Ex-líder do Chega Madeira rompe com o partido e passa a deputado independente no parlamento regional
O ex-presidente do Chega na Madeira e deputado na Assembleia Legislativa da região autônoma, Miguel Castro, anunciou nesta terça-feira (data a confirmar pela agenda oficial) a desvinculação do partido de extrema-direita e a transição para o estatuto de deputado independente no hemiciclo regional. A decisão foi comunicada à agência Lusa e divulgada originalmente pelo portal Observador.pt, que revelou bastidores de uma ruptura interna que envolve diretamente o presidente nacional da sigla, André Ventura, e a nova direção regional liderada por Hugo Nunes.
Miguel Castro alega que a nova comissão política do Chega Madeira — eleita em junho, na sequência de eleições internas — retirou-lhe o apoio e o afastou da liderança do grupo parlamentar, esvaziando progressivamente as suas funções dentro da bancada.
Por que Miguel Castro deixou o Chega?
Em entrevista à Lusa, o agora ex-líder regional recorreu a uma metáfora doméstica para resumir a forma como foi tratado pela nova direção: "Eu não sou nem prato velho, nem jarrão para ficar numa prateleira". A frase, carregada de ressentimento político, sintetiza o argumento central de Castro: ele se sentiu descartado depois de anos de trabalho à frente da estrutura regional.
De acordo com o relato do próprio deputado, a ruptura teria começado logo após a eleição da nova comissão política, em junho. Em sua avaliação, houve três etapas claras de afastamento:
- Perda da liderança do grupo parlamentar;
- Criação de "barreiras internas" e redução drástica do diálogo com a nova direção;
- Retirada das comissões parlamentares e redução do seu papel ao financiamento do grupo por meio da subvenção pública.
"Depois, foram-se criando uma série de barreiras dentro do grupo, o diálogo foi muito mais curto, foram-me retiradas as comissões e, obviamente, o meu papel ali era só mesmo, no fundo, financiar o grupo parlamentar através da subvenção", declarou Miguel Castro.
Quem é Miguel Castro e quanto tempo comandou o partido na região?
Miguel Castro liderou a estrutura regional do Chega na Madeira entre 2022 e junho de 2025 (período indicado pela fonte original, embora a data final citada apresente inconsistência editorial). Foi sob a sua condução que o partido conquistou representação parlamentar na região — o que ocorreu nas eleições regionais de 2023, quando elegeu quatro deputados.
No pleito seguinte, antecipado e ocorrido em 2025, o Chega reduziu a bancada madeirense para três parlamentares, num hemiciclo composto por 47 deputados ao todo. Mesmo com a perda de uma cadeira, a legenda manteve influência suficiente para ser peça de articulação em votações apertadas — justamente o tipo de contexto que torna a saída de um deputado relevante.
O papel de André Ventura e a reunião que nunca aconteceu
Antes de tornar pública a desfiliação, Miguel Castro esperou por um encontro pessoal com o presidente nacional do Chega, André Ventura. A reunião, segundo o deputado, jamais se concretizou, apesar de Ventura ter estado na Madeira no fim de semana anterior ao anúncio.
Castro relatou ainda que recebeu uma mensagem de WhatsApp do líder partidário convocando-o para as iniciativas da "rentrée" política regional — termo usado em Portugal para designar o arranque da atividade parlamentar e partidária após o período de verão.
O gesto, na leitura do ex-dirigente, foi entendido como protocolar e insuficiente diante da profundidade do conflito instalado na estrutura regional. Para Castro, a ausência de mediação por parte de Ventura selou a decisão de romper.
Qual é o contexto da nova direção do Chega Madeira?
A comissão política atualmente no comando da sigla no arquipélago foi escolhida em eleições internas realizadas em junho de 2025. O novo líder regional é Hugo Nunes, que passou a controlar os principais cargos da direção e, segundo o relato de Castro, promoveu uma reorganização da bancada parlamentar que excluiu o antigo presidente.
Esse tipo de disputa interna não é inédito no Chega. Ao longo dos últimos anos, o partido viveu episódios públicos de afastamento de fundadores e dirigentes regionais em diferentes pontos de Portugal, num padrão que combina disciplina vertical com crises sucessivas de gestão de quadros.
Quais são as consequências políticas imediatas da saída?
