Economia

PS questiona compra de 13,7% da REN com fundo que não existe

Deputados querem explicações imediatas sobre a origem do capital e apontam falta de transparência num negócio-chave para o setor elétrico.

PS questiona compra de 13,7% da REN com fundo que não existe

O Partido Socialista (PS) de Portugal questionou publicamente o governo da Aliança Democrática (PSD/CDS-PP) sobre a origem dos recursos e os critérios utilizados para a aquisição de 13,7% da Redes Energéticas Nacionais (REN), empresa concessionária da rede de transporte de eletricidade e gás natural em Portugal. O anúncio foi feito pelo primeiro-ministro Luís Montenegro durante a 50.ª Festa do Pontal, e o socialista Filipe Santos Costa, do secretariado nacional do PS, aproveitou o mesmo evento para cobrar explicações detalhadas sobre a operação.

Segundo o portal Observador.pt, o dirigente do PS classificou a compra como a "primeira aplicação" do fundo soberano anunciado pelo Executivo, embora esse fundo "ainda não exista formalmente". A crítica central do partido é que o governo estaria usando recursos públicos para recomprar uma fatia da REN num momento de "colapso" nos serviços públicos de saúde, educação e ação social, além de agravamento da carga fiscal sobre os contribuintes portugueses.

O que o governo diz sobre a compra da participação na REN

Durante seu discurso na 50.ª Festa do Pontal, Luís Montenegro afirmou que o Estado português "chegou a acordo com um grupo espanhol" para adquirir 13,7% da REN. O premier enquadrou a operação como parte do fundo soberano "que está a ser formatado" e como um pilar de uma política voltada a criar "alicerces para uma economia mais competitiva e mais produtiva".

Montenegro deixou claro que o objetivo não é renacionalizar a REN, mas sim "salvaguardar o interesse estratégico" do país em uma infraestrutura considerada essencial. A operação envolveria a Parpública, o holding que gerencia as participações estatais do Estado português, e teria como contraparte um grupo empresarial de origem espanhola.

Detalhes revelados e pontos ainda sem confirmação oficial

  • Percentual adquirido: 13,7% da REN, comprados de um grupo privado espanhol.
  • Veículo da operação: Parpública, braço do Estado para gestão de participações.
  • Origem dos recursos: não divulgada pelo governo até o momento.
  • Vinculação ao fundo soberano: governo diz que se enquadra no fundo "em formação", mas o fundo ainda não foi formalmente constituído.
  • Objetivo declarado: proteção do interesse público em infraestrutura estratégica, sem renacionalização.

As críticas do PS à operação

Filipe Santos Costa acusou o Executivo de provocar o "colapso" em áreas sensíveis do Estado enquanto canaliza recursos para a compra de ações. "De onde vem o montante necessário para esta operação de compra de parte da REN da Parpública? Isto, num momento em que o Governo da Aliança Democrática provoca o colapso da saúde, da educação e dos serviços sociais, degrada as contas públicas, falha no crescimento económico e agrava a carga fiscal", questionou.

O socialista lembrou ainda que Portugal vem registrando pressão sobre o orçamento das famílias, com aumento de impostos diretos (IRS) e indiretos (IVA), além de tributos sobre combustíveis cujo patamar foi influenciado, segundo o PS, por conflitos geopolíticos como as guerras no Leste europeu e no Golfo Pérsico.

O fundo soberano existe de fato?

Para o PS, a resposta é não, pelo menos em termos formais. Filipe Santos Costa foi taxativo: "Um fundo soberano que não existe já comprou uma participação de 13,7% na REN". A cobrança do partido é que sejam revelados a constituição jurídica, a dotação inicial, a governança e os critérios de investimento do fundo antes que ele seja usado em operações concretas.

"Se esta é a primeira aplicação do anunciado fundo soberano, o país deve conhecer a constituição e a dotação do fundo" — Filipe Santos Costa, do secretariado nacional do PS.

Por que a história de 2012 e 2014 voltou ao debate

Um dos argumentos mais fortes do PS envolve a incoerência histórica do próprio centro-direita português. Em 2012, durante o governo de Pedro Passos Coelho, também da coligação PSD/CDS-PP (a chamada "Aliança Democrática" que voltou ao poder em 2024), foram vendidos pacotes relevantes da REN a investidores estrangeiros: 25% para grupos chineses e 15% para Oman Oil. Em 2014, o mesmo governo vendeu os últimos 11% que ainda estavam sob controle estatal.

Santos Costa questionou: "Por que é que a AD, que em 2012 vendeu grande parte da REN sobretudo a potências estrangeiras, vem agora comprar esta posição de 13,7% a um grupo privado espanhol quando, em 2014, a mesma AD decidiu vender os últimos 11% da REN ainda na posse do Estado?"

O ponto central é o contraste entre a política de privatização da REN seguida pela AD na década passada e a atual tentativa de retomar uma fatia minoritária por meio do fundo soberano. Para o PS, a operação levanta dúvidas sobre consistência estratégica e sobre os custos de oportunidade — o que o Estado deixou de arrecadar com as vendas anteriores e o que pretende auferir agora como acionista minoritário.

