O mercado brasileiro de fusões e aquisições (M&A) entra no segundo semestre de 2026 em modo de espera seletiva. A combinação entre juros ainda elevados, inflação acima do centro da meta, transição da reforma tributária e a proximidade do calendário eleitoral está fazendo empresas, fundos de private equity, family offices e investidores estratégicos refazerem cálculos antes de assinar qualquer cheque — seja para comprar, seja para vender. Segundo o portal Globo, esse cenário tende a moldar as decisões de M&A nos próximos meses e a reordenar o tipo de ativo que entra no radar dos compradores.
Como os juros altos pressionam as operações de M&A?
A taxa básica da economia, a Selic, foi reduzida em setembro de 2026 para 13,75% ao ano, depois de corte de 0,25 ponto percentual aprovado pelo Comitê de Política Monetária (Copom). O valor passou a vigorar como meta oficial a partir de 17 de setembro, conforme registro histórico do Banco Central. Foi mais um movimento de uma sequência de cortes ao longo do ano, mas o efeito prático sobre o custo de capital permanece limitado: em termos reais, a taxa segue em patamar que penaliza operações alavancadas.
Traduzindo para a mesa de negociação, juros altos significam três coisas: financiamento mais caro para a ponta compradora, exigência maior de retorno mínimo para o vendedor e dilatação do tempo de fechamento de um deal. O private equity, principal motor do segmento no Brasil nos últimos anos, trabalha com estruturas que combinam capital próprio e dívida. Em ambiente de Selic elevada, a relação entre equity e dívida na transação tende a se deslocar para mais capital próprio — o que reduz o número de ofertas competitivas por ativos de médio porte.
Empresas endividadas em moeda local, com fluxos de caixa instáveis e dependência de capital de giro, perdem atratividade. Em sentido oposto, ganham valor relativo companhias com baixa alavancagem, geração de caixa recorrente, margens estáveis e menor dependência dos sócios fundadores — exatamente o tipo de ativo que fundos e estratégicos procuram em ciclos de juros altos.
A inflação muda o cálculo de valuation?
A inflação segue como ponto adicional de atenção. Em julho de 2026, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) variou 0,07% no mês, acumulando alta de 3,44% no ano e de 4,44% em 12 meses, de acordo com informativo da Secretaria de Política Econômica com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado mantém o índice acima do centro da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional, sinalizando cautela sobre o ritmo dos próximos cortes da Selic.
Para operações de M&A, inflação persistentemente elevada interfere em cinco variáveis centrais do valuation: projeções de receita, premissas de crescimento de longo prazo, custos operacionais, necessidade de capital de giro e taxa de desconto aplicada no fluxo de caixa descontado (DCF). Em setores mais expostos a insumos importados, mão de obra, aluguel, logística ou contratos indexados, a contraparte compradora costuma pedir mais clareza sobre cláusulas de repasse de preço, proteção de margem e cobertura contra volatilidade cambial.
Na prática, a due diligence financeira e contábil tende a se alongar, e a cláusula de earn-out — que condiciona parte do preço ao atingimento de metas futuras — ganha peso como mecanismo de proteção. É também mais frequente a exigência de ajustes de preço entre assinatura e fechamento ("closing"), caso os indicadores do período intermediário deteriorem.
O que a reforma tributária muda nas transações?
2026 é o ano-teste da transição para o novo modelo de tributação sobre o consumo. Segundo a Receita Federal, passam a vigorar, em caráter experimental, alíquotas de 0,9% da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e de 0,1% do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), com compensação em relação ao PIS e à Cofins, conforme as regras definidas para a fase de teste.
Apesar das alíquotas reduzidas, o ano-teste funciona como campo de provas para apuração, emissão de documentos fiscais, créditos e débitos. Para empresas envolvidas em M&A, isso traz implicações concretas que começam antes mesmo da assinatura do contrato:
- Mapeamento de créditos tributários: a forma como a empresa-alvo apura e monetiza créditos de PIS, Cofins, CBS e IBS passa a ser variável relevante de análise;
- Declarações e garantias: representações específicas sobre contingências vinculadas à transição costumam ser inseridas nos documentos da operação;
- Modelagem de projeções: a curva de alíquotas até a implementação plena do novo modelo altera o fluxo de caixa disponível projetado para o investidor;
- Setores regulados: empresas de telecomunicações, energia e saúde, com regimes próprios de apuração, pedem pareceres técnicos mais detalhados.
