O documentário "Musk", dirigido pelo premiado cineasta americano Alex Gibney e dedicado a uma das figuras mais poderosas e polêmicas do mundo contemporâneo, foi exibido fora de competição no Festival de Veneza nesta terça-feira, 8, e provocou forte repercussão entre críticos, jornalistas e espectadores presentes ao evento, segundo o portal Abril.com.br. Com quase quatro horas de duração, a obra reúne depoimentos inéditos de pessoas próximas ao bilionário sul-africano naturalizado americano, investidores do setor de tecnologia, ex-funcionários da Tesla e da SpaceX, além de integrantes do Doge (Department of Government Efficiency), departamento do governo americano que Musk comandou no ano passado.
Um retrato crítico de quem se recusou a participar
Elon Musk não concedeu entrevista a Alex Gibney durante a produção do documentário. A recusa não impediu o diretor de incluí-lo narrativamente: a solução encontrada foi construir um avatar digital do empresário, com sincronização labial e voz geradas por inteligência artificial. O "Musk virtual" responde a perguntas usando exclusivamente declarações reais que o verdadeiro Musk deu em entrevistas e aparições públicas ao longo dos últimos anos. A escolha carrega uma ironia deliberada — o filme que questiona o poder tecnológico de Musk utiliza justamente a IA para produzir a conversa que ele se recusou a ter.
Gibney é um dos documentaristas mais respeitados do cinema contemporâneo. Sua filmografia inclui:
- "Taxi to the Dark Side" (vencedor do Oscar de melhor documentário em 2008);
- "Enron: The Smartest Guys in the Room" (2005);
- "Going Clear: Scientology and the Prison of Belief" (2015);
- "The Inventor: Out for Blood in Silicon Valley" (2019).
Especialista em investigar figuras e instituições de poder, Gibney confere ao longa uma camada adicional de credibilidade justamente porque o biografado optou por se ausentar do processo.
Ashley St. Clair e a obsessão por herdeiros
Um dos momentos mais comentados do documentário é a entrevista com Ashley St. Clair, ativista conservadora e comentarista pró-Trump que teve um filho com Musk em 2024. Segundo o portal Abril.com.br, ela relata que recusou uma proposta de acordo de confidencialidade no valor de 40 milhões de dólares oferecida pelo empresário para não falar publicamente sobre a relação. A criança é uma dos 14 herdeiros reconhecidos publicamente por Musk até o momento, conforme informações amplamente divulgadas pela imprensa internacional.
St. Clair é uma das vozes que levanta o que o documentário aponta como um dos pontos mais polêmicos em torno do bilionário: a obsessão por acumular descendentes. Segundo relatos presentes no filme, Musk estaria se preparando para um cenário futuro de guerra civil nos Estados Unidos, que causaria uma ampla devastação no país. Diante desse possível "apocalipse", o empresário teria buscado garantir a continuidade de sua linhagem com um número elevado de filhos.
O episódio conecta-se a falas públicas anteriores do próprio Musk, que em diferentes ocasiões associou a queda nas taxas de natalidade mundiais ao colapso de civilizações. Para ele, a humanidade estaria em risco se a população mundial não se reproduzisse em ritmo suficiente. A leitura crítica apresentada no documentário, porém, vai além: sugere que, na visão do empresário, a preparação para uma catástrofe não seria coletiva, mas familiar.
As eleições de 2024 e a suspeita de interferência
O segundo ponto polêmico gira em torno das eleições presidenciais americanas de novembro de 2024, vencidas por Donald Trump. Embora o documentário não apresente provas conclusivas de que Musk tivesse informação privilegiada sobre o resultado, a produção lista depoimentos de pessoas próximas ao empresário que suspeitam de alguma forma de interferência no pleito, conforme relatado pela Abril.com.br.
Antes da votação, Musk demonstrava uma segurança incomum quanto à vitória republicana e afirmava, segundo o filme, ter recebido do céu uma confirmação sobre o desfecho da eleição. A ironia, registrada no documentário, é que Musk controla constelações de satélites da Starlink — serviço de internet via satélite operado pela SpaceX que mantém conexões em regiões remotas e zonas de conflito — além da rede social X, antigo Twitter, plataforma que teria priorizado conteúdos pró-Trump em seus sistemas de recomendação em determinados períodos.
