AfD conquista quase 44% na Saxônia-Anhalt e fica a três cadeiras da maioria absoluta em resultado histórico
A Alternativa para a Alemanha (AfD), partido de extrema-direita, obteve um resultado histórico nas eleições regionais do estado da Saxônia-Anhalt, ficando a apenas três assentos da maioria absoluta no Parlamento local. Com quase 44% dos votos válidos — número próximo dos 45% mencionados pelo líder estadual Ulrich Siegmund durante a noite eleitoral — o partido consolidou sua força no leste da Alemanha e deu mais um sinal de que o tradicional cordon sanitaire (cordão sanitário) erguido pelas demais forças políticas alemãs começa a ceder. Segundo o portal Observador.pt, o resultado foi recebido como um "tremor de terra eleitoral" por analistas e adversários.
O desempenho representou uma vitória inédita para a legenda, que até então figurava como força de protesto nas regiões orientais do país. A CDU (União Democrata-Cristã), tradicional pilar da política alemã, viu seus votos caírem para 17% — praticamente a metade do resultado anterior —, embora tenha permanecido como a segunda força mais votada. O SPD (Partido Social-Democrata) conseguiu apenas 9,3%, número próximo ao dos Verdes (8,9%) e do Die Linke (A Esquerda, 8,6%).
Quem é a AfD e por que esse resultado importa?
A Alternative für Deutschland (AfD) foi fundada em 2013 como um partido eurocético, mas migrou rapidamente para uma plataforma de extrema-direita nacionalista, com forte ênfase em restrições à imigração, críticas ao meio ambiente e ceticismo em relação à União Europeia. Classificada como parcialmente "extremista" pelo serviço de inteligência alemão em alguns estados, a legenda é mantida fora de coalizões governamentais pela quase totalidade dos partidos alemães desde 2017 — uma dinâmica conhecida como cordon sanitaire.
O resultado na Saxônia-Anhalt representa a primeira vez que um partido fora do bloco tradicional CDU/SPD/Verdes chega tão perto de governar sozinho um Land (estado) alemão. Para Siegmund, trata-se de um "resultado realista" e de "uma sensação histórica". Em pronunciamento após a apuração, o líder estadual afirmou que o partido está disposto a assumir responsabilidade política e a negociar com outras forças, mas sem abrir mão de suas bandeiras centrais.
"As pessoas demonstraram que querem, finalmente, uma mudança política e, acima de tudo, demonstraram que a querem conosco. […] Não vamos ceder, não vamos fazer compromissos de última hora. Vamos manter-nos fiéis à nossa linha de ação. É isso que o eleitor merece." — Ulrich Siegmund, líder da AfD na Saxônia-Anhalt.
Os números da eleição na Saxônia-Anhalt
O quadro final das eleições estaduais, conforme divulgado pela apuração inicial e reportado pelo Observador.pt, foi o seguinte:
- AfD: quase 44% (≈45% nas declarações de Siegmund) — vitória histórica.
- CDU: 17% — resultado reduzido a praticamente metade.
- SPD: 9,3% — pior desempenho histórico do partido no estado.
- Verdes (Bündnis 90/Die Grünen): 8,9% — desempenho estável, mas modesto.
- Die Linke: 8,6% — acentuada perda de representatividade.
Com a distribuição de cadeiras, a AfD terminou a três assentos da maioria absoluta. Isso abriu espaço para que outras legendas pequenas se tornassem decisivas no processo de formação de governo, ainda que o SPD, os Verdes e o Die Linke tenham reiterado, em diferentes ocasiões, a recusa histórica de fazer coalizão formal com a extrema-direita.
O que mudou no tabuleiro político?
Pela primeira vez, um agrupamento descrito pelo Observador.pt como "esquerda nacionalista" — referência que, no contexto alemão contemporâneo, recai sobre formações como o Bündnis Sahra Wagenknecht (BSW), de orientação populista de esquerda — admitiu publicamente viabilizar uma governação da AfD. A declaração quebra uma das barreiras simbólicas mais importantes do sistema partidário alemão: a de que nenhum partido aceitaria ser fiador político da extrema-direita.
O que é a Saxônia-Anhalt e por que esse estado é estratégico?
A Saxônia-Anhalt é um dos 16 Länder da República Federal da Alemanha, localizado no antigo leste do país, com capital em Magdeburgo. Foi onde funcionou o campo de concentração de Buchenwald, símbolo das atrocidades nazistas, e onde hoje está instalada uma das maiores economias regionais do leste alemão, com polos químicos, agroindustriais e de energias renováveis.
