Fazenda atribui aperto das famílias ao custo do crédito, não ao tamanho da dívida das famílias
Em meio à corrida presidencial, o Ministério da Fazenda apresentou, nesta terça-feira, um diagnóstico sobre o endividamento das famílias brasileiras que contraria a narrativa predominante na campanha. Segundo a pasta, o peso no bolso do consumidor não vem do volume da dívida, que se mantém praticamente estável há três anos, mas do custo elevado das linhas de crédito mais consumidas no dia a dia — como o rotativo do cartão de crédito e o cheque especial, modalidades que dispararam de preço durante o ciclo de aperto monetário.
A leitura foi feita por Rafael Leão, subsecretário de Política Macroeconômica da Fazenda, durante coletiva em Brasília. Para ele, o debate público tem confundido dois indicadores distintos: o saldo total da dívida familiar e o seu custo médio efetivo. "São coisas diferentes", resumiu o técnico, ao reforçar que o objetivo do estudo foi "jogar luz" sobre o tema e avaliar se há "ruptura ou estresse no mercado".
Estoque de dívida estável, mas juros nas alturas
Os dados divulgados pela Fazenda indicam que o estoque total da dívida das famílias com o sistema financeiro permanece em patamar próximo ao observado nos últimos três anos, sem aceleração relevante. O que mudou, segundo o governo, foi a composição dos juros. Modalidades como o cartão de crédito rotativo, hoje próximo de 436% ao ano, o cartão parcelado**, e o cheque especial ficaram significativamente mais caras à medida que o Comitê de Política Monetária (Copom) elevou a Taxa Selic para combater a inflação.
Na prática, isso significa que o brasileiro que recorre a essas linhas para fechar o mês sente o aperto mesmo sem ter contraído novas dívidas em volume maior. O efeito é direto no orçamento: a parcela mensal devida ao banco cresce não porque se pediu mais, mas porque cada real emprestado custa mais caro.
Por que o rotativo e o cheque especial pesam tanto?
O rotativo do cartão funciona como um "limite de emergência": quando o consumidor não paga a fatura integral, o saldo restante é financiado pelo banco a juros altíssimos. O Conselho Monetário Nacional chegou a editar regras para limitar o uso prolongado do rotativo, mas a modalidade segue entre as mais onerosas do mercado. Já o cheque especial é um limite pré-conto aprovado na conta-corrente, com juros calculados diariamente sobre o valor utilizado.
Como ambas as modalidades têm spreads elevados e riscos de inadimplência historicamente altos, os bancos repassam com mais força as elevações da Selic para a taxa final cobrada do cliente. É por isso que, mesmo com a Selic caindo, a transmissão para o rotativo e o cheque especial costuma ser lenta e parcial.
Selic em queda começa a aliviar o bolso
Na semana passada, o Banco Central promoveu o quinto corte seguido da taxa básica de juros, reduzindo-a de 14% para 13,75% ao ano. A decisão foi tomada em meio à desaceleração da inflação e à expectativa de que o ciclo de cortes continue ao longo do ano, caso o cenário fiscal e de preços permaneça favorável.
Segundo Rafael Leão, a queda da Selic deve afrouxar gradualmente o aperto justamente nas modalidades mais sensíveis ao custo de captação dos bancos. "Conforme a política monetária vai se flexibilizando, vai afrouxando esse aperto, especialmente nessas modalidades mais caras", afirmou o subsecretário, reforçando que a equipe econômica acompanha os dados para evitar que o crédito volte a se expandir de forma desordenada.
O que muda para o consumidor na prática?
Para quem está no rotativo ou no cheque especial, a orientação de especialistas em educação financeira é a mesma de sempre: priorizar a quitação dessas linhas antes de qualquer outra dívida, justamente por causa do custo. Com a Selic em trajetória de queda, a tendência é que as faturas de cartão e os juros do cheque especial comecem a ceder nos próximos meses, ainda que de forma gradual.
Quem tem condições pode negociar a migração do rotativo para o cartão de crédito parcelado, modalidade cuja taxa é menor e cujo prazo permite melhor planejamento. Outra alternativa muito utilizada é o crédito consignado, disponível para servidores públicos, aposentados e pensionistas do INSS, que segue com juros mais baixos por conta da garantia de desconto em folha.