Compradores costumam exigir relatórios de auditoria e laudos específicos para entender como a empresa-alvo está se preparando para a transição, e o custo da due diligence tributária tende a crescer no ciclo atual.
Eleições e calendário político entram nas decisões
O calendário eleitoral adiciona mais uma camada de cautela. Anos de disputa presidencial costumam trazer três efeitos clássicos sobre o M&A: adiamento de decisões dependentes de fôlego regulatório, prorrogação de prazos em setores sensíveis ao governo federal e aumento da procura por ativos considerados "defensivos" — empresas com receita em moeda forte, exposição a commodities essenciais ou contratos de longo prazo com o setor público.
Também é comum que operações cross-border fiquem condicionadas ao resultado das urnas, principalmente quando envolvem fundos estrangeiros que avaliam risco-país. Compradores internacionais, em particular, costumam preferir reabrir seus pipelines de aquisição no Brasil após a definição do cenário político.
Para empresas familiares em processo de sucessão — um dos motores silenciosos do M&A no país —, a janela entre a definição dos candidatos e o segundo turno costuma acelerar a decisão de vender, incorporar um sócio estratégico ou abrir o capital.
Quais perfis de empresa ganham e perdem atratividade?
No cenário atual, observa-se uma hierarquia mais clara de preferência entre os investidores. Segundo o portal Globo, três tipos de empresas tendem a se destacar na disputa por capital em 2026, enquanto alguns perfis perdem valor relativo e podem ter mais dificuldade para fechar transações a múltiplos próximos aos do ano anterior.
Ganham atratividade
- Empresas com receita recorrente (assinaturas, contratos plurianuais, software como serviço);
- Negócios com baixa alavancagem e caixa líquido positivo;
- Companhias em setores resilientes ao ciclo de juros, como saúde, educação, energia e serviços essenciais;
- Empresas com governança formalizada, prontas para receber capital de fundo;
- Operações com exposição a dólar ou indexadores internacionais.
Perdem atratividade
- Empresas com alto endividamento em moeda local;
- Negócios cíclicos dependentes de crédito barato;
- Companhias com fluxo de caixa instável e margens comprimidas;
- Empresas familiares sem protocolo de governança ou plano de sucessão definido;
- Startups pré-operacionais que dependem de rodadas adicionais para sobreviver.
O resultado prático é um rebalanceamento de preço: ativos de alta qualidade podem manter ou até ampliar seus múltiplos, enquanto negócios medianos tendem a sofrer correção de valuation.
Perguntas frequentes
Por que a Selic alta afeta fusões e aquisições?
Juros altos encarecem o financiamento das operações, elevam a taxa de desconto usada nos modelos de valuation e tornam mais rigoroso o crivo sobre empresas endividadas. Compradores reduzem o número de ofertas competitivas e pedem mais garantias e proteção de preço.
Como a inflação influencia o preço de uma empresa em M&A?
A inflação persistentemente acima da meta altera projeções de receita, custos e capital de giro. Compradores ajustam a taxa de desconto, exigem cláusulas de proteção contra volatilidade e costumam alongar a due diligence financeira antes de fechar o negócio.
O que o ano-teste da reforma tributária muda para quem quer vender uma empresa?
A fase de teste da CBS e do IBS em 2026 exige mapeamento de créditos tributários, revisão de declarações e projeções de caixa sob a nova curva de alíquotas. Compradores costumam solicitar laudos específicos, o que aumenta o custo e o tempo da operação.
Vale a pena esperar as eleições para vender uma empresa?
Não há resposta única. Empresas em setores sensíveis a mudanças regulatórias podem se beneficiar de aguardar a definição do cenário, mas negócios defensivos, com fluxo de caixa robusto, costumam manter o apetite de compra mesmo em ano eleitoral.
Quais perfis de empresa atraem mais compradores em ciclos de juros altos?
Companhias com receita recorrente, baixa alavancagem, margens estáveis e governança formalizada. Negócios em setores essenciais, como saúde, energia, educação e serviços, costumam ganhar atratividade relativa.
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