A promessa do pré-candidato Ronaldo Caiado de estabilizar a dívida pública brasileira em dois ou três anos exigiria um esforço fiscal da ordem de R$ 264 bilhões, segundo cálculos do Radar Econômico com base nas projeções do Tesouro Nacional. O número, levantado pelo portal Abril.com.br, expõe o tamanho do desafio que aguarda qualquer equipe econômica que assuma o Palácio do Planalto em 2027 com a ambição de domar o endividamento público ainda no primeiro mandato.
Até o momento, a campanha de Caiado apresentou uma única fonte concreta de recursos para fechar essa conta: a revisão dos benefícios tributários federais — mas sem detalhar quais setores seriam atingidos. A ausência de números mais granulares transformou o que era uma diretriz política em um ponto de interrogação que pode pesar contra o governador goiano na corrida eleitoral.
Qual é o tamanho do ajuste necessário?
Para estabilizar a relação dívida/PIB até o final de 2028, o governo que assumir em 2027 precisaria entregar um superávit primário equivalente a 1,9% do Produto Interno Bruto. As projeções oficiais do Tesouro, sem novas medidas, apontam para um resultado de apenas 0,23% do PIB — uma diferença de aproximadamente R$ 264 bilhões, exatamente o cálculo feito pelo Radar Econômico.
Se o prazo for relaxado para o fim de 2029, a conta diminui, mas continua expressiva: o resultado primário necessário cairia para 1,5% do PIB, ante uma projeção oficial de 0,17%. Mesmo nesse cenário mais folgado, o ajuste adicional exigido ficaria em torno de R$ 226 bilhões.
Considerando receitas extras ainda não detalhadas pela equipe econômica, a diferença a ser coberta seria de:
- R$ 203 bilhões para estabilização até o fim de 2028;
- R$ 97 bilhões caso o prazo se estenda até o fim de 2029.
Em ambos os casos, o rombo remanescente supera com folga o volume de recursos mobilizado em ajustes fiscais recentes na história recente do país.
Quais despesas o plano promete preservar?
O coordenador econômico da campanha, Roberto Brant, afirmou ao portal Abril.com.br que o plano preservará os pisos constitucionais de saúde e educação e a vinculação de benefícios previdenciários e sociais ao salário mínimo. A proposta também se compromete a não criar novas despesas, interromper gastos fora do arcabouço fiscal vigente e restringir a concessão de novas garantias pela União.
Na prática, isso significa que o ajuste precisaria sair quase inteiramente pelo lado das receitas — não pelo corte direto em programas sociais obrigatórios. A opção restringe o leque de soluções e concentra a pressão política sobre o sistema tributário.
Por que a revisão de isenções é politicamente delicada?
Os gastos tributários federais previstos para 2026 somam R$ 612,8 bilhões, segundo dados do próprio governo. O valor é equivalente a quase 7% do PIB e está pulverizado em uma série de benefícios de forte apelo político e regional:
- Simples Nacional e regimes especiais para micro e pequenas empresas;
- Zona Franca de Manaus e outros incentivos regionais;
- Deduções e isenções do Imposto de Renda da Pessoa Física;
- Incentivos ao agronegócio, incluindo desonerações e créditos presumidos.
Apenas o segmento agrícola e agroindustrial responde por cerca de R$ 79,5 bilhões em benefícios tributários — um dilema para Caiado, cuja base política e eleitoral está historicamente ligada ao Centro-Oeste e ao agronegócio. Tocar nesses incentivos significa enfrentar pressão direta de um dos setores que ajudou a projetar o governador de Goiás nacionalmente.
O que ainda falta para o plano virar meta verificável?
A equipe do pré-candidato ainda não apresentou três peças fundamentais para transformar a promessa em um cronograma crível:
- A meta anual de resultado primário — sem isso, não há como medir o desempenho do governo;
- A lista de incentivos tributários que serão reduzidos ou extintos e a economia esperada com cada medida;
- A estimativa de poupança com uma eventual reforma administrativa, anunciada como parte do pacote.
Sem esses números, observa o Radar Econômico, a promessa de estabilizar a dívida se aproxima mais de uma declaração de intenção do que de uma meta fiscal verificável — exatamente o tipo de lacuna que investidores e agências de risco costumam penalizar nas avaliações de países emergentes.
O que está em jogo para o país
O debate sobre a dívida pública não é abstrato. A dívida bruta do governo geral já ultrapassa 75% do PIB, e cada ponto percentual de juros a mais pressiona o orçamento futuro. Quando a despesa com juros supera a de pessoal, sobra menos para investimento, saúde e segurança.
Para o contribuinte, estabilizar a dívida significa conter a alta da carga tributária futura, evitar o crescimento da inflação e reduzir o risco de perda de acesso a crédito barato no exterior. Para o investidor, é um sinal de previsibilidade — essencial em um ano de calendário eleitoral e de transição de governo.
O fato de a proposta de Caiado ainda não trazer números fechados não é, por si só, um demérito — pré-candidatos costumam divulgar planos mais detalhados após a convenção partidária. Mas o volume do ajuste exigido coloca a agropecuária no centro do debate e antecipa uma tensão que promete marcar a campanha: como arrecadar centenas de bilhões sem desagradar aliados?
Próximos passos da discussão
Especialistas em finanças públicas ouvidos em outras ocasiões pelo GCBS NEWS costumam apontar três variáveis que definirão o sucesso de qualquer plano de estabilização pós-2026:
- Crescimento econômico: sem PIB crescendo acima de 2% ao ano, o ajuste fiscal fica mais doloroso;
- Taxa de juros: a Selic e o prêmio de risco soberano influenciam diretamente o tamanho da dívida;
- Reforma tributária: a regulamentação da reforma aprovada em 2023 pode abrir espaço novo de receita sem aumentar alíquotas.
A medida que a corrida eleitoral avançar, a expectativa é que Caiado — assim como os demais pré-candidatos — seja obrigado a apresentar o detalhamento do ajuste que pretende fazer, principalmente porque a estabilização da dívida é uma das poucas promessas que une economistas de diferentes espectros ideológicos.
Perguntas frequentes
O que Caiado prometeu sobre a dívida pública?
O pré-candidato prometeu estabilizar a dívida pública em dois ou três anos a partir de uma eventual posse em 2027, ou seja, até o fim de 2028 ou de 2029.
Quanto seria necessário ajustar para cumprir a promessa?
Entre R$ 226 bilhões e R$ 264 bilhões, dependendo do prazo considerado, segundo cálculos do Radar Econômico a partir de projeções do Tesouro Nacional.
De onde viria o dinheiro do ajuste?
A única fonte concreta apresentada até agora é a revisão de benefícios tributários, que somam R$ 612,8 bilhões em 2026, segundo dados do governo federal.
Quais setores podem ser afetados pela revisão de isenções?
Simples Nacional, Zona Franca de Manaus, deduções do Imposto de Renda e incentivos ao agronegócio estão entre os maiores volumes de gastos tributários e podem entrar na mira.
Por que os números ainda não foram detalhados?
A equipe de Caiado ainda não informou a meta anual de primário, quais incentivos pretende reduzir nem a poupança esperada com a reforma administrativa. Segundo o portal Abril.com.br, a ausência desses dados mantém a promessa mais próxima de uma diretriz política do que de uma meta fiscal verificável.
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