O que é a REN e por que ela é estratégica

A Redes Energéticas Nacionais (REN) é a concessionária da rede de transporte de energia elétrica em alta tensão e do gasoduto de alta pressão em Portugal continental. A empresa opera ainda duas concessões reguladas:

  • ORT (Operador da Rede de Transporte): responsável pela gestão técnica da rede elétrica de transporte.
  • GGS (Gestão Global do Sistema):strong> responsável pelo equilíbrio entre produção e consumo de eletricidade no sistema elétrico nacional.

Essas concessões são consideradas ativos críticos para a segurança energética do país. Daí a sensibilidade política em torno de qualquer mudança no controle acionário. Para o PS, justamente, uma participação tão reduzida não dá ao Estado instrumentos efetivos de decisão sobre essas concessões.

Qual o sentido de deter uma fatia minoritária?

O PS formulou a pergunta de forma direta: "Qual o propósito de ter uma posição tão minoritária numa empresa concessionária de serviço público, sem separar as concessões de ORT e de GGS?" A crítica sugere que, sem poder de veto ou de decisão relevante em assembleia, o Estado estaria comprando exposição política e financeira à empresa, mas não controle sobre decisões estratégicas.

O que é o fundo soberano português e por que ele importa

Um fundo soberano é um veículo de investimento controlado pelo Estado, geralmente alimentado por receitas extraordinárias (privatizações, excedentes orçamentários, royalties de recursos naturais) e voltado a financiar políticas de longo prazo ou estabilizar a economia em momentos de crise. Exemplos conhecidos são o Norwegian Government Pension Fund Global (Noruega) e o Fundo Soberano do Brasil (formado a partir de receitas do pré-sal).

No caso português, o fundo anunciado pelo governo ainda está em fase de formatação, o que significa que não há, até o momento, diploma legal definitivo, regulação específica, governança pública nem regras claras de aporte e desinvestimento. O PS considera que aplicar recursos em uma participação de 13,7% na REN antes da consolidação do fundo representa um atropelo da ordem institucional.

Impacto para o leitor brasileiro e para o debate sobre energia na América Latina

A discussão portuguesa não é puramente local. No Brasil, debates semelhantes surgem periodicamente sobre o papel do Estado em empresas como Petrobras, Eletrobras e os transmissores de energia. A experiência europeia mostra três lições relevantes:

  1. Coerência de longo prazo: privatizar para arrecadar e depois recomprar pode significar custos maiores para o contribuinte e perda de poder de barganha estratégico.
  2. Governança importa mais que participação: deter 13,7% de uma concessionária crítica sem capacidade real de decisão pode gerar retorno financeiro, mas pouco retorno estratégico.
  3. Transparência é inegociável: fundos soberanos exigem regras claras sobre dotação, governança e critérios de aplicação, sob risco de se tornarem instrumentos opacos de política econômica.

Para o leitor brasileiro, acompanhar o caso português ajuda a entender como países europeus equilibram (ou tentam equilibrar) segurança energética, contas públicas e controle estatal sobre infraestrutura crítica — um dilema cada vez mais presente no debate sobre transição energética na América Latina.

Próximos passos esperados

O PS prometeu continuar cobrando esclarecimentos sobre três pontos centrais: a origem exata dos recursos usados na compra, o formato jurídico do fundo soberano e a estratégia de longo prazo para a posição do Estado na REN. A expectativa é que o governo divulgue, em breve, detalhes sobre a composição do fundo e os critérios que orientarão futuras aplicações. Enquanto isso, a oposição deve manter a pressão tanto no parlamento quanto na opinião pública.

Perguntas frequentes

O que é a REN?

A Redes Energéticas Nacionais é a empresa concessionária da rede de transporte de eletricidade em alta tensão e do sistema de transporte de gás natural em alta pressão em Portugal continental.

O governo português está renacionalizando a REN?

Não. Segundo o primeiro-ministro Luís Montenegro, o objetivo declarado é salvaguardar o interesse estratégico do país, e não renacionalizar a empresa. A participação adquirida é de 13,7%, comprados de um grupo privado espanhol.

O que é o fundo soberano citado pelo governo?

É um veículo de investimento estatal anunciado pelo Executivo, mas que ainda está em fase de formatação. Até o momento, não há detalhes públicos sobre sua constituição jurídica, dotação inicial ou governança.

Por que o PS critica a operação?

O partido questiona a origem dos recursos, o uso de dinheiro público em um momento de cortes em saúde e educação, e a incoerência política de quem vendeu a REN no passado e agora tenta recomprar uma fatia minoritária.

Qual o impacto concreto dessa compra para os cidadãos?

Por enquanto, nenhum impacto direto nas tarifas de energia foi anunciado. Os efeitos dependerão dos dividendos que o Estado vier a receber como acionista e da forma como o fundo soberano for regulamentado nos próximos meses.

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Yuri Augusto
Escrito por
Yuri Augusto

Yuri Augusto Jornalista e entusiasta de inovação digital, Yuri acompanha de perto as principais movimentações do mercado, economia e tecnologia. Com foco em traduzir informações complexas em análises acessíveis, é o responsável por trazer os conteúdos mais relevantes e em primeira mão para os leitores do GCBS News.

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