O partido português Livre realiza neste fim de semana, na cidade do Porto, a sua rentrée política de 2025, batizada de "Os Setembristas". O evento, voltado para a formação de quadros e para a apresentação de propostas concretas, marca a tentativa da legenda de se reposicionar no debate público após uma semana turbulenta em Lisboa, dominada pelo debate e pelo chumbo da moção de censura apresentada pelo Chega ao Governo de centro-direita liderado pelo PSD e CDS-PP.
Em declarações à agência Lusa reproduzidas pelo portal Observador.pt, o secretário-geral do Livre, Tomás Cardoso Pereira, resumiu o espírito da iniciativa: "Queremos mostrar que temos propostas sérias e de fundo para responder aos muitos problemas que o país tem". A frase sintetiza a estratégia de um partido que, embora pequeno no Parlamento, busca ocupar o espaço da esquerda não socialista e se apresentar como alternativa viável para 2027.
O que é o Livre e por que a rentrée importa agora
O Livre é um partido político português criado em 2014, identificado com o ecologismo político, o progressismo e o europeísmo. Nasceu de uma cisão interna do Bloco de Esquerda e tem como principal figura pública o histórico dirigente Rui Tavares. Atualmente, é considerado uma força de nicho, mas com presença parlamentar estável e capacidade de influência em debates de costumes, ambiente e transparência democrática.
A chamada rentrée politique — expressão francesa adotada por vários partidos europeus — designa o retorno às atividades políticas após a pausa de verão. Para siglas menores como o Livre, é uma oportunidade de retomar a agenda mediática antes do início do ano parlamentar e de testar discursos e alianças para os meses seguintes.
Por que o evento se chama "Os Setembristas"
O nome escolhido para a edição de 2025 dialoga com a história portuguesa. Os setembristas foram os defensores da revolução liberal de setembro de 1836, que se opuseram ao absolutismo e defenderam reformas constitucionais. A evocação é simbólica: o Livre quer se apresentar como herdeiro contemporâneo de uma tradição reformista, comprometida com a transformação institucional do país.
Quais propostas o Livre pretende apresentar no Porto
Segundo o que foi divulgado à imprensa, o partido pretende detalhar um pacote de propostas estruturadas em torno de cinco eixos temáticos. Embora a versão final só seja conhecida durante o evento, a direção já adiantou os focos prioritários:
- Habitação: combate à especulação imobiliária e políticas de arrendamento acessível — tema que domina o debate público em Portugal e que afeta especialmente jovens e famílias de classe média.
- Saúde: o que o partido classifica como "caos" no Serviço Nacional de Saúde (SNS), com listas de espera longas e falta de profissionais.
- Educação: críticas à "desorganização" nos exames nacionais e no arranque do ano letivo, com relatos de falhas no agendamento de provas e na colocação de docentes.
- Combate à extrema-direita: uma frente política e cultural contra o crescimento do Chega, que nas últimas eleições se tornou a terceira maior força parlamentar do país.
- Alternativa governativa: construção de uma "maioria alternativa" à atual aliança PSD/CDS-PP, com perfil "ecologista e progressista".
O contexto político: a moção de censura do Chega
Poucos dias antes do encontro no Porto, o Parlamento português rejeitou a moção de censura apresentada pelo Chega contra o executivo chefiado por Luís Montenegro. Foi a primeira vez que a legenda de André Ventura conseguiu viabilizar uma moção deste tipo até à fase de votação, aproveitando a dependência parlamentar do Governo minoritário de centro-direita.
O Livre acompanhou o debate com atenção estratégica. Para Tomás Cardoso Pereira, o Chega está "apenas interessado em dominar a agenda mediática com coisas que não respondem aos desafios do país". A declaração revela uma tentativa de diferenciação: enquanto a extrema-direita cresce com pautas identitárias e polarização, o Livre busca capitalizar no campo da governabilidade e das propostas concretas.
Quem é Jorge Pinto e o que significa "chegada ao poder é inevitável"
Em julho, durante a convenção que elegeu a nova direção, o então recém-eleito porta-voz Jorge Pinto afirmou que a chegada do Livre ao poder seria "inevitável". A declaração gerou controvérsia — críticos apontaram que um partido com cerca de 3% das intenções de voto está longe de qualquer maioria.
