paulo e pela TV Globo e registrada no TSE sob o código BR-04496/2026.
Qual é a ligação entre os Estados Unidos e esse debate?
Nos últimos meses, o governo de Donald Trump impôs tarifas sobre produtos brasileiros, ameaçou aplicar sanções ao ministro Alexandre de Moraes e revogou o visto da embaixadora Maria Luiza Viotti — gestos que o Palácio do Planalto associou a tentativas de interferência no processo eleitoral.
As eleições brasileiras estão realmente sob ameaça de interferência?
Até o momento, não há confirmação oficial de operações concretas de interferência estrangeira no sistema eleitoral brasileiro. A percepção de risco, conforme revelou o Datafolha, reflete o momento de tensão diplomática, e não necessariamente a existência de ações comprovadas.
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