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Sertanejo: morte de Rick expõe apagamento de artistas negros

O caso reacende o debate sobre racismo estrutural e a falta de reconhecimento a nomes negros na história do gênero.

Sertanejo: morte de Rick expõe apagamento de artistas negros

A morte de Rick, da dupla Rick & Renner, aos 59 anos voltou a evidenciar uma ausência no sertanejo contemporâneo: a de artistas negros entre os nomes de grande projeção. O debate, porém, vai além da presença atual nas paradas. A história do gênero inclui músicos negros fundamentais, mas essa contribuição foi perdendo visibilidade ao longo das décadas, num processo de embranquecimento que ajuda a explicar quem é lembrado como parte da música sertaneja — e quem fica à margem dessa memória.

Segundo o portal Terra.com.br, a trajetória de artistas como Tião Carreiro & Pardinho, João Pacífico e Cascatinha & Inhana mostra que músicos negros participaram da construção do sertanejo desde seus primeiros períodos de popularização. A presença deles contrasta com a percepção atual de um gênero frequentemente associado a artistas brancos. Entender essa diferença exige olhar para as origens da música, para os meios que a divulgaram e para a forma como a história cultural é contada.

Como a música negra participou da formação do sertanejo?

O sertanejo moderno começou a se consolidar na década de 1920. Nesse período, Cornélio Pires gravou o que é considerado o primeiro disco do estilo, marco importante para a circulação da música caipira em formato comercial. Nas décadas seguintes, o rádio ampliou o alcance de duplas e cantores e levou suas interpretações a públicos que não dependiam de apresentações presenciais para conhecer os artistas.

Entre os nomes ligados à construção do gênero estão Tião Carreiro & Pardinho, João Pacífico e Cascatinha & Inhana. A participação de músicos negros nesse conjunto é relevante porque ajuda a desfazer a ideia de que o sertanejo nasceu como uma expressão exclusivamente branca. A música se desenvolveu em um país rural e profundamente marcado pela presença e pelo trabalho da população negra.

Essa relação não significa que todas as experiências negras no campo tenham sido registradas ou reconhecidas da mesma maneira. Significa, antes, que a história do gênero não pode ser compreendida sem considerar quem participou da vida rural e da produção musical brasileira — e como essas contribuições foram representadas ao longo do tempo.

O que a canção “Preto Inocente” revela sobre o racismo?

Lançada em 1963 por Tião Carreiro & Pardinho, “Preto Inocente” aborda uma notícia sobre um homem negro acusado de roubo e morto após fugir. Na canção, o narrador inicialmente reage ao episódio com indignação e depois reconhece que sua compreensão estava equivocada. A letra põe em primeiro plano o modo como a suspeita e a violência atingiam pessoas negras.

A música é significativa também por mostrar que o racismo não estava separado do universo rural que serviu de cenário para a formação do sertanejo. A canção não apaga as contradições de seu tempo, mas permite observar como preconceito e desigualdade atravessavam a sociedade e podiam aparecer dentro do próprio repertório popular.

Resgatar esse registro ajuda a ampliar a escuta: uma faixa antiga pode ser, ao mesmo tempo, parte da história musical do país e um documento sobre as relações raciais. Para quem pesquisa ou simplesmente acompanha o gênero, a obra também é um convite a perguntar quais vozes foram preservadas, quais foram esquecidas e por quê.

Por que a presença negra ficou menos visível no sertanejo?

Não há uma explicação única para o processo de embranquecimento. A reportagem do Terra destaca a mudança na representação do gênero ao longo das décadas e aponta a atuação do sociólogo Rogério da Palma, que estuda as relações raciais na música sertaneja. O material de referência não apresenta números sobre a proporção de artistas negros em diferentes épocas nem identifica uma causa isolada para a redução de sua visibilidade.

Um elemento ajuda a compreender como a memória pública pode se formar: durante a época de maior influência do rádio, os cantores eram conhecidos sobretudo pela voz. Isso permitia que a música circulasse sem que a imagem do intérprete estivesse sempre no centro da divulgação. À medida que a promoção musical também passou a depender de elementos visuais, como fotografias e apresentações, a imagem pública dos artistas ganhou outro peso. Esse contexto pode ajudar a discutir a representação, mas, sozinho, não comprova as causas do apagamento.