A desfiliação de Miguel Castro altera o equilíbrio de forças na Assembleia Legislativa da Madeira, ainda que de forma limitada:
- O grupo parlamentar do Chega passa a contar com dois deputados efetivos, em vez de três;
- A maioria absoluta do PSD/ CDS — coligação que governa a região — não é ameaçada pela perda da terceira cadeira, dado que o Chega era oposição;
- Castro mantém o mandato até ao fim da legislatura, mas passa a atuar como independente, com direito a uso da subvenção e a tempo de antena proporcionais ao tamanho unipessoal da bancada.
Para o Chega nacional, o desafio é político e simbólico. Perder um fundador regional para a bancada dos independentes num ano de reorganização interna sugere dificuldade de retenção de quadros históricos justamente nas estruturas em que o partido já conseguiu se consolidar eleitoralmente.
O que essa ruptura revela sobre o momento do Chega em Portugal?
O caso da Madeira insere-se num contexto mais amplo de tensões dentro do partido fundado por André Ventura. O crescimento acelerado do Chega desde 2019 — quando estreou na Assembleia da República com apenas 12 deputados e chegou a ultrapassar o PS em algumas sondagens nacionais — foi construído com forte personalismo e baixa tolerância a divergências internas.
Esse modelo trouxe resultados eleitorais expressivos, mas também crises recorrentes de governança interna. A saída de Miguel Castro na Madeira soma-se a outros casos emblemáticos que envolveram a saída ou o afastamento de figuras ligadas ao crescimento inicial do partido em regiões como Açores, Algarve e distritos do interior.
Para observadores da política portuguesa, o episódio confirma um padrão: quando uma direção regional perde o controle da renovação interna, os custos aparecem na forma de debandadas, perda de quadros com conhecimento institucional e enfraquecimento das estruturas locais — justamente o ativo mais valioso para um partido em expansão.
O que esperar dos próximos dias na crise do Chega Madeira?
Os próximos desdobramentos dependerão de três frentes principais:
- Reação oficial do Chega nacional: se haverá comunicado da direção de André Ventura reconhecendo ou contestando publicamente o relato de Castro;
- Posição do governo regional da Madeira: embora a maioria do PSD não dependa do voto de Castro, qualquer movimentação do novo independente pode alterar correlações de força em votações específicas;
- Decisão sobre eventuais novas filiações: existe a expectativa — ainda sem confirmação oficial — de que Castro possa integrar outra legenda ou criar uma plataforma política autónoma antes do fim da legislatura.
Segundo o portal Observador.pt, que primeiro noticiou o caso, a crise está em aberto e pode ganhar novos capítulos nas próximas semanas, sobretudo se André Ventura vier a público comentar a ruptura durante a "rentrée" política nacional.
Perguntas frequentes
Quem é Miguel Castro?
Deputado na Assembleia Legislativa da Madeira pelo Chega, foi presidente da estrutura regional do partido entre 2022 e meados de 2025, tendo conduzido a legenda à conquista de representação no parlamento madeirense.
Por que ele deixou o Chega?
Afirma que a nova comissão política, eleita em junho sob liderança de Hugo Nunes, retirou-lhe a confiança política, afastou-o da liderança do grupo parlamentar, restringiu o diálogo e retirou-lhe as comissões, reduzindo-o a um papel essencialmente financeiro.
Quantos deputados o Chega tem na Madeira agora?
Com a saída de Castro, o grupo parlamentar do Chega na Assembleia Legislativa da Madeira passa a ter dois deputados efetivos, num total de 47 parlamentares no hemiciclo.
André Ventura tentou evitar a ruptura?
Segundo o relato do próprio Miguel Castro, não houve reunião presencial com Ventura antes da desfiliação, apesar de o presidente nacional ter estado na Madeira no fim de semana anterior ao anúncio e de ter enviado uma mensagem por WhatsApp.
Castro perde o mandato ao se desvincular do partido?
Não. Deputados eleitos por um partido que se desviam na Constituição portuguesa mantêm o mandato até o fim da legislatura, passando a atuar como independentes, com direito à subvenção e ao tempo de antena proporcionais.
Gostou desta matéria? Compartilhe com quem precisa ficar bem informado e assine a newsletter do GCBS NEWS para receber as principais notícias direto no seu e-mail.




