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Fracasso da privatização abre crise para Infantino na Fifa

Dirigentes exigem explicações sobre revés comercial e ameaçam futuro do presidente da entidade.

Fracasso da privatização abre crise para Infantino na Fifa

A menos de um mês, a reeleição de Gianni Infantino à presidência da Fifa, prevista para março do próximo ano, parecia um caminho sem obstáculos. Quase todas as 210 associações nacionais com direito a voto apoiavam um quarto mandato do suíço-itáliano que comanda o futebol mundial desde 2016. Não havia oposição significativa. Hoje, o cenário mudou drasticamente. Após duas semanas de ataques contundentes ao seu plano — agora abandonado — de vender participações na Copa do Mundo e em outras competições da entidade para investidores privados, o mundo do futebol aparece nitidamente dividido sobre se deve manter ou dispensar Infantino. É o que revela um mapeamento feito pela BBC Sport, referência internacional em jornalismo esportivo.

Quem é Gianni Infantino e por que ele é tão polêmico

Gianni Infantino assumiu a presidência da Fifa em fevereiro de 2016, em meio à grave crise institucional que culminou com a renúncia de Joseph Blatter. Ex-secretário-geral da Uefa, Infantino foi confirmado no cargo em 2019 e novamente em 2023, em eleições nas quais chegou sem concorrentes. Sob sua gestão, a Fifa viveu expansão comercial sem precedentes: a receita da entidade saltou para cerca de US$ 1,8 bilhão por ano, impulsionada por contratos milionários de transmissão, patrocínios e pelo novo formato do Mundial de Clubes, estreado em 2025 com 32 equipes.

Ao mesmo tempo, o mandatário acumulou críticas por decisões unilaterais, pela proximidade com Estados do Golfo — especialmente Catar e Arábia Saudita — e por opções políticas que desagradaram federações europeias históricas. Para aliados, Infantino modernizou a Fifa; para críticos, concentrou poder e abriu flancos para conflitos de interesse.

O plano de privatização que provocou a rebelião

De acordo com a reportagem da BBC News, o gatilho da atual crise foi a proposta de vender participações em ativos da Fifa — incluindo direitos da Copa do Mundo — para fundos de private equity e investidores soberanos. O modelo previa injetar capital privado na entidade em troca de fatias de receitas futuras, estratégia semelhante à adotada por ligas europeias como a inglesa.

A ideia gerou reação imediata de várias confederações e federações nacionais, que temeram a perda de controle sobre o principal torneio do planeta. Pressionado, Infantino recuou e desistiu do projeto, mas o estrago político já estava feito: abriu-se uma brecha inédita para questionar a hegemonia do suíço.

A defesa do presidente, sustentada por aliados como a Confederação Asiática (AFC) e a Confederação Africana (CAF), argumenta que o aporte privado era necessário para viabilizar a expansão de competições, programas de desenvolvimento e aumentar a distribuição a federações menores. A oposição, capitaneada por parcelas da Uefa e da Conmebol, sustenta que a Fifa é uma entidade pública do futebol e não pode virar commodity de fundos.

Como a BBC mapeou as 210 associações

Para dimensionar a divisão, a BBC Sport consultou todas as 210 federações nacionais com direito a voto. Vale lembrar que a Fifa tem 211 membros, mas o Nepal está atualmente suspenso e não pode participar da votação. A metodologia usada pelo veículo britânico combinou três fontes:

  • Federações que declararam publicamente apoio ou oposição a Infantino;
  • Federações que informaram sua posição ao serem procuradas pela reportagem;
  • Federações cuja posição foi presumida a partir das declarações oficiais de suas confederações continentais (Uefa, Conmebol, Concacaf, CAF, AFC e OFC).

O resultado, segundo a reportagem, é um quadro fragmentado: não há mais uma unanimidade em torno do presidente. Pela primeira vez em seus mandatos, Infantino precisa administrar dissidências internas relevantes a menos de quatro meses do pleito.

