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PS defende ir além do PIB para medir progresso em Portugal

Bancada quer incluir bem-estar e sustentabilidade nos novos critérios de avaliação do desenvolvimento nacional.

PS defende ir além do PIB para medir progresso em Portugal

Partido Socialista de Portugal defende ir "além do PIB" para medir o progresso do país

O Conselho Estratégico do Partido Socialista (PS) de Portugal, liderado por José Luís Carneiro, promoveu nesta quarta-feira uma reunião de duas horas dedicada ao tema Para além do PIB: Portugal na Agenda Internacional do Desenvolvimento. Segundo o portal Observador.pt, o encontro — realizado na sede do partido, em Lisboa, com participação híbrida — reuniu acadêmicos, ex-governantes e dirigentes socialistas em torno de uma proposta que considera o Produto Interno Bruto insuficiente como métrica isolada de prosperidade. A conclusão central foi que o PS precisa construir uma agenda política que vá além do crescimento económico quantitativo.

O que motivou o debate dentro do PS

A discussão coordenada pelo secretário nacional Filipe Santos Costa não é um gesto isolado. Ela dialoga com um movimento internacional cada vez mais consolidado que questiona o uso exclusivo do PIB para avaliar o bem-estar das populações. Para os socialistas portugueses, trata-se de um imperativo programático: um partido que se define como progressista não pode tratar o crescimento económico como fim em si mesmo, e sim como meio para a melhoria concreta da vida das pessoas.

"Para o PS, a economia está ao serviço das pessoas, não são as pessoas que estão ao serviço da economia", resumiu Filipe Santos Costa ao abrir os trabalhos, segundo a reportagem do Observador.pt. O coordenador do Conselho Estratégico fez questão de afastar uma interpretação simplista: o debate "não é contra o crescimento económico, mas sobre a sua qualidade". A pergunta central colocada aos participantes foi direta: o valor e a taxa de crescimento do PIB podem continuar a ser a única medida da prosperidade e do progresso?

PIB não mede progresso social — o argumento dos especialistas

A resposta dos oradores foi unânime: não. Rui Pena Pires, professor do ISCTE, recorreu a um exemplo de grande impacto didático para demonstrar a falência do PIB como indicador único. Tomou a China como caso: o país detém a segunda maior economia do mundo, mas, ao dividir essa riqueza por mais de mil milhões de habitantes, percebe-se que o volume de produção não se traduz necessariamente em melhores condições de vida, direitos sociais ou bem-estar generalizado. O número impressiona, mas esconde profundas desigualdades internas.

Nuno Nunes, também professor do ISCTE, reforçou a necessidade de uma "agenda além do PIB" e lembrou que o indicador tem uma limitação estrutural: "o PIB não foi criado nem tem capacidade de medir aspetos de natureza social". Ele defende um conjunto de outras políticas públicas voltadas, por exemplo, ao bem-estar social e à correção das assimetrias territoriais — tema particularmente sensível em Portugal, onde o litoral dinâmico contrasta com o interior despovoado.

O relatório da ONU que está a influenciar o debate

O debate do PS chega num momento em que a comunidade internacional já produziu documentos estruturantes sobre o tema. Nuno Nunes fez referência explícita ao relatório divulgado em maio pelo grupo de peritos de Alto Nível das Nações Unidas, que propõe a adoção de 31 indicadores complementares ao PIB. A ideia é construir um painel multidimensional capaz de captar dimensões frequentemente ignoradas pela contabilidade nacional tradicional: saúde, educação, qualidade ambiental, desigualdade, segurança, participação cívica e sustentabilidade.

Esse movimento não nasce agora. Em 2009, a Comissão sobre a Mensuração do Desempenho Económico e do Progresso Social, criada pelo governo francês e presidida pelos economistas Joseph Stiglitz, Amartya Sen e Jean-Paul Fitoussi, já havia entregue um relatório histórico defendendo exatamente a mesma tese. Décadas antes, o pequeno Butão havia institucionalizado o conceito de Felicidade Interna Bruta (FIB) como alternativa filosófica ao PIB. Mais recentemente, a Nova Zelândia chamou atenção mundial ao apresentar um Orçamento do Bem-Estar, no qual as decisões fiscais são avaliadas também por critérios de qualidade de vida.

Uma memória política portuguesa: a frase de Jorge Sampaio

A reunião trouxe à memória uma célebre frase do ex-Presidente da República Jorge Sampaio. Em 2003, ao comentar a chegada ao poder do Governo PSD de Durão Barroso — que havia acusado o PS de deixar o país "de tanga" —, Sampaio, também socialista, respondeu com uma advertência que se tornou referência: "Há mais vida para além do Orçamento." O antigo Presidente defendia que era preciso mudar o foco do debate e falar de "aumento do investimento, da produtividade e da competitividade da economia". O PS de 2024, no entanto, quer ir mais longe do que Sampaio propôs: não basta discutir a qualidade do crescimento económico; é preciso substituí-lo como métrica dominante por um conjunto mais amplo de indicadores.