A leitura mais generosa, adotada pela própria direção, é que o partido se prepara para um ciclo de crescimento, com metas graduais: consolidar representação autárquica em 2025 (quando houver eleições), aumentar bancada parlamentar em 2027 e, eventualmente, integrar uma solução governativa de esquerda. É a mesma estratégia de crescimento lento adotada por partidos verdes europeus como os alemães Grüne e os belgas Ecolo.
O Livre quer mesmo participar de um governo?
Sim. A direção deixou claro que a legenda quer participar "na governação a todas as escalas", desde juntas de freguesia e câmaras municipais até ao executivo nacional. Em Portugal, a tradição de coligações e entendimentos legislativos permite que partidos menores exerçam influência desproporcional ao seu tamanho — basta lembrar o papel do PCP e do Bloco na viabilização dos governos do PS entre 2015 e 2022.
O Livre não fechou portas a uma aliança pós-eleitoral com o Partido Socialista, mas insiste em condicionantes: combate efetivo à corrupção, transição ecológica e defesa do Estado social.
Por que essa notícia interessa ao leitor brasileiro
Embora se refira à política portuguesa, a movimentação do Livre oferece paralelos relevantes para o cenário brasileiro. Os dois países vivem processos políticos espelhados:
- Crescimento da extrema-direita: tanto em Portugal (Chega) quanto no Brasil (PL de Bolsonaro há anos e agora como força de oposição), partidos de direita radical disputam a terceira ou segunda posição.
- Crise habitacional e de saúde pública: temas urbanos e de serviços públicos que afetam diretamente a vida da classe média em ambos os países.
- Fragmentação partidária: a fragmentação crescente do centro e o enfraquecimento de partidos tradicionais (PSD, PS, MDB, PT) criam espaço para legendas de nicho.
- Ecologismo político: pauta cada vez mais relevante nas democracias ocidentais, mas que ainda enfrenta dificuldade em se traduzir em voto.
Para quem estuda sistemas políticos comparados, comunicação política ou tendências eleitorais, o caso do Livre serve como laboratório de como partidos pequenos tentam sobreviver à bipolarização crescente do debate público.
Próximos passos e o que observar
O calendário imediato do Livre inclui:
- Conclusão do encontro "Os Setembristas" no Porto, com apresentação formal do caderno de propostas.
- Definição da estratégia para as eleições autárquicas de 2025, nas quais o partido pretende ampliar o número de vereadores e presidentes de junta.
- Avaliação da posição nas sondagens e reajustes de discurso.
- Preparação para o ciclo eleitoral legislativo de 2027, quando se espera uma disputa acirrada entre PS, AD (PSD/CDS-PP) e Chega.
O desempenho — ou fracasso — da estratégia de se posicionar como "alternativa de governabilidade" será medido nas próximas sondagens e na cobertura dos grandes veículos portugueses ao longo do outono europeu.
Perguntas frequentes sobre o Livre e a rentrée política em Portugal
O que é a rentrée política de um partido?
É o evento de abertura das atividades políticas após o recesso de verão. Na tradição europeia, partidos usam a rentrée para apresentar prioridades, formar quadros e testar novos discursos antes do início do ano parlamentar.
O Livre é um partido de esquerda?
Sim. O partido se autodefine como ecologista, progressista e de esquerda democrática. Está posicionado à esquerda do PS e é distinto do Bloco de Esquerda e do PCP, com quem mantêm relação crítica mas dialoga em alguns temas.
O que é uma moção de censura e por que o Chega a apresentou?
É um instrumento parlamentar que pode derrubar um governo. O Chega apresentou para pressionar o Executivo de Luís Montenegro por causa de questões como imigração, segurança e corrupção, mas a moção foi rejeitada pela maioria dos partidos.
Quem é Rui Tavares?
Historiador, ex-deputado europeu e fundador do Livre. É a principal referência intelectual do partido e seu rosto mais conhecido internacionalmente, tendo trabalhado no Conselho da Europa e na Organização das Nações Unidas.
Por que o Livre quer ser alternativa ao governo PSD/CDS-PP?
O partido considera que o atual Executivo repete políticas do passado e que abre espaço para o crescimento da extrema-direita ao não responder a problemas estruturais como habitação, saúde e educação.
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