Flávio Bolsonaro coloca Alfredo Gaspar na vice e prioriza combate à corrupção em vez de aceno ao mercado
A definição do deputado federal Alfredo Gaspar como candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro ao Palácio do Planalto em 2026 revela a estratégia central da campanha: o combate à corrupção, às fraudes e ao crime organizado, e não a busca de um nome com lastro econômico para tranquilizar investidores e o agronegócio. A leitura é do portal Abril.com.br, que analisou o perfil do parlamentar alagoano e os sinais deixados pelas escolhas — e pelas omissões — do senador.
Ao abrir mão de um perfil técnico para a vice, Flávio aposta que a bandeira do "tapa nos ralos do Estado" tem mais força eleitoral do que um vice capaz de dar segurança jurídica ao mercado ou de costurar votações de reformas no Congresso. A economia, segundo a própria campanha, segue nas mãos da coordenadora Daniella Marques.
Quem é Alfredo Gaspar e por que ele importa
Alfredo Gaspar de Mendonça Neto, 52 anos, é delegado da Polícia Federal e deputado federal por Alagoas. Antes de chegar à Câmara, atuou como promotor de Justiça e como secretário de Segurança Pública de Alagoas no governo Renan Filho. Foi ainda titular da Controladoria-Geral da União no início do governo Bolsonaro, entre 2019 e 2020.
Esse currículo faz de Gaspar uma figura conhecida nas trincheiras de investigação. Não é, porém, um operador da área econômica: nunca comandou Fazenda, Planejamento, Desenvolvimento ou qualquer pasta de negociação com o Congresso — um vácuo que a campanha ainda não explicou como pretende preencher.
O que a CPMI do INSS fez pela projeção nacional de Gaspar
O grande trunfo eleitoral do parlamentar é a relatoria da CPMI do INSS, instalada em 2025 para investigar descontos associativos e empréstimos fraudulentos descontados de aposentados e pensionistas sem autorização. O grupo Parlamentar Misto de Inquérito ouviu depoimentos, quebrou sigilos e produziu um relatório robusto que pediu 216 indiciamentos.
Gaspar estimou que, entre 2015 e 2025, mais de R$ 7 bilhões foram retirados de benefícios previdenciários por meio de fraudes e descontos indevidos. O parecer final do colegiado foi rejeitado pela maioria dos parlamentares, mas o trabalho deu ao deputado visibilidade nacional como investigador — uma espécie de "garoto-propaganda" do tema, algo raro em chapas presidenciais.
Na prática, a CPMI funcionou como vitrine política. Mesmo com o relatório derrubado, a narrativa de "devolver o dinheiro do aposentado" virou peça-chave do discurso de Flávio, que tem entre os maiores eleitorados do Brasil justamente a fatia de beneficiários do INSS e da previdência rural.
Combate ao mercado ilegal entra como tese econômica informal
Gaspar também capitaneia, na Câmara, o grupo de trabalho encarregado de combater pirataria, contrabando, sonegação e lavagem de dinheiro. Ele costuma citar perdas de cerca de R$ 485 bilhões por ano provocadas pelo mercado ilegal no Brasil.
A cifra, contudo, precisa ser lida com cuidado: ela soma impostos não recolhidos, faturamento informal e outros prejuízos indiretos — não representa, portanto, dinheiro disponível em caixa que poderia ser "desbloqueado" para financiar programas do governo. Ainda assim, o número alimenta a tese de que há gordura a queimar antes de qualquer reforma mais dolorosa.
"O combate à corrupção mobiliza mais votos do que a escolha de um vice capaz de tranquilizar o mercado." — interpretação do portal Abril.com.br sobre o cálculo da campanha de Flávio.
O que ficou de fora da chapa — e o que isso diz
A vice poderia cumprir, pelo menos, três funções clássicas em uma campanha presidencial: acenar ao mercado financeiro, atrair o agronegócio ou incorporar um articulador político com trânsito no Congresso. Flávio não escolheu nenhum desses perfis.
Para o setor financeiro, a ausência de um nome com timbre liberal-conservador é um sinal ambíguo. Para o agronegócio, que esperava algum tipo de contrapartida simbólica após anos de proximidade com pautas bolsonaristas, a decepção também é plausível. E para o centrão, que costuma negociar ministérios e espaços no Orçamento, resta a expectativa sobre quem será o "negociador-chefe" da chapa.
