Lula defende PIX na ONU e diz que Brasil não vai ceder à pressão de multinacionais para privatizar sistema de pagamentos
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou o tempo de abertura da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), nesta terça-feira (22), em Nova York, para defender o PIX e afirmar que o Brasil não vai aceitar pressões de multinacionais interessadas em privatizar o sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central. A fala ocorreu no mesmo discurso em que o presidente tratou de inteligência artificial, regulação de big techs e do mercado de apostas esportivas — temas que, na avaliação do governo, exigem regras internacionais mais firmes. Segundo o portal Olhar Digital, Lula foi direto ao se referir ao sistema de pagamentos: "Não vamos ceder à pressão de multinacionais que querem privatizar o nosso PIX".
Por que o PIX virou tema de discurso na ONU?
O PIX entrou na pauta da Assembleia Geral não por acaso. Criado em novembro de 2020 e operado pelo Banco Central do Brasil, o sistema permite transferências e pagamentos 24 horas por dia, sete dias por semana, com taxa zero para pessoas físicas em transações entre contas. Desde o lançamento, o modelo tem sido apontado como um caso de sucesso global de infraestrutura pública de pagamentos — e, ao mesmo tempo, motivo de desconforto para grandes redes de cartões e demais participantes do mercado financeiro internacional, acostumados a cobrar percentuais por cada transação.
Nos bastidores, entidades do setor de cartões em mercados estrangeiros já manifestaram críticas abertas ao modelo. A mais conhecida veio da Mastercard, que em 2022 chegou a acusar o Banco Central de "discriminação" e "concorrência desleal" em órgãos como o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e na Organização Mundial do Comércio (OMC). A Visa também tem se posicionado em discussões regulatórias no exterior. Para o governo brasileiro, a pauta é tratada como questão de soberania digital: a avaliação interna é que países em desenvolvimento precisam preservar ferramentas públicas de inclusão financeira em um ambiente dominado por poucos grupos econômicos.
O que mais Lula disse no discurso em Nova York
Além do PIX, três blocos dominaram a fala do presidente:
- Inteligência artificial: Lula defendeu a criação de regras internacionais para a tecnologia e afirmou que o desenvolvimento de IA "não pode ficar concentrado em poucas empresas ou poucos países".
- Big techs e modelos digitais: o presidente fez críticas a empresas que, segundo ele, transferem para as famílias a responsabilidade de "enfrentar algoritmos".
- Apostas esportivas (bets): Lula classificou como "inaceitável" o modelo de negócio que "transforma o vício em lucro" e lembrou que o Brasil aprovou legislação específica para proteger crianças e mulheres.
Sobre as apostas, o discurso ocorre em meio à crescente pressão do Congresso e de órgãos de controle sobre plataformas de bets. O governo editou portarias restringindo a publicidade e estuda mecanismos adicionais de proteção a grupos vulneráveis — tema que tem potencial de influenciar a próxima fase da regulação do setor no país.
Como funciona a abertura do debate geral da ONU
O Brasil tem uma tradição relevante nesse espaço: é o país que, historicamente, abre os trabalhos do debate geral da Assembleia Geral, seguido pelos Estados Unidos. A regra de precedência foi estabelecida em 1947, quando ainda se usou um critério alfabético em francês — e o Brésil ficou em primeiro. Desde então, a tradição se manteve, mesmo com todas as mudanças geopolíticas das últimas décadas.
A 81ª Assembleia Geral reúne representantes dos 193 países-membros da ONU e marca também o início do ano diplomático em Nova York. É considerado um dos palcos mais relevantes do mundo para que líderes nacionais apresentem suas prioridades de política externa — e é frequentemente usado pelo Brasil para defender pautas de governança digital, reforma do Conselho de Segurança e desenvolvimento sustentável.
Qual o impacto concreto para o brasileiro?
Embora o discurso tenha sido feito em Nova York, a fala tem efeito direto sobre decisões internas. Ao transformar a defesa do PIX em pauta de política externa, o governo:
- Reforça a proteção do sistema contra eventuais contestações vindas do exterior, em fóruns como a OMC ou órgãos antitruste;
- Ampara juridicamente o Banco Central em discussões sobre os limites da atuação de grandes redes de cartões no Brasil;
- Projeta o modelo PIX como referência para outros países em desenvolvimento que estudam criar sistemas próprios de pagamento instantâneo — alguns deles já em fase de implementação inspirados no caso brasileiro, como a Índia (UPI) e partes da África (papel atuante do Africa Payments Innovation Programme).
Para o usuário comum, a tradução prática é simples: o PIX tende a permanecer gratuito e como serviço público, sem custo direto de transferência entre pessoas físicas. Mudanças nessa direção exigiriam alteração profunda no desenho atual, o que o Palácio do Planalto procura justamente evitar ao levar o tema ao cenário internacional.
Repercussão e próximos passos
A fala foi destacada por veículos estrangeiros como Reuters, Bloomberg e AP, que costumam cobrir anualmente a abertura dos trabalhos em Nova York. A grande ausência de 2025 é o primeiro-ministro de Israel, que segundo a organização da Assembleia Geral não discursará presencialmente, em novo capítulo da crise diplomática com a ONU.
Para a equipe econômica brasileira, a expectativa é que a defesa internacional do PIX ajude a blindar o sistema durante a próxima janela de revisão regulatória do Banco Central, prevista para os próximos anos. Já para o Itamaraty, a fala cumpre dupla função: reforça o multilateralismo como princípio de política externa e abre espaço para que o Brasil lidere debates sobre governança digital e proteção de crianças em ambientes online.
Perguntas frequentes
O que é o PIX e desde quando existe?
O PIX é o sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central do Brasil e operado desde novembro de 2020. Permite transferências e pagamentos em tempo integral, com custo zero para pessoas físicas em transações entre contas cadastradas em bancos, cooperativas ou instituições de pagamento.
Por que multinacionais criticam o PIX?
Grandes redes de cartões, como Mastercard e Visa, argumentam que regras do Banco Central que limitam tarifas ou isentam usuários do PIX configurariam concorrência desleal. Para o governo brasileiro, no entanto, o PIX é um serviço público de inclusão financeira e deve ser preservado.
O Brasil abriu mesmo o debate da ONU por tradição?
Sim. Desde 1947, o Brasil é tradicionalmente o primeiro país a discursar no debate geral da Assembleia Geral, seguido pelos Estados Unidos. A precedência foi definida em um ordenamento alfabético em francês que acabou se consolidando como costume diplomático.
O que muda com a lei contra bets mencionada por Lula?
O governo federal editou em 2024 portarias que restringem a publicidade de plataformas de apostas e estabeleceu regras para proteção de grupos vulneráveis, em especial crianças e mulheres. A norma já em vigor serve de base para novas etapas da regulação que tramitam no Congresso Nacional.
O PIX pode virar alvo de sanções internacionais?
Não existe, até o momento, nenhuma medida dessa natureza. O que há são contestações de empresas e entidades em fóruns regulatórios e comerciais. A defesa feita por Lula na ONU busca antecipar esse debate e reforçar que o modelo é uma escolha soberana do Brasil.
Fonte primária: portal Olhar Digital — reportagem de 23 de setembro de 2025, com atualização em tempo real a partir de Nova York.
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