Estados do leste como Saxônia, Turíngia e Brandemburgo já vinham registrando resultados expressivos da AfD nas últimas décadas, alimentados por fatores como:
- Desindustrialização pós-reunificação e sensação de abandono pelo governo federal;
- Queda demográfica e envelhecimento da população;
- Distância cultural e econômica em relação ao oeste do país;
- Crescimento de pautas migratórias após a crise de 2015.
O resultado de agora, porém, extrapola o padrão regional: a magnitude dos 44% indica que a AfD está deixando de ser vista como um partido exclusivamente "do leste" e começa a se consolidar como alternativa real em outras partes do país — um movimento já percebido nas últimas eleições federais.
O cordão sanitário se rompeu de vez?
O cordon sanitaire é o pacto informal pelo qual CDU, SPD, Verdes, FDP e Die Linke se recusam a participar de coalizões com a AfD. Historicamente, o acordo foi reforçado após a classificação oficial do partido como "extremista confirmado" em algumas categorias pelo Bundesamt für Verfassungsschutz (serviço de inteligência interna) e pela memória histórica do nazismo na Alemanha.
A movimentação registrada na Saxônia-Anhalt, com um partido menor aceitando "viabilizar" o governo da AfD, ainda que sem participar formalmente da coalizão, indica uma erosão silenciosa desse pacto. Especialistas ouvidos pela imprensa europeia avaliam que, mesmo sem uma aliança formal, a simples tolerância parlamentar já basta para dar governabilidade à extrema-direita e alterar a política nacional por meio do Bundesrat (câmara alta do parlamento alemão).
Por que essa vitória importa para o leitor brasileiro?
A Alemanha é a maior economia da União Europeia e a terceira maior do mundo. Decisões políticas em Berlim impactam diretamente:
- O comércio exterior brasileiro: o país é um dos principais destinos de produtos manufaturados e fornecedores de commodities para o mercado alemão;
- A política climática global: a AfD é crítica às metas europeias de descarbonização, o que pode frear investimentos em energias renováveis e na eletrificação da indústria;
- O bloco europeu: uma maior influência da extrema-direita pode enfraquecer a coesão da UE em temas como imigração, política externa e sanções à Rússia;
- O debate sobre imigração na América Latina: a pauta migratória ganhou centralidade na Europa após 2015 e hoje inspira movimentos semelhantes em outras regiões, inclusive no Brasil.
Próximos passos: o que esperar nas próximas semanas
O desenrolar do processo político na Saxônia-Anhalt deve ser acompanhado de perto. As etapas mais prováveis são:
- Formação de coalizão: a AfD buscará negociar com partidos menores, mesmo sem participação formal;
- Possível governo minoritário: caso nenhuma coalizão seja viabilizada, o estado pode ter um governo de minoria, sujeito a votações caso a caso no parlamento regional;
- Reações em Berlim: a chanceler e líderes nacionais devem se posicionar oficialmente, e o resultado pode influenciar a próxima corrida federal;
- Reflexo em outras eleições regionais: estados como Saxônia, Turíngia e Brandemburgo têm eleições nos próximos ciclos e podem repetir o padrão.
Siegmund já adiantou que a imigração e as questões sociais serão tratadas como linhas vermelhas em negociações. "Faremos o que prometemos durante toda a campanha", afirmou o dirigente, sinalizando que o partido pretende testar os limites do establishment alemão nos próximos meses.
Perguntas frequentes
O que é a AfD?
É a Alternative für Deutschland, partido alemão de extrema-direita fundado em 2013, com plataforma nacionalista, anti-imigração e cética em relação à União Europeia.
O que aconteceu nas eleições da Saxônia-Anhalt?
A AfD venceu com quase 44% dos votos, ficando a três cadeiras da maioria absoluta no parlamento regional. Foi o melhor resultado da história do partido em um estado alemão.
Por que o resultado é considerado histórico?
Porque quebrou o cordon sanitaire: pela primeira vez, um partido de esquerda nacionalista admitiu viabilizar um governo da extrema-direita, mesmo sem integrar formalmente a coalizão.
O que é a Saxônia-Anhalt?
É um estado da antiga Alemanha Oriental, com capital em Magdeburgo, e um dos 16 Länder que compõem a República Federal da Alemanha.
Qual o impacto para o Brasil?
Como a Alemanha é a maior economia da UE, mudanças internas podem afetar comércio, investimentos, política climática e o equilíbrio político europeu, com reflexos indiretos para a América Latina.
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