Quase metade da população adulta do Brasil carrega alguma dívida ativa, enquanto empresas de todos os portes fecham as portas em ritmo recorde. Esse cenário, que já preocupava economistas e consumidores, ganhou status de protagonista da corrida presidencial e pode influenciar diretamente o resultado do segundo turno entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), herdeiro político do ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo reportagem do portal Abril.com.br, baseada em dados da pesquisa Quaest, a economia saltou nas últimas semanas como uma das maiores preocupações dos eleitores e disputa agora o segundo lugar no ranking de problemas nacionais, atrás apenas da violência.
Por que a economia virou tema central da campanha
Durante anos, pautas como segurança pública e combate à corrupção monopolizaram o debate eleitoral brasileiro. Mas o bolso voltou a falar mais alto. Entre o início de agosto e a segunda semana de setembro, o percentual de entrevistados pela Quaest que apontaram a economia como o maior problema do país subiu de 13% para 19%, um salto de seis pontos percentuais em pouco mais de um mês.
O movimento coincide com uma série de indicadores negativos que afetam o cotidiano das famílias. Com 84 milhões de brasileiros endividados — o que corresponde a mais da metade da população adulta —, a inadimplência do consumidor e o fechamento de empresas atingiram patamares recordes em 2025, conforme registros do Serasa Limpa Nome e de juntas comerciais estaduais. Para o eleitor, o efeito é direto: quem antes votava com base em bandeiras ideológicas agora mede o candidato pelo impacto no preço do aluguel, do supermercado e da parcela do cartão.
O contraste entre o discurso oficial e o sentimento das ruas
O Planalto tem buscado projetar uma imagem de recuperação econômica, com peças de comunicação que destacam geração de empregos formais, queda do desemprego e programas sociais. A estratégia, no entanto, esbarra na percepção concreta da população. O crescimento do endividamento das famílias, a alta do custo de vida e a persistência de juros elevados formam um pano de fundo que enfraquece a narrativa oficial.
Do outro lado, Flávio Bolsonaro tenta ocupar esse espaço, apostando na bandeira do ajuste fiscal, da redução da carga tributária e do protagonismo da família Bolsonaro na política nacional. Sua campanha tem explorado o argumento de que a herança econômica herdada de governos anteriores limita a capacidade de reação do atual governo — uma tese que ganha tração entre setores sensíveis ao tema fiscal.
Como a preocupação varia por região do Brasil
Os números da Quaest revelam que a inquietação com a economia não se distribui de forma homogênea pelo território. Quatro das cinco regiões pesquisadas registraram aumento nas menções ao tema nas últimas semanas de levantamento:
- Sudeste: passou de 14% para 22%, o maior salto percentual entre as regiões e indicador relevante por concentrar o maior colégio eleitoral do país.
- Sul: subiu de 20% para 22%, mantendo-se entre os maiores índices de preocupação do país.
- Centro-Oeste: recuou de 21% para 18%, mas segue bem acima dos 11% registrados no início de agosto.
- Norte e Nordeste: também figuram entre as regiões em que o tema ganhou força, embora com intensidade distinta.
Esse mosaico regional ajuda a explicar por que candidatos intensificam viagens e propostas específicas para estados como São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná, todos com peso decisivo no segundo turno.
Mulheres e jovens: os perfis mais sensíveis ao tema
Um dos recortes mais reveladores da pesquisa Quaest mostra que as mulheres — que representam mais da metade do eleitorado apto a votar — passaram a se preocupar mais com a economia. A menção ao tema entre as eleitoras subiu de 16% para 19% nas últimas semanas, ritmo semelhante ao observado entre os homens, que foram de 17% para 19%.
Já na análise por faixa etária, o alarme é ainda mais forte entre os jovens de 16 a 34 anos, faixa na qual 23% dos entrevistados colocam a economia no topo da lista de problemas. O dado é coerente com o cenário atual: essa geração enfrenta alta do aluguel, dificuldade de inserção no mercado formal e aumento do endividamento com cartões de crédito e financiamentos estudantis, fatores que amplificam a percepção de crise.
Renda média e classe média alta: onde a pressão mais cresce
Outra conclusão importante do levantamento diz respeito à renda. Entre os brasileiros que ganham de 2 a 5 salários mínimos, a preocupação com a economia subiu de 17% para 20% entre o início e a metade de setembro. O movimento, porém, é ainda mais expressivo na faixa acima de 5 salários mínimos, em que as menções saltaram de 17% para 24% — um aumento de sete pontos em poucas semanas.
O dado sugere que a deterioração da economia não atinge apenas as camadas mais pobres. A classe média, historicamente mais sensível a oscilações de emprego, renda e patrimônio, começa a reagir de forma mais intensa, o que tende a pressionar os candidatos por respostas concretas sobre inflação, câmbio, crédito e reforma tributária.
O que está em jogo no segundo turno
Com a corrida polarizada entre Lula e Flávio Bolsonaro, a disputa promete ser decidida, em grande medida, pela capacidade de cada lado de responder à pergunta mais básica do eleitor: "o que você vai fazer pelo meu bolso?"
Para Lula, o desafio é transformar indicadores macroeconômicos positivos em narrativa percebida no dia a dia. Para Flávio Bolsonaro, o caminho passa por se consolidar como alternativa viável, superando a resistência do eleitorado do Centro-Sul e ampliando apoio no Nordeste, regiões em que Lula ainda mantém bases históricas. O resultado das urnas dependerá, cada vez mais, de quem conseguir traduzir números em solução visível para quem paga contas, parcela financiamento e tenta fechar o mês no azul.
Perguntas frequentes sobre economia e eleições
Quantos brasileiros estão endividados atualmente?
Segundo dados do Serasa Limpa Name, citados pela reportagem do portal Abril.com.br, cerca de 84 milhões de brasileiros estão com algum tipo de dívida ativa, o que corresponde a mais da metade da população adulta do país.
Qual é o maior problema do Brasil na visão dos eleitores?
A violência segue na liderança, com 31% das menções na última rodada da Quaest. Em seguida aparecem, praticamente empatadas, a economia e a corrupção, mas a economia foi o tema que mais cresceu nas últimas semanas.
Como a economia varia por região nas pesquisas?
O Sudeste registrou o maior salto, de 14% para 22%. O Sul subiu de 20% para 22%, enquanto o Centro-Oeste caiu de 21% para 18%, mas segue acima dos 11% registrados no início de agosto.
Quem mais se preocupa com a economia nestas eleições?
As mulheres e os jovens de 16 a 34 anos aparecem como os perfis mais sensíveis ao tema. Na faixa acima de 5 salários mínimos, as menções saltaram de 17% para 24% em poucas semanas.
Quais candidatos disputam o segundo turno?
A reportagem do portal Abril.com.br destaca a polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), representante do bolsonarismo na disputa nacional.
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