O episódio levanta uma questão mais ampla destacada pela reportagem: quanto poder sobre informação, dados e opinião pública Musk acumulou a ponto de potencialmente influenciar um ato democrático? A pergunta não é retórica. Nos Estados Unidos e na União Europeia, pesquisadores e órgãos reguladores já investigam o impacto de algoritmos de redes sociais e o papel da Starlink em fluxos de informação sensíveis, incluindo zonas de guerra e processos eleitorais.
O Doge e o poder político do bilionário
O documentário também aborda a passagem de Musk pelo Doge (Department of Government Efficiency), órgão criado no segundo mandato de Donald Trump e entregue ao comando do empresário. A nomeação foi alvo de intenso debate nos Estados Unidos sob argumentos de que um agente nascido no exterior — Musk obteve a cidadania americana em 2002, depois de deixar a África do Sul — estaria conduzindo cortes estruturais em agências federais.
Ex-funcionários e integrantes do departamento ouvidos por Gibney relatam o cotidiano da gestão de Musk à frente do órgão, marcado por demissões em massa, reestruturação de agências e tentativa de incorporar tecnologias de inteligência artificial em processos burocráticos. Os trechos compõem um quadro de como o poder privado de um bilionário da tecnologia pode se converter em poder estatal quando há convergência política.
Por que o documentário importa para o leitor brasileiro
A obra não trata apenas de um homem excêntrico do outro lado do mundo. Musk tem negócios e influência diretos no Brasil. Entre os pontos de contato mais relevantes estão:
- Starlink: a empresa é fornecedora de internet via satélite em áreas remotas da Amazônia, foi credenciada pelo governo federal e atende comunidades ribeirinhas, escolas rurais e operações de fiscalização ambiental;
- X (antigo Twitter): uma das plataformas mais usadas por políticos, jornalistas e cidadãos brasileiros, alvo de decisões do Supremo Tribunal Federal e da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) por disputas sobre moderação de conteúdo e desinformação;
- Tesla: opera no mercado brasileiro e discute, conforme declarações públicas de executivos, a instalação de uma fábrica no país;
- Regulação de inteligência artificial: o uso do avatar digital no próprio documentário dialoga com o debate do marco legal de IA em tramitação no Congresso Nacional.
Em outras palavras, o dilema americano apresentado no filme — o acúmulo de poder tecnológico, informacional e político por uma única pessoa — é também um dilema brasileiro, dada a presença concreta de Musk em infraestrutura digital, telecomunicações e mercado automotivo nacional.
Perguntas frequentes
O que é o documentário "Musk"?
É um longa dirigido por Alex Gibney que traça um perfil crítico do bilionário Elon Musk. Tem quase quatro horas de duração e reúne depoimentos de ex-funcionários, investidores, pessoas próximas ao empresário e integrantes do Doge, além de um avatar digital criado com IA para simular uma entrevista que Musk se recusou a conceder.
Onde e quando o documentário foi exibido?
Foi exibido fora de competição no Festival de Veneza nesta terça-feira, 8, conforme reportado pelo portal Abril.com.br. O festival italiano é um dos mais prestigiados do circuito cinematográfico mundial.
Quem é Ashley St. Clair?
Ashley St. Clair é uma ativista conservadora e comentarista política pró-Trump que teve um filho com Elon Musk em 2024. Segundo o documentário, ela recusou uma proposta de US$ 40 milhões em acordo de confidencialidade para não revelar publicamente detalhes da relação.
Qual a relação do documentário com a inteligência artificial?
O longa utiliza um avatar digital de Musk, com voz e sincronização labial geradas por inteligência artificial, para reproduzir falas reais do empresário. A escolha foi feita porque Musk se recusou a conceder entrevista ao diretor e funciona como crítica ao próprio uso da tecnologia pelo bilionário.
O documentário comprova que Musk interferiu nas eleições dos EUA em 2024?
Não. Segundo a Abril.com.br, o filme não apresenta provas conclusivas de que Musk tivesse informação privilegiada sobre o resultado da eleição vencida por Donald Trump, mas lista depoimentos de pessoas próximas que suspeitam de alguma forma de influência do empresário no pleito.
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