Quem participou da reunião

O encontro contou com um leque diversificado de figuras do PS e da sociedade civil. De forma presencial, estiveram os professores Rui Pena Pires (ISCTE) e Nuno Nunes (ISCTE), além de Carla Costa (ISCSP) e do eurodeputado e presidente da Câmara de Évora Carlos Zorrinho. Por videoconferência, participaram nomes de peso como os ex-presidentes da Assembleia da República Eduardo Ferro Rodrigues e Eduardo Cabrita, o ex-comissário europeu António Vitorino e o ex-ministro António Correia de Campos. A composição reforça o caráter propositivo do Conselho Estratégico, criado há cerca de um ano por José Luís Carneiro com a ambição declarada de reunir quadros suficientes para "não um, mas vários governos".

O impacto desse debate para o Brasil e o mundo lusófono

A discussão ultrapassa as fronteiras portuguesas e interessa diretamente ao Brasil. As duas economias lusófonas mais relevantes partilham dilemas estruturais semelhantes: alta concentração de renda, desigualdades regionais marcadas, serviços públicos sob pressão e dificuldade em traduzir crescimento económico em mobilidade social efetiva. Quando o PS propõe medir prosperidade também por indicadores sociais e ambientais, abre-se uma porta para que partidos e movimentos políticos de língua portuguesa revisitem os seus próprios modelos de desenvolvimento.

No plano global, a discussão conecta-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, que já operacionalizam a ideia de progresso multidimensional em 17 áreas e 169 metas. Países como a Islândia, a Escócia e a própria União Europeia — por meio do seu Semestre Europeu — também trabalham com painéis de indicadores sociais complementares ao PIB, o que demonstra que a proposta socialista portuguesa não é extravagante, mas alinhada com uma tendência consolidada de reforma da governança económica.

O que pode mudar na prática?

Ainda não há uma proposta fechada nem um calendário público de implementação. O que o PS está a construir, por ora, é um enquadramento conceptual que poderá desaguar em:

  • Documentos programáticos para os próximos ciclos eleitorais;
  • Propostas legislativas para obrigar o Governo a apresentar, em paralelo às contas nacionais, um painel de indicadores sociais e ambientais;
  • Pressão política sobre organismos como o INE de Portugal, a OCDE e a União Europeia para adoção de métricas complementares;
  • Articulação internacional com partidos progressistas europeus que partilham agendas semelhantes.

Até ao momento, segundo a reportagem do Observador.pt, não há confirmação oficial sobre quando — nem em que formato — essas ideias deixarão o papel. O que existe é a sinalização política de que o tema entrou na agenda estratégica do partido e tende a ganhar corpo nos próximos meses.

Perguntas frequentes

O que é o PIB e por que é considerado limitado?
O Produto Interno Bruto mede o valor total de bens e serviços produzidos num país num determinado período. É um bom indicador de atividade económica, mas ignora variáveis como distribuição de renda, qualidade ambiental, saúde, educação, trabalho não remunerado e bem-estar subjetivo.

Que países já medem progresso além do PIB?
A Nova Zelândia adotou o Orçamento do Bem-Estar; o Butão utiliza a Felicidade Interna Bruta; a OCDE mantém o Índice de Vida Melhor; e a União Europeia trabalha com um Painel de Indicadores Sociais dentro do Semestre Europeu.

O PS quer acabar com o PIB?
Não. O partido defende que o PIB deixe de ser o indicador único ou dominante, sendo complementado por métricas sociais, ambientais e de bem-estar. O crescimento económico continua relevante, mas perde o monopólio da avaliação de progresso.

Qual é a relação entre esse debate e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU?
Ambos partilham a premissa de que o progresso humano é multidimensional. Os ODS já oferecem um quadro global de referência com 17 áreas e indicadores próprios, e a proposta do PS dialoga diretamente com esse sistema.

Esse debate pode chegar ao Brasil?
Sim. O Brasil enfrenta dilemas estruturais parecidos com os de Portugal — desigualdade regional, concentração de renda e dificuldade de traduzir crescimento em qualidade de vida. Movimentos sociais, académicos e partidos brasileiros já discutem alternativas ao PIB como métrica dominante, e a discussão portuguesa pode servir de referência para o debate lusófono.

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Yuri Augusto
Escrito por
Yuri Augusto

Yuri Augusto Jornalista e entusiasta de inovação digital, Yuri acompanha de perto as principais movimentações do mercado, economia e tecnologia. Com foco em traduzir informações complexas em análises acessíveis, é o responsável por trazer os conteúdos mais relevantes e em primeira mão para os leitores do GCBS News.

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