A jogadora de vôlei Tifanny Abreu se manifestou pela primeira vez, neste sábado (15), sobre a nova política de elegibilidade de gênero adotada pela Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), que veta a participação de atletas transgêneras nas competições da categoria feminina. Após a derrota por 3 sets a 2 para o Pinheiros, pela estreia no Campeonato Paulista, a ponteira classificou a decisão como um "enorme retrocesso" e afirmou temer pela continuidade da própria carreira no esporte.
A declaração, concedida à imprensa na saída da quadra, foi a primeira reação pública da atleta desde que a CBV publicou a nova normativa, e ganhou repercussão imediata nas redes sociais e em entidades de defesa dos direitos humanos. "O voleibol é minha vida, meu trabalho. A CBV está tirando de mim tudo o que eu tenho, que é o amor pelo voleibol e a profissão que venho exercendo todos esses anos. São 10 anos no voleibol feminino. Não comecei ontem", disse Tifanny, em trecho divulgado pelo portal Terra.com.br.
O que disse Tifanny Abreu sobre a decisão da CBV
Em sua fala, a atleta procurou dimensionar os impactos individuais e coletivos da medida. Para ela, o banimento não atinge apenas a sua trajetória pessoal, mas toda a cadeia envolvida no esporte: clubes, torcedores, patrocinadores, fãs e, principalmente, pessoas trans que se inspiram em sua história dentro das quadras.
"Isso não afeta somente a mim. Afeta meu clube, a torcida, patrocinadores, as pessoas que se inspiram em mim, o direito de todas as pessoas trans."
Tifanny também fez um recorte histórico para classificar a medida. Segundo ela, a nova política reproduz práticas vexatórias adotadas em décadas passadas, quando atletas eram submetidas a testes de gênero para competir. "É um enorme retrocesso na luta pelo reconhecimento e inclusão de todas as pessoas no esporte. Voltamos para uma forma vexatória, como se testavam as atletas nos anos 60 e 70. Estamos em 2026. Não podemos ter esse retrocesso jamais", afirmou.
O que mudou na política da CBV para a categoria feminina
A nova política de elegibilidade divulgada pela CBV restringe a inscrição de atletas transgêneras nas disputas da categoria feminina. Na prática, segundo a leitura de especialistas em direito esportivo ouvida por veículos especializados, a norma alinha a entidade às diretrizes defendidas por algumas federações internacionais, como a World Athletics e a World Aquatics, que nos últimos anos aprovaram regras limitando a participação de mulheres trans em provas femininas.
A CBV, no entanto, ainda não detalhou publicamente todos os critérios técnicos da nova política — como exigência de testosterona, prazos de carência ou procedimentos de verificação —, o que tem gerado críticas de atletas e advogados especializados em direito desportivo. Procurada pela reportagem, a confederação reiterou que a medida segue recomendações da Federação Internacional de Voleibol (FIVB) e parâmetros de "fairness desportivo", mas não respondeu até o fechamento desta matéria sobre eventuais exceções ou prazos de transição.
Quem é Tifanny Abreu e por que o caso ganhou dimensão nacional
Tifanny é uma das atletas trans mais conhecidas do esporte brasileiro e referência internacional na discussão sobre inclusão de pessoas transgênero em competições de alto rendimento. Ao longo de uma década na elite do vôlei nacional, ela atuou por clubes de diferentes estados e acumulou passagens pelo cenário paulista, onde se tornou um dos nomes de maior identidade com a torcida.
Sua trajetória extrapolou o universo esportivo. Ela se tornou símbolo em debates sobre diversidade, mercado de trabalho e visibilidade trans, sendo tema de reportagens internacionais e de campanhas institucionais de marcas patrocinadoras do esporte. Por isso, a decisão da CBV mobilizou não apenas torcedores, mas também organizações da sociedade civil, empresas e parlamentares que acompanham a pauta de direitos LGBTQIA+.
O impacto da decisão para clubes, patrocinadores e torcidas
A reação de Tifanny trouxe à tona um ponto central do debate: o efeito econômico e simbólico do banimento vai muito além da atleta individualmente. Clubes que investiram em sua contratação perdem uma peça de rendimento esportivo, mas também um ativo de posicionamento de marca. Patrocinadores ligados ao universo da diversidade veem seus argumentos de campanha enfraquecidos quando a principal referência do segmento é excluída das competições oficiais.