O contexto político: por que o tema voltou ao centro do debate
O endividamento das famílias voltou ao noticiário justamente por causa da campanha presidencial. Candidatos da oposição têm usado o indicador como peça de crítica ao governo Lula, argumentando que o consumidor perdeu poder de compra e está mais endividado. A Fazenda, por sua vez, procurou antecipar a narrativa apresentando dados que relativizam essa percepção.
A estratégia é clássica em anos eleitorais: quando um indicador pode ser usado contra o governo, a área econômica costuma divulgá-lo oficialmente para controlar a versão que circula na imprensa e nas redes sociais. Neste caso, a tese defendida pela equipe econômica é que não há ruptura no mercado de crédito, apenas um ajuste de preços nas modalidades mais caras, que tende a se reverter com a queda dos juros.
Quais dados a Fazenda analisou?
Segundo o subsecretário, o estudo considerou três aspectos do endividamento: o volume da carteira, o custo médio das operações e o perfil de risco dos contratos. A conclusão é que não há sinais de estresse sistêmico, mas há um núcleo específico de famílias — geralmente as de renda mais baixa — que está exposto a juros muito altos.
Esse perfil é justamente o que utiliza rotativo, cheque especial e modalidades similares para lidar com fechamentos de mês negativos. Para esse grupo, a desaceleração da Selic é particularmente relevante, porque o alívio nos juros chega antes do que em outras linhas, como financiamento imobiliário e crédito automotivo, que têm repasses mais lentos.
Próximos passos e o que acompanhar
Nos próximos meses, três indicadores vão dizer se a tese da Fazenda se confirma. O primeiro é a taxa média de juros do rotativo do cartão de crédito, divulgada mensalmente pelo Banco Central. O segundo é o volume de inadimplência acima de 90 dias, que sinaliza se as famílias estão conseguindo pagar suas dívidas em dia. O terceiro é a próxima decisão do Copom, prevista para o fim deste mês, que pode confirmar ou não o ritmo de cortes da Selic.
Se o ciclo de cortes prosseguir e a inflação permanecer dentro da meta, a expectativa é de que o custo do rotativo e do cheque especial recuem gradualmente até o fim do ano, devolvendo parte do poder de compra às famílias mais afetadas pelo aperto monetário. Caso contrário, o debate sobre endividamento deve continuar no centro da disputa eleitoral.
Perguntas frequentes
O endividamento das famílias brasileiras está crescendo?
Segundo a Fazenda, o estoque total da dívida das famílias está praticamente estável nos últimos três anos, com crescimento considerado "muito moderado" em comparação histórica. O aperto no bolso vem mais do custo do crédito do que do volume da dívida.
Por que o cartão de crédito rotativo cobra juros tão altos?
O rotativo é uma modalidade de financiamento de curto prazo com risco elevado de inadimplência e prazo curto de retorno para o banco. Por isso, os juros chegam a cerca de 436% ao ano, sendo uma das linhas mais caras do sistema financeiro.
A queda da Selic já está chegando ao consumidor?
A transmissão dos cortes da Selic para o rotativo e o cheque especial é gradual. Os primeiros efeitos já aparecem nas faturas mais recentes, mas o alívio completo depende da sequência de cortes do Copom ao longo dos próximos meses.
O que é melhor para quitar dívidas caras: consignado ou parcelamento?
Para quem tem acesso, o crédito consignado costuma ter a menor taxa do mercado, pois é pago com desconto direto em folha. Para quem não tem consignado disponível, negociar a migração para o cartão parcelado já reduz o custo em relação ao rotativo.
Existe risco de crise de crédito no Brasil?
De acordo com a Fazenda, não há sinais de "ruptura ou estresse no mercado". A inadimplência subiu em alguns segmentos, mas o sistema financeiro segue capitalizado e com liquidez confortável, segundo relatórios do próprio Banco Central.
Gostou desta matéria? Compartilhe com quem precisa ficar bem informado e assine a newsletter do GCBS NEWS para receber as principais notícias direto no seu e-mail.




