Economia

Dívida dos EUA atinge US$ 40 trilhões pela primeira vez

Crescimento preocupa analistas: montante dobrou em menos de uma década e gastos com juros superam orçamento de Defesa americano.

Dívida dos EUA atinge US$ 40 trilhões pela primeira vez

A dívida bruta do governo dos Estados Unidos ultrapassou, pela primeira vez na história, a marca de US$ 40 trilhões nesta quarta-feira (19), de acordo com dados do Departamento do Tesouro. O endividamento americano praticamente dobrou desde 2017 e chega ao novo patamar em um momento delicado para o segundo mandato de Donald Trump, marcado por juros elevados, déficits persistentes e pressão crescente sobre os títulos públicos da maior economia do mundo.

Segundo o portal Abril.com.br, o estoque bruto da dívida federal atingiu cerca de US$ 40,05 trilhões, divididos entre aproximadamente US$ 32,3 trilhões em títulos detidos por investidores e US$ 7,8 trilhões em obrigações entre órgãos do próprio governo. O número consolida uma trajetória de expansão acelerada que preocupa economistas, gestores e autoridades monetárias em diferentes continentes.

Como os Estados Unidos chegaram a US$ 40 trilhões de dívida?

O endividamento americano não é um fenômeno recente, mas ganhou velocidade nas últimas duas décadas. Para dimensionar o salto, basta comparar três marcos:

  • 2017: a dívida bruta era de aproximadamente US$ 20 trilhões, no fim do primeiro mandato de Trump.
  • 2020: com a pandemia de Covid-19 e os pacotes trilionários de estímulo, o estoque saltou para cerca de US$ 27 trilhões.
  • 2025: o volume praticamente dobrou em menos de uma década, chegando ao novo teto de US$ 40 trilhões.

Esse crescimento foi puxado por uma combinação de fatores estruturais: envelhecimento da população, gastos obrigatórios com Previdência e saúde (Medicare e Medicaid), juros sobre a própria dívida e, mais recentemente, cortes de impostos e novos pacotes de gastos aprovados pelo Congresso. O resultado é uma conta que cresce mais rápido do que a economia, como indicam projeções do Escritório de Orçamento do Congresso (CBO), que já estimam a dívida pública acima de 120% do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA.

O que está dentro do número de US$ 40 trilhões?

Não se trata de um único "bolo" homogêneo. A dívida bruta federal é composta por diferentes camadas:

  • Títulos em poder de investidores (US$ 32,3 trilhões): são os Treasury Bonds, Notes e Bills negociados no mercado, detidos por bancos, fundos, governos estrangeiros, fundos de pensão e pessoas físicas. É a parcela que realmente financia o governo no mercado.
  • Obrigações entre órgãos do governo (US$ 7,8 trilhões): basicamente títulos que a Seguridade Social e outros fundos públicos detêm do próprio Tesouro. Não representa pressão direta sobre o mercado, mas é contabilizada na dívida bruta.

Em termos relativos, US$ 40 trilhões equivalem a algo em torno de um terço de toda a riqueza produzida no planeta em um ano (o PIB global é estimado pela cerca de US$ 110 trilhões). Per capita, considerando a população americana de cerca de 340 milhões de habitantes, o estoque bruto corresponde a aproximadamente US$ 117 mil por habitante.

Déficit e juros: a conta que não fecha

O novo recorde da dívida coincide com um cenário fiscal deteriorado. Conforme dados reproduzidos pela Abril.com.br, nos primeiros dez meses do ano fiscal americano (encerrado em julho), o governo já havia acumulado US$ 1,8 trilhão de déficit, valor superior ao registrado em todo o ano fiscal anterior. Mantido o ritmo, o rombo deve ultrapassar US$ 2 trilhões até o fim do exercício.

Esse descompasso entre receitas e despesas é o motor do crescimento da dívida. E o problema se agrava quando os juros pagos sobre essa mesma dívida ficam mais caros. Nesta semana, o rendimento dos títulos do Tesouro americano de 30 anos chegou a cerca de 5,33%, o maior nível desde 2007, segundo reportagens internacionais.

"Quanto maior a dívida, maior o volume de papéis que o Tesouro precisa emitir para refinanciá-la. Quando os juros longos sobem, o custo de rolar essa dívida explode, criando um efeito bola de neve", resume o economista americano Mark Zandi, da Moody's Analytics, em análises recentes.

Na prática, o pagamento de juros já supera, em alguns meses, o gasto total com defesa dos EUA, e tende a se tornar a terceira maior despesa do orçamento federal, atrás apenas de Previdência e saúde.

Por que isso importa para o Brasil?

A dívida americana não é um problema exclusivo de Washington. Ela afeta diretamente a vida financeira de brasileiros e brasileiras, mesmo que de forma indireta. Os principais canais de transmissão são:

  1. Juros globais mais altos: títulos do Tesouro americano são referência para o preço do dinheiro no mundo. Quando o rendimento dos Treasuries sobe, países emergentes, incluindo o Brasil, enfrentam pressão sobre seus próprios juros e sobre o câmbio.
  2. Câmbio volátil: dúvidas sobre a sustentabilidade fiscal americana tendem a enfraquecer o dólar no longo prazo, mas geram oscilações de curto prazo que chegam ao real.
  3. Custo de crédito e investimentos: empresas brasileiras que tomam dólar, captam no exterior ou dependem de commodities precificadas em moeda americana sentem os efeitos da volatilidade.
  4. Risco de contágio: uma eventual crise de confiança nos Treasuries poderia provocar fuga de capital de mercados emergentes, como ocorreu em episódios anteriores (1997, 2008, 2013, 2020).

Para o investidor brasileiro, o cenário reforça a importância de diversificação, atenção à duration da renda fixa e cuidado com exposições concentradas em ativos atrelados ao dólar.

Os desafios do segundo mandato de Trump

O marco dos US$ 40 trilhões ocorre em meio a um dos momentos mais delicados do segundo mandato de Donald Trump. A promessa inicial de controlar gastos e reduzir o déficit tem colidido com a aprovação de novos pacotes, incluindo a lei fiscal apelidada de "One Big Beautiful Bill Act", que prevê cortes de impostos e aumento de despesas em áreas como defesa e segurança nas fronteiras.

Ao mesmo tempo, as tentativas de enxugar a máquina pública por meio do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), comandado inicialmente pelo bilionário Elon Musk, não trouxeram a economia fiscal esperada. Musk deixou o cargo em maio de 2025 sem entregar a meta de US$ 2 trilhões em cortes.

O resultado é um governo que arrecada menos do que gasta, emite mais dívida do que o mercado gostaria e paga juros cada vez mais altos por ela.

O que observar nos próximos meses?

Para acompanhar a evolução do tema, vale ficar atento a alguns

Yuri Augusto
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Yuri Augusto

Yuri Augusto Jornalista e entusiasta de inovação digital, Yuri acompanha de perto as principais movimentações do mercado, economia e tecnologia. Com foco em traduzir informações complexas em análises acessíveis, é o responsável por trazer os conteúdos mais relevantes e em primeira mão para os leitores do GCBS News.

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