Renan Santos questiona "moral" dos EUA para cobrar o Brasil e defende capacidade nuclear nacional
O candidato à Presidência da República Renan Santos (Missão) afirmou nesta semana que os Estados Unidos não teriam "moral" para pressionar o Brasil no combate ao crime organizado e defendeu, no horizonte de longo prazo, que o país desenvolva sua própria capacidade nuclear. As declarações foram feitas durante sabatina no programa VEJA em Foco, conduzido pela jornalista Marcela Rahal, com a participação dos editores da revista VEJA José Benedito da Silva e Diogo Schelp, segundo relato publicado pelo portal Abril.com.br.
O pronunciamento acontece em meio a uma nova rodada de atritos diplomáticos entre Brasília e Washington, iniciada depois que o presidente norte-americano Donald Trump encaminhou um documento ao Congresso americano criticando a atuação do governo brasileiro contra o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), facções que ele classificou como organizações terroristas internacionais. Para Trump, a suposta inércia brasileira teria transformado o país em um polo relevante para o fluxo global de cocaína.
O contexto da pressão norte-americana sobre o Brasil
A crítica dos EUA não surgiu de forma isolada. Nos últimos anos, Washington tem recorrido a designações oficiais de facções latino-americanas como "organizações terroristas estrangeiras" para ampliar seu escopo de atuação judicial e diplomática fora de seu território. A medida contra o PCC e o Comando Vermelho, formalizada em 2024, foi um dos movimentos mais significativos desse tipo já direcionados a grupos brasileiros.
Para o governo americano, essa classificação permite a aplicação de sanções financeiras mais pesadas, facilita a cooperação com agências estrangeiras e cria base legal para operações de inteligência fora dos Estados Unidos. O documento enviado ao Congresso, segundo a reportagem do Abril.com.br, sustenta que a falta de ação firme do Brasil teria permitido a consolidação de uma rede de exportação de cocaína com ramificações em portos e fronteiras.
Esse enquadramento, no entanto, é visto com desconfiança por parte da diplomacia brasileira e por especialistas em relações internacionais, que apontam para um histórico de intervenções dos EUA na América Latina — da Guerra Fria às operações antidrogas no Caribe — como justificativa para a leitura de que existe uma motivação geopolítica por trás da pressão.
A posição de Renan Santos: "com muita, muita, muita preocupação"
Durante a sabatina, Renan Santos não economizou nas palavras para descrever sua reação à postura americana. Segundo o portal Abril.com.br, o candidato disse ver "com muita, muita, muita preocupação" a atuação dos Estados Unidos sobre o tema. Para ele, o combate ao crime organizado é legítimo, mas não pode virar pretexto para projeção de poder norte-americano sobre o continente.
O ponto mais polêmico veio quando o presidenciável questionou a autoridade moral dos EUA para cobrar o Brasil. De acordo com a reportagem, Renan afirmou que os Estados Unidos concentram o maior mercado consumidor de drogas do mundo e que, por isso, teriam "não muita moral para falar" sobre tráfico no Brasil. A fala foi na mesma linha de críticas que ganharam força nos debates sobre a política americana de combate aos entorpecentes, reconhecidamente centrada mais na repressão à oferta do que à demanda interna.
"Defendo uma política dura contra o crime organizado e a extinção das facções, mas recuso a ideia de que os EUA projetem seu poder sobre a América Latina a partir dessa questão." — Renan Santos, em sabatina à VEJA em Foco, conforme publicado pelo portal Abril.com.br.
A defesa de uma bomba atômica "nacional": o que Renan realmente propôs
O candidato conectou os dois temas — pressão dos EUA e combate ao crime — a uma mesma ideia central: soberania brasileira. Foi nesse eixo que ele trouxe à discussão a necessidade de o país desenvolver, em longo prazo, capacidade nuclear própria. Para Renan, a dependência externa em tecnologia sensível deixa o Brasil vulnerável a pressões políticas e econômicas.
A proposta não é nova no debate político brasileiro. O país já domina a tecnologia de enriquecimento de urânio por meio da Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e mantém acordo de salvaguardas com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIA). O que Renan sugere, segundo a reportagem da Abril, é dar um passo além: dotar a nação de um arsenal atômico que funcione como dissuasor estratégico, algo restrito hoje a poucos países — entre eles Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido, Índia, Paquistão e Coreia do Norte.
A ideia, contudo, esbarra em tratados internacionais, como o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), do qual o Brasil é signatário, e nas obrigações assumidas no âmbito do Mercosul e da própria Constituição Federal, que limita o uso da energia nuclear a fins pacíficos. Qualquer mudança nesse cenário exigiria não apenas decisão política, mas revisão de acordos bilaterais e multilaterais.
