Imagine confiar cegamente nos números de calorias queimadas exibidos no seu relógio inteligente durante meses — para depois descobrir que o dispositivo pode estar inflando ou subestimando esse valor em margens que vão de 15% a mais de 100%, dependendo da marca. Foi exatamente essa a conclusão de uma investigação recente divulgada pelo portal Sapo.pt, que submeteu quatro dos smartwatches mais populares do mercado a um teste controlado contra equipamentos profissionais de análise metabólica. O resultado expõe uma falha sistemática que afeta diretamente quem usa esses dados para emagrecer, ganhar massa muscular ou controlar a saúde metabólica.
Como o estudo colocou os smartwatches à prova
A pesquisa recrutou 58 voluntários que pedalaram de forma contínua por 30 minutos em ritmo moderado. Enquanto os participantes se exercitavam, os relógios inteligentes registravam batimentos cardíacos, movimento e demais variáveis no pulso. Em paralelo, um analisador metabólico hospitalar — equipamento considerado padrão-ouro na medição do consumo energético — captava as trocas gasosas da respiração, fornecendo a leitura real de calorias gastas.
O desenho experimental é simples e revelador: coloca-se o dispositivo de consumo contra o mesmo cenário fisiológico medido por tecnologia clínica. Qualquer divergência superior à margem de erro aceitável aponta para uma falha algorítmica do smartwatch. E foi justamente isso que aconteceu com todas as marcas testadas.
Os números da discrepância por fabricante
As variações oscilaram habitualmente entre 15% e 25% em relação aos valores reais medidos pelo analisador metabólico. Em uma sessão de meia hora, isso pode significar dezenas de quilocalorias infladas ou omitidas — o suficiente para sabotar um plano alimentar calculado com base nessas leituras.
Veja como cada modelo se comportou, segundo os dados do estudo:
- Garmin Forerunner 955: tendência crônica ao exagero. Calculou, em média, quase 69 kcal a mais do que o consumo real em 30 minutos de exercício moderado.
- Samsung Galaxy Watch 5: também otimista, acrescentando cerca de 57 kcal fictícias ao esforço efetivo do usuário.
- Apple Watch Series 8: foi o mais consistente do grupo, mas ainda assim inflacionou as calorias em aproximadamente 22 kcal por sessão.
- Fitbit Sense 2: apresentou o cenário mais instável. Mesmo com uma média aparentemente ajustada, registrou leituras isoladas com desvios que superaram em 450% o valor do analisador metabólico, elevando o erro médio do equipamento para mais de 128 kcal.
O padrão revela um problema algorítmico de fundo: nenhuma das quatro marcas conseguiu entregar um valor confiável de gasto calórico em condições controladas. E o mais preocupante é que esses erros não acontecem de forma aleatória — eles seguem tendências previsíveis que penalizam certos perfis de usuários.
Por que a composição corporal muda tudo na leitura
O achado mais relevante do estudo não está apenas na magnitude do erro, mas em quem ele mais prejudica. Os dados demonstraram que o erro de estimativa energética aumenta à medida que a percentagem de gordura corporal sobe. Em outras palavras, quanto maior o percentual de gordura do usuário, mais distorcida tende a ser a leitura do smartwatch.
Esse comportamento foi particularmente marcante nos algoritmos da Fitbit e da Garmin, justamente os fabricantes que mais se posicionam como aliados de atletas e praticantes de atividades físicas voltadas à recomposição corporal. O efeito prático é cruel: quem mais precisa de métricas rigorosas para gerir a composição física acaba recebendo as estimativas mais distorcidas.
Para o leitor brasileiro, onde boa parte da população convive com índices elevados de gordura corporal e procura orientação em apps e dispositivos vestíveis, a conclusão é direta: o número exibido no pulso após uma sessão de bike, corrida ou musculação pode estar completamente desconectado da realidade.
O tom de pele influencia a precisão dos sensores ópticos?
Uma questão historicamente debatida sobre smartwatches envolve a precisão dos leitores ópticos de batimentos cardíacos em diferentes tons de pele. Tons mais escuros, argumenta-se, poderiam refletir a luz de forma diferente e comprometer a leitura fotopletismográfica.
Curiosamente, o estudo não encontrou impacto estatisticamente relevante do tom de pele sobre a precisão dos sensores ópticos avaliados. Ou seja, ao menos nessa pesquisa, o fator étnico-racial não se mostrou um determinante significativo das variações registradas — diferentemente do que sugerem algumas discussões no setor.
