O pesquisador Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, afirma que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva "não aprendeu a lidar com a classe C que ele mesmo criou". A declaração foi feita ao portal Abril.com.br por ocasião do lançamento do livro "O Brasil da maioria", no qual o pesquisador analisa a ascensão e a estagnação da classe C nos últimos 25 anos. Para Meirelles, esse segmento — que reúne mais de 100 milhões de brasileiros e representa a maioria absoluta do eleitorado — será decisivo nas próximas disputas eleitorais, especialmente nos estados.
Quem é Renato Meirelles e o que mostra o novo livro
Renato Meirelles preside o Instituto Locomotiva, organização conhecida por pesquisas de opinião e estudos sobre comportamento do consumidor e do eleitor brasileiro. Com "O Brasil da maioria", o pesquisador se debruça sobre um dos recortes socioeconômicos mais relevantes do país: a chamada classe C, à qual pertencem mais de 100 milhões de pessoas, de acordo com dados amplamente utilizados por institutos de pesquisa.
Meirelles traça um panorama de 25 anos, marcado por ascensão e posterior estagnação desse estrato social, e discute como ele se tornou peça-chave nas eleições. Segundo ele, sairão na frente, principalmente nos estados, os candidatos que chamarem essa população para participar das decisões dos seus governos "para a vida real" — ou seja, com entregas concretas no cotidiano.
O que é a classe C e por que ela importa tanto nas eleições
A classe C, na classificação socioeconômica mais usada no Brasil, abrange famílias com renda mensal que varia, aproximadamente, entre 2 mil e 8 mil reais, embora os critérios mudem entre os institutos de pesquisa. Diferentemente das classes D e E — que dependem fortemente de programas de transferência de renda — e da elite econômica — que pouco recorre a serviços públicos —, esse contingente vive uma situação peculiar: paga impostos, consome, empreende e, ao mesmo tempo, depende intensamente do Estado para acessar saúde, educação e segurança.
Para Meirelles, é justamente nesse "espremido" que mora a principal vulnerabilidade eleitoral dos candidatos. "Na hora que essa fatia da população precisa que o Samu chegue no momento certo, o Estado falta. Quando ela vai abrir seu pequeno negócio, sobra o Estado com a burocracia", resume o pesquisador, em trecho da entrevista à Abril.
- Mais de 100 milhões de brasileiros pertencem à classe C.
- O segmento representa a maioria absoluta do eleitorado brasileiro.
- Depende dos serviços públicos, mas sente de perto a burocracia e a ineficiência do Estado.
- Inclui pequenos empreendedores, trabalhadores formais e famílias com forte poder de consumo.
Como Lula ajudou a "criar" a nova classe C
Entre 2003 e 2010, durante os dois primeiros mandatos do presidente Lula, políticas como o Programa Universidade para Todos (Prouni), o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida, a valorização do salário mínimo acima da inflação e a expansão do Bolsa Família criaram condições para que milhões de brasileiros subissem um degrau na pirâmide social.
Para a classe C da época, votar em Lula significava a chance real de o filho entrar na universidade, de conquistar a casa própria e de ver o pequeno negócio prosperar com o aumento do poder de compra. Foi esse pacto — entre crescimento real da renda e acesso a bens e serviços — que consolidou a chamada "nova classe C", expressão cunhada por pesquisadores como Marcelo Néri, da FGV, ainda nos anos 2000.
O resultado foi o nascimento de uma geração que não tem memória da pobreza vivida pelos pais e que, por outro lado, não se enquadra nos critérios dos programas sociais atuais. Esses jovens são justamente o foco central da análise de Meirelles.
Por que Lula "não aprendeu a lidar" com essa classe
Para o presidente do Instituto Locomotiva, houve um desencontro entre o discurso do atual governo e o perfil dessa nova geração. Embora tenha sido o principal agente da ascensão social verificada nas décadas passadas, Lula teria dificuldade em dialogar com os jovens da classe C que ele mesmo ajudou a formar.
