Redes sociais se tornam novo esconderijo do tráfico de animais e plantas silvestres, aponta estudo internacional
O tráfico ilegal de espécies silvestres migrou para um território difícil de policiar: as redes sociais e os grandes marketplaces da internet. Um estudo internacional liderado pela Universidade de Helsinque, na Finlândia, e publicado na revista científica Nature Reviews Biodiversity, revela que plataformas como Facebook, Instagram, TikTok, YouTube, eBay, Google, Alibaba e Shopee estão sendo usadas de forma sistemática para anunciar a venda de animais, plantas e fungos — incluindo espécies sob risco de extinção. Os números levantados em 2025 ajudam a dimensionar um problema que opera, em grande parte, à vista de todos.
O que os pesquisadores encontraram em 2025
Em um monitoramento de seis semanas realizado em 2025, os pesquisadores identificaram mais de 1,6 mil primatas sendo anunciados exclusivamente em Facebook, Instagram, TikTok e YouTube. Trata-se de um recorte específico, mas que ilustra a intensidade do comércio: primatas são, em sua maioria, protegidos por legislações nacionais e tratados internacionais, e muitos estão entre as espécies mais visadas pelo tráfico global.
Os dados mais amplos vêm de um segundo monitoramento, também de seis semanas, que varreu 280 plataformas diferentes. Nesse universo, foram localizados 33.006 exemplares de espécies listadas nos anexos da Convenção sobre Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (Cites), o principal tratado internacional de proteção à vida silvestre, em vigor desde 1975.
Do total mapeado, 54% correspondiam a animais vivos e 46% a partes de animais ou produtos derivados — o que inclui peles, ossos, troféus, além de itens usados na medicina tradicional e na moda. A variedade de grupos taxonômicos identificados inclui aves, serpentes, rãs, orquídeas e cactos, entre outros.
Por que a internet agravou o problema
O ambiente digital oferece ao traficante três vantagens que o comércio físico raramente proporciona: anonimato relativo, alcance transnacional e baixo custo de operação. Uma foto postada em um grupo fechado do Facebook pode, em poucas horas, alcançar compradores em continentes distintos. O pagamento, cada vez mais digital, dificulta a rastreabilidade financeira. E, diferentemente de feiras e mercados tradicionais, os anúncios raramente exigem licença ou identificação.
Segundo a equipe da Universidade de Helsinque, outro dado preocupante é a composição do catálogo ilegal: algumas das espécies comercializadas já estavam sob risco elevado de extinção, mas outras sequer haviam sido mapeadas como alvo prioritário do tráfico. Isso significa que o mercado online está ampliando o cardápio da biodiversidade explorada, não apenas replicando padrões antigos.
Os próprios algoritmos das plataformas acabam funcionando como uma vitrine involuntária. Termos de busca populares, hashtags e sistemas de recomendação entregam esses anúncios a perfis de interesse, multiplicando a audiência sem que o vendedor precise investir em marketing.
O que diz o estudo sobre o caso africano
A pesquisa destaca o continente africano como um dos exemplos mais claros de como o comércio ilegal se adaptou ao ambiente digital. Espécies africanas historicamente visadas, como grandes primatas e répteis exóticos, passaram a aparecer com regularidade em anúncios de redes sociais e sites de e-commerce. Para os pesquisadores, esse movimento indica uma sofisticação crescente das redes criminosas, que antes dependiam de contatos pessoais e hoje se apoiam em infraestrutura tecnológica aberta.
Por que o Brasil está no centro desse debate
Embora o estudo da Universidade de Helsinque não traga números específicos sobre o Brasil, o país aparece com destaque em qualquer discussão sobre tráfico de silvestres — e por boas razões. O território brasileiro abriga entre 15% e 20% de toda a biodiversidade do planeta, o que o torna simultaneamente um celeiro de espécies e um alvo prioritário para o comércio ilegal.
No Brasil, o tráfico de animais silvestres é crime previsto na Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/1998), com pena de reclusão de um a quatro anos, além de multas. A fiscalização envolve órgãos como o Ibama, a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal e as polícias ambientais estaduais. Mesmo assim, estimativas de organizações como a Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas) indicam que o Brasil continua entre os maiores mercados e rotas de escoamento do mundo.