O que isso significa na prática para quem usa smartwatch no Brasil
Para o usuário comum, as implicações práticas são concretas e imediatas:
- Dietas baseadas em déficit calórico: se o relógio infla as calorias queimadas, o usuário pode comer mais do que deveria achando que está "compensando" o treino. O mesmo vale no sentido oposto: subestimar o gasto pode gerar cortes alimentares desnecessários.
- Relatórios de evolução física: totais semanais ou mensais de calorias gastas podem acumular erros sistemáticos que distorcem a percepção real de progresso.
- Recomposição corporal: quem busca reduzir gordura e aumentar massa magra depende de dados relativamente precisos para ajustar treino e nutrição — público que, segundo o estudo, é justamente o mais prejudicado pelos algoritmos atuais.
A recomendação implícita é de usar os smartwatches como ferramentas de tendência, não como medidores absolutos. As variações de batimentos cardíacos, zonas de treino estimadas e padrões de atividade ainda oferecem valor, mas o número de calorias exibido após uma atividade deve ser tratado com cautela.
As gerações mais recentes são mais confiáveis?
É importante registrar que os dispositivos analisados no estudo pertencem a gerações já presentes há algum tempo no mercado. Modelos lançados depois da pesquisa trazem sensores biométricos atualizados e rotinas de inteligência artificial aprimoradas, justamente para mitigar essas falhas crônicas.
Modelos como o Apple Watch Series 9 e Series 10, o Garmin Forerunner 965 e Fenix 8, o Samsung Galaxy Watch 6 e 7, e o Fitbit Charge 6 e Sense 2 com firmware atualizado incorporam novos algoritmos de estimativa calórica. Ainda assim, não há, até o momento, estudos independentes de larga escala que confirmem publicamente a magnitude da melhoria nesses lançamentos mais recentes.
Ainda segundo o Sapo.pt, a expectativa do setor é que a próxima geração de smartwatches corrija boa parte dessas discrepâncias, mas enquanto dados clínicos não forem amplamente divulgados, a prudência continua sendo a melhor estratégia.
Como minimizar o impacto do erro no dia a dia
Enquanto os fabricantes não apresentam soluções definitivas, algumas práticas ajudam a reduzir a dependência de leituras imprecisas:
- Não tome o número calórico como verdade absoluta. Trate-o como estimativa dentro de uma faixa.
- Compare os valores entre marcas diferentes. Se os dispositivos divergem muito entre si, a única certeza é que nenhum está totalmente certo.
- Combine o relógio com métodos indiretos de controle: medida de circunferência abdominal, percentual de gordura por bioimpedância e evolução de força nos treinos.
- Priorize acompanhamento profissional. Nutricistas e educadores físicos podem interpretar as tendências dos dados sem depender de números absolutos de calorias.
- Atualize o firmware do dispositivo. Fabricantes costumam liberar correções algorítmicas que, mesmo imperfeitas, tendem a melhorar a precisão.
Perguntas frequentes
Smartwatch mede calorias com precisão?
Não. Segundo o estudo divulgado pelo Sapo.pt, nenhum dos quatro smartwatches testados (Apple, Garmin, Samsung e Fitbit) forneceu valores confiáveis quando comparado a um analisador metabólico profissional. As discrepâncias oscilaram entre 15% e mais de 100%, dependendo do modelo e do perfil do usuário.
Qual smartwatch erra menos as calorias?
O Apple Watch Series 8 apresentou o menor erro médio (cerca de 22 kcal a mais por sessão de 30 minutos). Porém, o Fitbit Sense 2 teve o pior desempenho, com leituras isoladas que superaram o valor real em até 450%.
Pessoas com mais gordura corporal recebem leituras piores?
Sim. A pesquisa demonstrou que o erro de estimativa calórica aumenta conforme sobe a porcentagem de gordura corporal do usuário, prejudicando especialmente quem mais depende de métricas rigorosas para emagrecer ou recompor o corpo.
Smartwatches mais novos são mais precisos?
Modelos recentes trazem sensores e algoritmos atualizados que prometem corrigir falhas das gerações anteriores, mas ainda não há estudos independentes de larga escala que confirmem publicamente a melhoria desses dispositivos lançados depois da pesquisa.
Devo parar de usar smartwatch para emagrecer?
Não necessariamente. O relógio continua sendo útil como ferramenta de tendência e motivação, mas o número de calorias exibido não deve ser tratado como medida absoluta. O ideal é combinar o uso com acompanhamento profissional e outros métodos de controle de progresso.
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