A explicação está nos valores desses novos consumidores-cidadãos. Muitos deles se identificam com ideias liberais na economia, com o empreendedorismo e com a redução do Estado — exatamente o oposto do discurso estatista que marcou o PT nas últimas décadas. Para eles, a burocracia funciona como barreira ao crescimento, e não como suporte.
"Lula não aprendeu a lidar com a classe C que ele mesmo criou." — Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, em entrevista ao portal Abril.com.br.
Esse descompasso é especialmente visível em pautas como simplificação tributária, abertura de pequenos negócios, crédito e regulamentação do trabalho. Levantamentos recentes, como os do próprio Instituto Locomotiva e de outros institutos de pesquisa, indicam uma fatia expressiva de jovens entre 18 e 35 anos que defende menos interferência do Estado na economia e mais espaço para a iniciativa privada.
As mulheres como protagonistas da classe C
Meirelles lembra que a classe C não é um bloco homogêneo, e que as mulheres exercem papel central nela. Dados apresentados pelo pesquisador indicam que mulheres lideram 53% dos lares desse segmento no Brasil. Isso tem implicações diretas no voto, segundo ele.
"São elas que querem saber concretamente se vai ter vaga ou não na creche. São elas que utilizam serviços públicos. Quando o homem vai na UPA, vai levado pela mulher. É a mulher que fica na fila da matrícula na escola pública para os filhos. Isso explica a vantagem do Lula sobre Flávio Bolsonaro entre mulheres, principalmente na classe C", afirmou Meirelles à Abril.
A observação dialoga com pesquisas de comportamento eleitoral dos últimos pleitos, que mostraram um padrão consistente de votação feminina mais favorável ao PT em segmentos de renda intermediária — especialmente entre mães com filhos pequenos, para quem creches e escolas funcionam como variáveis decisivas.
O que está em jogo nas próximas eleições
Para Meirelles, o cenário desenhado em seu livro aponta que, nas próximas eleições estaduais e municipais, terão vantagem os candidatos que conseguirem traduzir suas propostas em soluções concretas para o cotidiano da classe C — e não apenas em grandes bandeiras ideológicas.
O recado é direto: quem quer conversar com a maioria do eleitorado precisa falar de Samu, de matrícula em escola, de abertura de empresa, de segurança pública e de creche. Mais do que polarização nacional, o voto da classe C tende a ser decidido na capacidade de cada governante de entregar serviços básicos com qualidade.
O pesquisador reforça que esse eleitor é volátil e pragmático: vota em quem mostra resultado, independentemente do partido — e é justamente esse pragmatismo que torna a disputa tão aberta nos estados.
Perguntas frequentes
O que é a classe C no Brasil?
É a faixa socioeconômica intermediária que reúne famílias com renda mensal de aproximadamente R$ 2 mil a R$ 8 mil, segundo critérios dos principais institutos de pesquisa. Engloba mais de 100 milhões de brasileiros e representa a maior parte do eleitorado nacional.
Quem é Renato Meirelles?
É presidente do Instituto Locomotiva, pesquisador de comportamento do consumidor e do eleitor, e autor do livro "O Brasil da maioria", lançado recentemente. É uma das principais vozes no debate sobre a classe C no país.
O que mudou na classe C nos últimos anos?
Após décadas de ascensão puxada por valorização do salário mínimo, programas sociais e crédito, a classe C entrou em período de estagnação. Muitos jovens dessa faixa ascenderam socialmente, saíram do perfil de beneficiários de programas sociais e passaram a se identificar com pautas liberais e de empreendedorismo.
Por que a classe C é decisiva nas eleições?
Por concentrar a maioria absoluta do eleitorado. Segundo Renato Meirelles, é esse segmento que decide as eleições estaduais, e os candidatos que souberem oferecer soluções concretas para o cotidiano — saúde, educação, segurança, burocracia — terão vantagem competitiva.
Qual o peso das mulheres no voto da classe C?
As mulheres lideram 53% dos lares da classe C, segundo dados citados por Meirelles. São elas as principais responsáveis pelo uso dos serviços públicos e por decisões como matrícula dos filhos e cuidado com a saúde da família, o que influencia diretamente o voto nesse segmento.
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