Economia segue com Daniella Marques
O programa econômico continua sob coordenação de Daniella Marques, ex-presidente do BNDES e ex-secretária especial do Ministério da Economia. Ela é a formuladora da promessa de um ajuste fiscal equivalente a 1,5% do Produto Interno Bruto, ou cerca de R$ 190 bilhões — meta ambiciosa, que exigirá corte de despesas, reforma administrativa e, em algum grau, reforma da Previdência.
Gaspar pode, no máximo, dar "apelo popular" ao discurso de fechar os ralos do Estado, mas não substitui o operador técnico-político necessário para sentar na mesa com partidos do Centrão e construir maioria para votações de cortes e medidas impopulares. Esse operador ainda não foi apresentado.
O cálculo político por trás da escolha
No fundo, a substituição da variável econômica pela variável anticorrupção responde a uma leitura de campanha. Pesquisas internas do bolsonarismo indicam que pautas como "tolerância zero com o crime", "devolução do dinheiro dos aposentados" e "enfrentamento das máfias do INSS" convertem mais votos no segmento que decide eleições no Sudeste, no Sul e no interior do Nordeste — exatamente onde a disputa tende a ser resolvida.
Para o mercado, restam dois caminhos: acreditar que Daniella Marques terá força política para emplacar o ajuste prometido, ou esperar uma definição posterior sobre o articulador de reformas. Enquanto esse nome não surge, a leitura predominante em bancos e gestoras é de cautela.
Como a chapa pode mudar de configuração até a convenção
Até a convenção partidária que oficializará a candidatura, a campanha ainda pode:
- Anunciar um coordenador de articulação política com trânsito no Congresso para suprir o vácuo deixado pela ausência de um vice "operacional";
- Reforçar o núcleo econômico com nomes de perfil técnico para neutralizar a percepção de fragilidade fiscal;
- Aproveitar novos desdobramentos da CPMI do INSS ou de operações da Polícia Federal para manter o tema anticorrupção no centro do noticiário.
O que está em jogo para o leitor brasileiro
Para quem acompanha a corrida presidencial, a mensagem prática é direta: a chapa de Flávio se venderá como a "chapa da moralização" e não como a "chapa da estabilidade econômica". Isso afeta o que se pode esperar do próximo governo em áreas como previdência, concursos, reforma administrativa, política de segurança pública e relação com o mercado financeiro.
Quem depende do INSS tem razões objetivas para prestar atenção: a CPMI abriu frentes de investigação que podem resultar em novos ressarcimentos, mas também em mudanças nas regras de descontos e consignados. Quem investe em renda fixa ou variável deve acompanhar os próximos anúncios sobre o time econômico — uma definição ainda pendente.
Perguntas frequentes
Quem é Alfredo Gaspar, vice de Flávio Bolsonaro?
Deputado federal por Alagoas, delegado da Polícia Federal e ex-secretário de Segurança Pública do estado. Foi titular da Controladoria-Geral da União entre 2019 e 2020 e relator da CPMI do INSS em 2025.
Por que a escolha de Gaspar é vista como aposta na corrupção e não na economia?
Porque Gaspar é conhecido por investigações e pelo combate a fraudes e ao crime organizado, e nunca ocupou cargos de comando na área econômica. A campanha deixou claro que a pauta anticorrupção terá mais peso que o aceno ao mercado.
Quanto dinheiro a CPMI do INSS apontou como desviado?
O relator estimou mais de R$ 7 bilhões em descontos associativos e empréstimos fraudulentos contra aposentados entre 2015 e 2025. O pedido de 216 indiciamentos foi rejeitado pela maioria do colegiado.
Quem cuida da economia na chapa de Flávio?
A coordenação econômica permanece com Daniella Marques, responsável pela meta de ajuste fiscal de 1,5% do PIB, cerca de R$ 190 bilhões. Não houve, até agora, anúncio de um vice ou coordenador com perfil de negociador no Congresso.
O número de R$ 485 bilhões em perdas com o mercado ilegal é confiável?
É uma estimativa amplamente citada que soma impostos não arrecadados, faturamento informal e outros danos. Não se trata, porém, de recurso disponível em caixa para financiar políticas públicas — é indicador do tamanho do problema, não de receita imediata.
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