O plano de combate ao crime organizado apresentado pelo candidato
Na mesma sabatina, Renan Santos aproveitou para apresentar uma proposta de enfrentamento nacional ao crime organizado. Para ele, operações pontuais, por mais midiáticas que sejam, não desmontam estruturas como o PCC e o Comando Vermelho — organizações que, segundo relatórios de inteligência, movimentam bilhões de reais por ano e mantêm presença em pelo menos duas dezenas de países.
A estratégia defendida pelo candidato tem cinco eixos principais, conforme relatou o portal Abril.com.br:
- Controle efetivo das fronteiras, com integração de sistemas de monitoramento terrestre, aéreo e marítimo.
- Combate à movimentação financeira das facções, com bloqueio de contas, rastreamento de criptoativos e cooperação com órgãos de controle como a Receita Federal e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF).
- Atuação direta nos portos, incluindo o uso de escâneres e equipes de inteligência em terminais estratégicos.
- Acordos de cooperação internacional, especialmente com países do cone sul e da África Ocidental, regiões apontadas como rotas de escoamento.
- Coordenação entre União, Polícia Federal, Forças Armadas, governos estaduais e estruturas de inteligência, sob um comando unificado.
O modelo lembra, em linhas gerais, o que especialistas em segurança pública chamam de "inteligência fusionada" — integração de dados de diferentes agências para antecipar operações criminosas. A viabilidade prática, no entanto, depende de fatores que historicamente limitam esse tipo de ação no Brasil, como a autonomia das polícias estaduais e o orçamento disponível para investimento em tecnologia.
Por que a fala sobre soberania ganha força no debate eleitoral
O discurso de Renan Santos se insere em uma tendência mais ampla que ganhou tração nos últimos anos: a de que a política externa brasileira precisa ser menos receptiva a cobranças externas, principalmente quando elas vêm de potências com histórico intervencionista na região. Para uma parcela do eleitorado, a menção a armamentismo nuclear tem mais efeito simbólico — sinal de disposição de confrontar — do que prático.
Críticos, porém, lembram que o Brasil tem priorizado, desde o fim da ditadura militar, uma diplomacia baseada em negociação multilateral, construção de blocos regionais e desarmamento. A eventual reversão desse perfil, argumentam, poderia isolar o país em fóruns como o G20 e a Organização das Nações Unidas (ONU), além de acirrar tensões com parceiros comerciais importantes.
O que esperar dos próximos passos
A tendência é que o tema permaneça no centro do debate eleitoral. A sabatina de Renan Santos foi uma das primeiras em que a questão da soberania nuclear apareceu de forma tão direta, e é provável que adversários políticos retomem a declaração em debates futuros para testar a consistência da proposta.
No campo diplomático, o Itamaraty ainda não se manifestou oficialmente sobre o documento enviado por Trump ao Congresso. A expectativa é que o Ministério das Relações Exteriores convoque uma resposta institucional, como tem feito em outros episódios de tensão com Washington, sem descartar reunião de consulta com o embaixador americano em Brasília.
Para o leitor brasileiro, o episódio serve de lembrete de que política externa e segurança pública estão cada vez mais entrelaçadas — e de que decisões tomadas em 2025 sobre esses dois campos podem moldar a posição do Brasil no mundo pelos próximos trinta anos.
Perguntas frequentes sobre a declaração de Renan Santos
O que Renan Santos disse exatamente sobre os Estados Unidos?
Segundo o portal Abril.com.br, o candidato afirmou que os EUA não teriam "muita moral" para cobrar o Brasil no combate ao tráfico, por serem o maior mercado consumidor de drogas do mundo, e que vê a pressão norte-americana "com muita, muita, muita preocupação".
O Brasil já tem bomba atômica?
Não. O Brasil domina a tecnologia de enriquecimento de urânio para fins pacíficos, mas não possui arsenal nuclear. O país é signatário do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP).
O que é o PCC e o Comando Vermelho?
São as duas maiores facções criminosas do Brasil. O Primeiro Comando da Capital (PCC) nasceu em São Paulo nos anos 1990 e o Comando Vermelho (CV) surgiu no Rio de Janeiro na década de 1970. Ambos foram designados como "organizações terroristas estrangeiras" pelo governo dos Estados Unidos em 2024.
A proposta de bomba atômica viola tratados internacionais?
A mera defesa pública dessa ideia não configura violação, mas a eventual produção de um arsenal nuclear exigiria a saída do Brasil do TNP e a revisão de outros acordos multilaterais, com impactos diplomáticos e comerciais significativos.
Qual é a relação entre combate ao crime organizado e soberania, segundo o candidato?
Renan Santos argumenta que depender de tecnologia nuclear externa deixa o Brasil vulnerável a pressões políticas, e que o enfraquecimento do Estado diante de facções internacionais seria uma forma de perda de soberania. Por isso, defende integrar política de defesa, energia nuclear e segurança pública em um mesmo projeto estratégico.
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