Para os torcedores, o efeito é emocional e identitário. A presença de Tifanny nas quadras foi, durante anos, um fator de mobilização de público e de engajamento nas redes sociais de seus clubes — algo que também se traduzia em receita de bilheteria e em ações de marketing.
O cenário internacional da inclusão de atletas trans no esporte
A decisão da CBV acontece em um contexto global marcado por restrições crescentes à participação de mulheres trans em categorias femininas. Após decisões polêmicas da World Athletics e da World Aquatics, que endureceram seus regulamentos nos últimos anos, federações nacionais de diferentes países têm sido pressionadas a alinhar suas regras aos padrões internacionais.
No entanto, organizações como o Comitê Olímpico Internacional (COI) e entidades de defesa dos direitos humanos, como a ONU Mulheres e a Human Rights Watch, defendem que critérios sejam baseados em evidências científicas e respeitem a identidade de gênero das atletas, evitando retrocessos civilizatórios. É justamente esse contraste que motivou a fala dura de Tifanny sobre os "anos 60 e 70".
O que diz a legislação brasileira sobre o tema
No Brasil, a discussão esbarra em um arcabouço jurídico que protege a identidade de gênero como direito fundamental. O Supremo Tribunal Federal (STF), em decisões recentes, reconheceu o direito de pessoas trans à alteração do registro civil sem necessidade de laudos ou procedimentos médicos, além de ter consolidado entendimento de que a discriminação por identidade de gênero é equiparável à discriminação por raça.
A Lei Maria da Penha e o Estatuto da Igualdade Racial, somados a princípios constitucionais de dignidade da pessoa humana, dão margem para que a decisão da CBV seja questionada judicialmente. Advogados ouvidos pela reportagem avaliam que há espaço para ações individuais e coletivas, seja no âmbito da Justiça Desportiva, seja na Justiça Comum, com base em argumentos de discriminação, abuso de direito e violação de contratos de trabalho de atletas profissionais.
Próximos passos: o que esperar nos próximos dias
A tendência é que o caso ganhe novos capítulos nas próximas semanas. Três desdobramentos são esperados:
- Posicionamento oficial de entidades de classe: sindicatos de atletas, conselhos de direitos humanos e a Defensoria Pública devem se manifestar publicamente.
- Ações judiciais: a própria Tifanny, outros atletas e entidades têm legitimidade para questionar a norma tanto na esfera esportiva quanto na Justiça comum.
- Repercussão no Campeonato Paulista e nas demais competições: o impacto direto na próxima rodada e nas inscrições já realizadas deve ser monitorado.
Enquanto isso, a expectativa de torcedores e da comunidade trans é que a CBV abra canais formais de diálogo com atletas e especialistas antes de aplicar a medida de forma definitiva nas demais competições do calendário nacional.
Perguntas frequentes
O que a CBV decidiu sobre atletas trans no vôlei?
A Confederação Brasileira de Vôlei publicou uma nova política de elegibilidade que restringe a participação de atletas transgêneras nas disputas da categoria feminina, alinhando-se a tendências adotadas por algumas federações internacionais nos últimos anos.
Quantos anos Tifanny Abreu tem de carreira no vôlei feminino?
Segundo a própria atleta, são 10 anos de atuação no vôlei feminino profissional, período em que se tornou uma das principais referências do esporte brasileiro em debates sobre inclusão.
A medida da CBV pode ser questionada na Justiça?
Sim. Especialistas em direito desportivo e constitucional avaliam que a norma pode ser contestada tanto na Justiça Desportiva quanto na Justiça comum, com argumentos de discriminação por identidade de gênero e de violação a direitos fundamentais previstos na Constituição Federal.
Qual é o argumento da CBV para restringir atletas trans?
A entidade afirma que a medida busca garantir o "fairness desportivo" e segue parâmetros da Federação Internacional de Voleibol (FIVB), embora ainda não tenha detalhado todos os critérios técnicos da nova política.
Onde foi feita a declaração de Tifanny Abreu?
A fala foi concedida à imprensa após a derrota por 3 sets a 2 para o Pinheiros, pela estreia do Campeonato Paulista, neste sábado (15), e reproduzida pelo portal Terra.com.br.
Fonte principal: portal Terra.com.br — "'É um enorme retrocesso', diz Tifanny sobre banimento de mulheres trans pela CBV".
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