O papel das confederações continentais

As seis confederações formam os blocos políticos decisivos da Fifa. Historicamente, cada uma indica tendências de voto que influenciam diretamente suas filiadas. Na conjuntura atual, o cenário é o seguinte:

  • AFC (Ásia) e CAF (África): tendem a apoiar Infantino, em razão do aumento de repasses e da inclusão de mais vagas na Copa do Mundo de 2026. Infantino visitou dezenas de países africanos no início de seu mandato, consolidando uma base sólida;
  • Uefa (Europa): posição mais crítica, especialmente após decisões sobre o Mundial de Clubes e o silêncio da Fifa em casos de ingerência governamental no futebol, como o da Espanha e o da Itália;
  • Conmebol (América do Sul): dividida. A relação histórica com Infantino, que sempre privilegiou a região, esbarra em divergências recentes sobre arbitragem, calendário e o futuro das Eliminatórias;
  • Concacaf (América do Norte, Central e Caribe) e OFC (Oceania): apoiam o presidente em sua maioria, alinhadas ao relacionamento próximo com a América do Norte, sede do Mundial de 2026.

Qual é o impacto concreto para o Brasil

O Brasil, como atual campeão sul-americano e presença garantida na Copa do Mundo de 2026 — realizada nos Estados Unidos, México e Canadá —, está no centro do debate. Uma eventual derrota política de Infantino pode mudar três frentes de interesse direto para o futebol brasileiro:

  1. Calendário internacional: a gestão Infantino ampliou as janelas da Fifa e criou o novo Mundial de Clubes, decisões que afetam diretamente a agenda do Brasileirão e da Conmebol Libertadores;
  2. Repasses financeiros: o programa "Forward 3.0" destina cerca de US$ 8 milhões por ciclo a cada federação filiada. Mudanças na presidência podem alterar critérios de distribuição;
  3. Questões políticas: o país integra a Conmebol, bloco dividido e decisivo na corrida pela sucessão.

Para o torcedor comum, o desfecho da disputa definirá o tom da próxima década do futebol: mais商业化 ou mais preservação do modelo associativo tradicional.

O que esperar das próximas semanas

Com a eleição marcada para março do próximo ano, três cenários se desenham. No primeiro, Infantino recompõe a base e vence sem adversários — hipótese ainda possível, mas menos provável que há um mês. No segundo, surge ao menos um candidato de oposição, abrindo uma votação real pela primeira vez desde 2016. No terceiro, uma solução negociada nos bastidores conduz a um mandato-tampão ou a um pacto de transição.

O certo é que, pela primeira vez em quase uma década, o trono de Infantino está sob contestação formal. A próxima Fifa Extraordinary Congress será o palco em que as 210 federações — ou ao menos as que não aderirem à abstenção — decidirão o futuro do homem que transformou a entidade na maior máquina de receitas do esporte mundial.

Perguntas frequentes

Quando acontece a próxima eleição da Fifa?
A votação está marcada para março do ano que vem, conforme cronograma oficial da entidade.

Quantos países votam na eleição da Fifa?
São 211 federações-membro, mas o Nepal está suspenso e não pode votar. Portanto, 210 associações têm direito a voto efetivo.

Quem é Gianni Infantino?
Suíço naturalizado italiano, ex-secretário-geral da Uefa, preside a Fifa desde fevereiro de 2016, após a renúncia de Joseph Blatter.

Por que a privatização da Copa do Mundo gerou tanta polêmica?
A proposta de vender fatias da competição a fundos privados gerou receio de perda de controle sobre o principal torneio do planeta e críticas de confederações europeias e sul-americanas, embora contasse com apoio de federações asiáticas e africanas.

O que muda para o Brasil se Infantino perder a cadeira?
Pode haver revisão do calendário internacional, ajustes nos repasses da Fifa às confederações e reabertura de debates sobre a distribuição de vagas em Copas do Mundo, embora o país já esteja garantido em 2026.

📰 Leia a matéria original na BBC Sport

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Yuri Augusto
Escrito por
Yuri Augusto

Yuri Augusto Jornalista e entusiasta de inovação digital, Yuri acompanha de perto as principais movimentações do mercado, economia e tecnologia. Com foco em traduzir informações complexas em análises acessíveis, é o responsável por trazer os conteúdos mais relevantes e em primeira mão para os leitores do GCBS News.

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