Também é importante separar duas questões: a participação histórica de artistas negros e a visibilidade que eles recebem hoje. Um gênero pode ter sido construído por diferentes grupos e, ainda assim, contar sua trajetória de forma incompleta. Quando certas figuras deixam de aparecer em narrativas, programas, listas e recomendações, o público pode acabar associando a origem do estilo a um conjunto mais restrito de artistas do que aquele que realmente participou de sua formação.

O que a morte de Rick representa para o debate?

Rick, conhecido por integrar a dupla com Renner, é apontado na reportagem como um dos raros representantes negros de grande sucesso no sertanejo atual. Sua morte, aos 59 anos, dá dimensão humana a uma discussão que poderia ficar restrita a conceitos históricos: a presença negra no gênero não é apenas um tema sobre o passado, mas também uma pergunta sobre quem consegue alcançar reconhecimento e permanecer visível no presente.

O falecimento, por si só, não explica as condições de acesso à indústria musical nem permite concluir que exista uma única barreira para artistas negros. Também não há, no material citado, dados que permitam medir a representatividade nas gravadoras, no rádio ou nas plataformas de streaming. O que se pode afirmar é que a perda de um nome de destaque torna mais urgente observar a distância entre a contribuição histórica negra e a percepção contemporânea do sertanejo.

Para o público, esse debate tem consequências concretas na maneira de ouvir e conhecer música brasileira. Ao revisitar artistas e canções que foram menos lembrados, ouvintes podem encontrar referências que ampliam a compreensão do gênero. Para pesquisadores, jornalistas e instituições culturais, a questão é também como documentar essa história com fontes, contexto e atenção às experiências que ficaram fora dos relatos mais difundidos.

Como resgatar essa história sem simplificá-la?

Reconhecer a presença negra no sertanejo não exige substituir uma narrativa única por outra. Exige incluir artistas e obras que participaram da construção do gênero, explicar o contexto em que foram produzidos e distinguir fatos documentados de interpretações. No caso de “Preto Inocente”, por exemplo, é possível analisar a letra e seu tema racial sem tratar uma canção isolada como retrato completo de toda a música sertaneja.

Uma abordagem mais completa também deve evitar apresentar a cultura rural como homogênea. O campo brasileiro reuniu diferentes grupos, experiências e tradições. Investigar como essas trajetórias se encontraram na música pode ajudar a compreender por que o sertanejo tem raízes mais diversas do que a imagem que muitas vezes prevalece.

O estudo do sociólogo Rogério da Palma, citado pelo Terra, insere essa discussão no campo das relações raciais. A pesquisa e a consulta a registros históricos são importantes para avançar além de impressões gerais e esclarecer como a representação mudou. Até que existam levantamentos específicos que permitam quantificar essa presença, afirmações sobre proporções ou tendências numéricas devem ser feitas com cautela.

Perguntas frequentes

Quem foram alguns artistas negros importantes na história do sertanejo?

Entre os nomes destacados estão Tião Carreiro & Pardinho, João Pacífico e Cascatinha & Inhana. Eles são apontados como parte da construção e da popularização do gênero.

Quando “Preto Inocente” foi lançada?

A canção de Tião Carreiro & Pardinho foi lançada em 1963. Sua letra aborda racismo e violência contra uma pessoa negra acusada de roubo.

Por que o sertanejo é associado hoje a uma presença negra menor?

A reportagem descreve um processo de embranquecimento e de perda de visibilidade de artistas negros. O material disponível não apresenta uma causa única nem dados quantitativos para medir essa mudança.

Quem é Rogério da Palma?

Ele é um sociólogo que estuda as relações raciais na música sertaneja, conforme informado pelo portal Terra.com.br.

Rick era integrante de qual dupla?

Rick formava uma dupla com Renner e é citado como um dos raros artistas negros de grande sucesso no sertanejo atual.

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Yuri Augusto
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Yuri Augusto

Yuri Augusto Jornalista e entusiasta de inovação digital, Yuri acompanha de perto as principais movimentações do mercado, economia e tecnologia. Com foco em traduzir informações complexas em análises acessíveis, é o responsável por trazer os conteúdos mais relevantes e em primeira mão para os leitores do GCBS News.

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