Economia

Risco-país da Argentina passa dos 500 pontos com desconfiança

Spread com títulos americanos atinge o maior nível em meses e governo corre contra o tempo.

Risco-país da Argentina passa dos 500 pontos com desconfiança

Indicador do JPMorgan supera 500 pontos pela primeira vez desde maio e reflete desconfiança com ajuste fiscal

O risco-país da Argentina, indicador calculado pelo banco JPMorgan que mede o prêmio exigido por investidores para financiar o governo argentino em relação aos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, voltou a ultrapassar a barreira dos 500 pontos nesta terça-feira (18), ao atingir 506 pontos — alta de cerca de 3,5% no dia e o maior nível desde o fim de maio. O movimento foi acompanhado por novas quedas nos títulos da dívida argentina em dólar e por pressão sobre as ações de empresas do país, segundo reportagem do portal Abril.com.br.

O que é o risco-país e por que ele importa?

O risco-país é um termômetro da confiança internacional na capacidade de um país honrar suas dívidas. No caso argentino, o índice mais acompanhado é o EMBI+ (Emerging Markets Bond Index Plus), da JPMorgan, que compara o spread (diferença de juros) dos bônus soberanos da Argentina com os títulos americanos, considerados o ativo mais seguro do mundo.

Na prática:

  • Quanto maior o índice, mais caro fica para o governo se financiar no mercado, porque os investidores exigem retorno maior para compensar o risco de calote ou desvalorização.
  • Quanto menor o índice, mais confiança existe no país, e o custo de captação externa cai.

Para a Argentina, referência histórica em reestruturações de dívida — foram nove calotes soberanos desde 1816, o último em 2020, durante a pandemia —, qualquer movimento desse indicador costuma ser olhado com lupa por credores e analistas do mundo todo.

Por que o mercado perdeu a paciência com Milei?

Segundo o portal Abril.com.br, a piora reflete uma reversão parcial da melhora registrada no primeiro semestre. Em julho, o risco-país argentino havia tocado aproximadamente 402 pontos, o menor nível do governo do presidente Javier Milei até então. Em poucas semanas, porém, o indicador subiu mais de 100 pontos, sinalizando que o otimismo inicial com o programa de austeridade está dando lugar a dúvidas sobre a sustentabilidade do ajuste.

Entre os fatores que costumam pressionar o indicador estão:

  • Sinais de afrouxamento fiscal ou político, como gastos extraordinários sem fontes de financiamento claras;
  • Aumento do risco de novos calotes ou atrasos em pagamentos com credores privados e multilaterais;
  • Incerteza sobre o tipo de câmbio e sobre a velocidade da desinflação;
  • Turbulência política, especialmente em anos eleitorais.

O cenário doméstico se soma a um contexto externo menos favorável, com aperto monetário nos Estados Unidos e fuga de capital de mercados emergentes, o que tende a prejudicar países com fundamentos mais frágeis.

Onde o Milei entregou e onde travou

Desde que assumiu em dezembro de 2023, o governo Milei promoveu um dos ajustes fiscais mais rápidos da história argentina recente, com corte de subsídios, demissões no setor público e um discurso de "déficit zero" baseado em sua motosserra simbólica. O superávit primário foi alcançado e a inflação mensal caiu de picos ao redor de 25% para patamares mensais de um dígito, embora a inflação acumulada de 12 meses siga entre as mais altas do mundo.

No entanto, pontos críticos do programa continuam pendentes:

  • Dolarização da economia: promessa central da campanha, mas ainda não implementada por falta de reservas no Banco Central;
  • Acordo com o FMI: o país tem o maior empréstimo já concedido pelo Fundo, cerca de US$ 44 bilhões, ainda em fase de renegociação de metas;
  • Abertura comercial: o governo defende fim de tarifas e até saída do Mercosul, mas enfrenta resistência interna e do bloco;
  • Reforma trabalhista e tributária: enfrenta resistência no Congresso, onde Milei não tem maioria própria.

Esse impasse ajuda a explicar por que o mercado interpreta parte da melhora inicial como efeito do ajuste de curto prazo e não como uma transformação estrutural da economia.

Impacto concreto: títulos, ações e câmbio

A alta do risco-país desta terça (18) veio acompanhada por dois sinais clássicos de aversão:

  1. Queda nos preços dos títulos soberanos em dólar, o que eleva o juro de mercado e encarece a rolagem da dívida;
  2. Pressão vendedora sobre ações de empresas argentinas listadas em Wall Street e em Buenos Aires, refletindo maior percepção de risco país.

