O piloto suíço Nico Müller, da Citroën Racing, classificou como "chocante" a manobra do rival Nick Cassidy na disputa direta que definiu as posições finais em um ePrix recente da Fórmula E. Segundo o portal Terra.com.br, o episódio ocorreu na volta 34, fora do alcance da transmissão ao vivo, e terminou beneficiando diretamente o neozelandês Mitch Evans em prejuízo de Müller, que vinha exercendo um papel tático para favorecer o companheiro de equipe Pascal Wehrlein, vencedor da corrida.
O lance da volta 34 que mudou o resultado
Com o Attack Mode ativado, Cassidy havia acabado de ultrapassar Evans e partiu para cima de Müller na primeira curva. Segundo a reportagem do Terra.com.br, o piloto abriu demais a trajetória e acabou permitindo que Evans passasse pelos dois ao mesmo tempo, numa jogada que não foi exibida na transmissão oficial da categoria.
O episódio causou estranhamento dentro da equipe de Müller porque Cassidy ainda contava com aproximadamente quatro minutos de Modo Ataque disponíveis após a manobra, tempo suficiente para tentar devolver a posição ao rival ou atacar Evans logo em seguida. Nada disso aconteceu. Para Müller, a atitude não fazia sentido do ponto de vista esportivo, ainda mais considerando que o próprio piloto suíço havia facilitado a ultrapassagem de Cassidy instantes antes por entender que o adversário tinha mais energia e ritmo de corrida naquele momento.
Por que a Citroën perdeu rendimento nas voltas decisivas
Antes do lance com Cassidy, Müller já tinha sido prejudicado por um fator estratégico. Depois do segundo Full Course Yellow (FCY) da prova, o suíço e Evans perderam tempo porque ambos já haviam realizado seus Pit Boosts em bandeira verde, enquanto Wehrlein e outros concorrentes conseguiram aproveitar a neutralização para cumprir a parada obrigatória.
Foi nesse contexto que Müller precisou defender posição com Attack Mode nas voltas finais, justamente quando Cassidy apareceu pelo retrovisor. Para a Citroën, a sequência de fatores — pit stop feito fora do FCY, perda de tempo e a manobra na curva 1 — transformou uma estratégia bem encaminhada em nono lugar para Müller, em vez de um resultado que poderia ter sido ainda mais relevante para a soma de pontos da equipe.
Attack Mode e Pit Boost: entenda as regras que mexeram com a prova
Dois recursos técnicos explicam por que o final foi tão agitado:
- Attack Mode (Modo Ataque): é um recurso que entrega potência extra ao motor elétrico por tempo limitado. Para ativá-lo, o piloto precisa sair da linha de corrida e passar por uma zona específica da pista, o que normalmente custa posições no curto prazo, mas devolve vantagem de energia nas voltas seguintes.
- Pit Boost: introduzido na Temporada 11 (2024-2025), é um carregamento rápido obrigatório realizado durante a janela de pit stop. A estratégia de quando parar interfere diretamente no resultado final, porquePit Boosts feitos em bandeira verde costumam custar mais tempo do que aqueles aproveitados durante um Full Course Yellow.
- Full Course Yellow (FCY): neutralize a corrida, com velocidade reduzida imposta pela direção de prova. É a única janela em que pit stops rendem tempo próximo ao ideal.
"Fiquei chocado": a reação de Müller
Em entrevista ao FE Notebook, Müller foi direto ao descrever o lance. Segundo ele, Cassidy agiu de forma "muito inteligente, sem colocar ninguém no muro", mas a atitude quebrou uma espécie de código de conduta entre pilotos que disputam posições em condições parecidas.
"Foi algo que eu nunca esperei. Honestamente, fiquei chocado. Ele fez isso de forma muito inteligente, sem me colocar no muro, mas não é algo que você espera de alguém que corre por uma fabricante diferente da do piloto que está deixando passar", afirmou Müller ao FE Notebook, em trecho reproduzido pelo Terra.com.br.