A dimensão digital amplia o desafio. Grupos de venda em aplicativos de mensagem, perfis em redes sociais e anúncios em plataformas de e-commerce já foram alvo de operações policiais no país, especialmente envolvendo aves como araras e papagaios, répteis e primatas. A dificuldade está na velocidade: para cada perfil derrubado, outros surgem com nomes e números diferentes.
Como as plataformas têm reagido
Nos últimos anos, empresas de tecnologia começaram a publicar políticas mais explícitas de proibição à venda de espécies protegidas. O Meta, por exemplo, proíbe a comercialização de animais vivos em Facebook e Instagram, assim como o TikTok e o YouTube em seus termos de uso. Marketplaces como eBay, Shopee e Alibaba também restringem esse tipo de anúncio.
Na prática, porém, a aplicação dessas regras é reativa e, muitas vezes, insuficiente. Os pesquisadores finlandeses defendem que o combate eficaz depende de três frentes simultâneas: monitoramento automatizado por palavras-chave e imagem, cooperação direta entre plataformas e órgãos ambientais e canais de denúncia mais ágeis para usuários e organizações.
O papel do consumidor nessa cadeia
Outro ponto pouco debatido é a demanda. O comércio online só prospera porque existem compradores dispostos a pagar — e, em muitos casos, a pesquisa da Universidade de Helsinque mostra que os anúncios não tentam esconder a natureza ilegal do produto. Comprar um animal silvestre sem origem comprovada, além de crime, alimenta uma cadeia que começa na captura na natureza e termina, com frequência, na morte do animal: a maioria não sobrevive ao transporte, ao estresse e ao cativeiro inadequado.
Para quem quer contribuir no combate, alguns caminhos são simples: denunciar anúncios suspeitos às plataformas, não adquirir animais de origem duvidosa e apoiar projetos de conservação e reabilitação, como os centros de triagem do Ibama e ONGs que atuam na recuperação de espécies traficadas.
O que ainda precisa ser feito
O estudo finlandês aponta que o cenário atual exige mais do que ações pontuais. Entre as medidas recomendadas estão a criação de bases de dados compartilhadas entre países, o treinamento de equipes forenses em análise de anúncios digitais e a tipificação mais clara do tráfico online nos códigos penais — uma vez que, em muitos países, a legislação foi desenhada para o mundo físico.
No Brasil, o debate sobre tipificação do crime ambiental digital ainda é incipiente. Especialistas defendem que a inclusão expressa de condutas online nos tipos penais existentes facilitaria tanto a investigação quanto a punição, especialmente em casos que envolvem múltiplas jurisdições.
Perguntas frequentes
Quais plataformas foram apontadas no estudo como usadas para tráfico de animais?
O estudo da Universidade de Helsinque, divulgado pela Olhar Digital, cita Facebook, Instagram, TikTok, YouTube, eBay, Google, Alibaba e Shopee como plataformas onde foram encontrados anúncios de espécies protegidas.
Quantos animais e plantas foram identificados no levantamento?
Em seis semanas de monitoramento em 280 plataformas, os pesquisadores identificaram 33.006 exemplares de espécies protegidas pela Cites. Em um recorte específico, mais de 1,6 mil primatas foram anunciados em redes sociais.
O tráfico de animais silvestres é crime no Brasil?
Sim. A Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/1998) prevê pena de reclusão de um a quatro anos para quem captura, comercializa ou mantém em cativeiro espécies silvestres sem autorização, além de multas.
Como denunciar anúncios ilegais de animais na internet?
As denúncias podem ser feitas diretamente nas próprias plataformas, por meio dos mecanismos de "reportar" conteúdo, e também ao Ibama, por meio da Linha Verde (0800 61 8080), além de delegacias especializadas em crimes ambientais.
O Brasil é um dos maiores alvos do tráfico de espécies?
Sim. Por abrigar cerca de 15% a 20% da biodiversidade mundial, o Brasil está entre os países mais afetados tanto como origem de espécies traficadas quanto como mercado consumidor, segundo organizações como a Renctas.
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