Para o cidadão comum argentino, o efeito se traduz em:

  • Mais inflação importada, já que o país depende de energia e bens de capital;
  • Dificuldade de acesso ao crédito para empresas, com efeitos sobre emprego e produção;
  • Expectativa de novas pressões cambiais, mesmo com o atual esquema de crawling peg (desvalorização administrada).

Vale lembrar que o país vive ainda o impacto social do ajuste: dados recentes divulgados pela imprensa argentina apontam a eliminação de cerca de 241 mil postos de trabalho nos primeiros meses do governo, número que alimenta a erosão da base política de Milei.

O que isso significa para o Brasil?

Embora a Argentina seja uma economia menor que a brasileira, a relação entre os dois países é uma das mais intensas do continente. Por isso, a piora do humor com Milei chega ao Brasil por diferentes vias:

  • Comércio bilateral: o Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina. Uma Argentina mais instável tende a importar menos, prejudicando exportadores brasileiros, principalmente de automóveis, manufaturados e bens de consumo.
  • Setor automotivo: montadoras instaladas na região têm cadeias produtivas integradas; recessão argentina já tem sido apontada como um dos fatores do desempenho fraco da produção regional.
  • Energia: a Argentina importa gás natural do Brasil em alguns períodos; oscilações cambiais e fiscais argentinas podem afetar contratos bilaterais.
  • Mercosul: as propostas de Milei de abrir a economia e revisar a tarifa externa comum tensionam a posição do bloco e podem impactar negociações externas, como o acordo Mercosul-União Europeia.

Para o investidor brasileiro, a recomendação padrão continua sendo cautela: exposição direta a ativos argentinos é considerada de alto risco, e mesmo os ADRs (recibos de ações argentinas negociadas nos EUA) costumam oscilar com volatilidade muito acima da média dos emergentes.

O que esperar dali em diante

Os próximos passos observados pelo mercado incluem:

  • Renegociação das metas com o FMI e definição de novo pacote de desembolsos;
  • Resultados fiscais mensais: o cumprimento do superávit primário é considerado teste-chave para a credibilidade do programa;
  • Avanço (ou não) da dolarização, cuja implementação depende de acumular reservas suficientes;
  • Cenário político: Milei enfrenta resistência parlamentar crescente, o que limita o alcance de reformas estruturais.

Se o governo entregar metas fiscais consistentes e avançar com o acordo com o FMI, é possível que o risco-país recue dos atuais patamares. Caso os sinais sejam de novo afrouxamento ou impasse político prolongado, novas ondas de pressão sobre o peso e sobre a curva de juros devem se repetir nas próximas semanas.

Perguntas frequentes

O que é o risco-país da Argentina?
É o índice EMBI+, calculado pelo JPMorgan, que mede o quanto os investidores exigem de juros a mais para comprar títulos da dívida argentina em vez de títulos do Tesouro americano.

Por que o risco-país argentino subiu agora?
O mercado reagiu a uma combinação de fatores domésticos — dúvidas sobre a continuidade do ajuste fiscal e fragilidade política — e externos, como aperto monetário nos EUA e fuga de emergentes.

O que isso significa para o investidor brasileiro?
Quem tem exposição direta a ativos argentinos, como ADRs ou fundos especializados, sente o impacto da volatilidade. Indiretamente, exportadores para a Argentina podem ser afetados por uma possível retração nas importações.

O risco de calote da Argentina voltou?
A alta do risco-país indica maior desconfiança, mas não há, até o momento, sinais concretos de inadimplência. A situação é monitorada principalmente à luz das negociações com o FMI.

Milei pode dolarizar a economia?
A dolarização segue no discurso oficial, mas exige reservas internacionais elevadas, algo que a Argentina ainda não acumulou. Por isso, especialistas veem o tema como mais simbólico do que operacional no curto prazo.

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Yuri Augusto
Escrito por
Yuri Augusto

Yuri Augusto Jornalista e entusiasta de inovação digital, Yuri acompanha de perto as principais movimentações do mercado, economia e tecnologia. Com foco em traduzir informações complexas em análises acessíveis, é o responsável por trazer os conteúdos mais relevantes e em primeira mão para os leitores do GCBS News.

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