O trecho final da fala é importante: Müller estranhou que um piloto de outra fabricante tenha se aproveitado da passagem liberada por ele para, na sequência, prejudicar justamente o rival que ele tentava ajudar. Para o suíço, existe uma lógica de reciprocidade em brigas de pista que não foi respeitada.
Alianças entre fabricantes e o jogo de bastidores na Fórmula E
A reclamação de Müller expõe um dos aspectos menos comentados da Fórmula E: a existência de alianças e rivalidades internas entre fabricantes que disputam tanto o campeonato de pilotos quanto o de equipes. Marcas que compartilham fornecedores ou que têm interesses em comum costumam trocar favores durante as provas, cedendo posições e usando o Attack Mode em benefício mútuo.
Essas combinações, embora estejam na zona cinzenta do regulamento, fazem parte da estratégia de corrida e são tratadas como "esporte de equipe" pela maioria dos times. Quando um piloto abre caminho para outro e não recebe reciprocidade — ou quando essa reciprocidade quebra a lógica do grupo — o episódio ganha proporções maiores do que o simples incidente de pista. Foi exatamente isso que aconteceu no caso relatado pelo Terra.com.br.
O que está em jogo no campeonato
A corrida terminou com vitória de Pascal Wehrlein, justamente o piloto que Müller tentava ajudar com sua função tática. O resultado alimentou a campanha do alemão na luta pelo título da Temporada 11, que reúne as principais marcas elétricas do automobilismo mundial. Para a Citroën, manter pontuação alta com Müller nos lugares intermediários é importante tanto na classificação de equipes quanto na disputa entre fabricantes, que vale pontos extras no campeonato.
Perder posições nas voltas finais por causa de incidentes como o da volta 34, portanto, não compromete apenas o resultado de um piloto, mas também a estratégia coletiva de uma marca que disputa o campeonato em múltiplas frentes. É por esse motivo que declarações como a de Müller ganham repercussão: elas denunciam um custo esportivo e estratégico que vai muito além do nono lugar no placar final.
Próximos passos
A tendência é que o caso seja revisitado pela FIA nas próximas etapas, especialmente se houver padrões de manobra semelhantes. Na Fórmula E, a direção de prova costuma analisar incidentes não exibidos na transmissão a partir de telemetria e câmeras onboard, o que pode abrir espaço para advertências ou penalidades retroativas. Enquanto isso, Citroën e Porsche seguem focadas em manter a consistência nas provas restantes para garantir boa pontuação nas tabelas de pilotos, equipes e fabricantes.
Perguntas frequentes
O que é o Attack Mode na Fórmula E?
É um recurso que libera potência extra ao motor elétrico por tempo limitado. Para ativá-lo, o piloto precisa sair da linha de corrida e passar por uma zona de ativação instalada em trechos específicos do circuito.
O que é Pit Boost?
É um carregamento rápido obrigatório introduzido na Temporada 11 (2024-2025). Cada carro precisa parar nos boxes para receber uma recarga adicional de energia dentro de uma janela pré-definida da corrida.
O que é Full Course Yellow?
É a neutralização total da prova, com velocidade reduzida e carros agrupados. É o melhor momento para realizar o Pit Boost, já que o tempo perdido nos boxes é menor do que em bandeira verde.
Por que Müller reclamou de Cassidy?
Porque Müller havia facilitado a ultrapassagem de Cassidy por entender que o rival tinha mais ritmo, mas Cassidy, ao atacar, abriu demais a trajetória e permitiu que Evans passasse pelos dois, prejudicando o plano tático que beneficiava o companheiro de equipe Pascal Wehrlein.
Quem venceu a corrida em questão?
O alemão Pascal Wehrlein, piloto da Porsche, que contou com o apoio tático de Müller nas voltas decisivas da prova.
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