Leilão concede 266,9 mil hectares da Floresta Nacional Balata-Tufari por 35 anos
O governo federal realizou nesta quinta-feira (27), na sede da B3, em São Paulo, o leilão para concessão de três unidades de manejo florestal (UMFs) da Floresta Nacional (Flona) de Balata-Tufari, no sul do Amazonas. Duas empresas do setor madeireiro venceram o certame e assumem, juntas, a gestão de 266,9 mil hectares de floresta nativa por um período de 35 anos, com previsão de investimentos de cerca de R$ 2 bilhões no período. Segundo o portal Abril.com.br, o modelo une exploração econômica, geração de emprego e conservação ambiental em uma região historicamente pressionada pelo desmatamento.
Onde fica e por que a Balata-Tufari é estratégica
A Flona de Balata-Tufari está localizada no município de Canutama, no interior do Amazonas, em uma região de transição entre áreas protegidas, terras indígenas e frentes de ocupação agrícola. A unidade é uma Flona, categoria de conservação de uso sustentável que permite, sob regras estritas, a exploração de recursos naturais em conjunto com a proteção da biodiversidade. As 266,9 mil hectares concedidas foram divididas em três unidades de manejo independentes, justamente para permitir o acompanhamento técnico de cada área e reduzir a pressão sobre a floresta.
A escolha do modelo de concessão para uma Flona nessa região responde a uma equação delicada: gerar alternativa econômica lícita ao extrativismo predatório, frear o avanço de ocupações irregulares e manter os serviços ambientais da floresta em pé. Cada hectare concedido passa a ter um responsável legal e técnico por 35 anos, prazo considerado suficiente para que planos de manejo florestal sejam executados com ciclo de retorno compatível com a maturidade das árvores da Amazônia.
Como o leilão foi estruturado e quem venceu
O certame contemplou três UMFs e foi vencido por duas empresas. A B2 Comércio e Exportação de Madeiras Ltda. arrematou as unidades I e III, enquanto a Madeirantes Serviços, Indústria e Comércio de Madeira Ltda. levou a unidade II. A divisão em três lotes e a possibilidade de uma mesma empresa ficar com mais de uma área são desenhadas para evitar pulverização excessiva de operadores sem capacidade técnica.
Os valores de outorga fixa, pagos pelas empresas ao poder público como preço pela concessão, somaram aproximadamente R$ 19 milhões. A B2 ofereceu R$ 6 milhões pela UMF I e R$ 8,6 milhões pela UMF III. A Madeirantes venceu a UMF II com oferta de R$ 4,4 milhões. Esses valores são apenas a entrada inicial: ao longo dos 35 anos, a receita pública é complementada por royalties variáveis atrelados ao volume efetivamente explorado dentro dos limites do plano de manejo aprovado.
Quanto será investido e em que
O contrato estabelece um pacote de investimentos estimado em R$ 2 bilhões distribuídos ao longo de três décadas e meia. A divisão interna é bastante específica:
- Infraestrutura: mais de R$ 300 milhões devem ser aplicados em obras e melhorias dentro das unidades de manejo, como construção e manutenção de vias internas de escoamento, construção de pátios de manejo, instalação de viveiros, estruturas de apoio a brigadas e base operacional.
- Operações de manejo florestal: aproximadamente R$ 1,78 bilhão será direcionado à atividade-fim da concessão, incluindo inventário florestal contínuo, planejamento de colheita, operação de motosserra e maquinário, transporte, beneficiamento e reposição do ciclo produtivo da floresta.
O porte dos números chama atenção em um contexto de aperto fiscal: o leilão conseguiu mobilizar capital privado para dentro de uma unidade de conservação sem aporte direto do Tesouro. Para o leitor que mora nas capitais, vale destacar o efeito multiplicador sobre a economia regional: cada R$ 1 investido em manejo florestal costuma puxar uma cadeia que envolve fornecedores locais, prestadores de serviço, comunidades vizinhas e mão de obra braçal especializada.
O que é, na prática, uma concessão florestal
Concessão florestal é um instrumento previsto na legislação brasileira pelo qual o Estado transfere a particulares, por prazo longo e mediante contrato, o direito de explorar economicamente uma área de floresta pública sob critérios técnicos rígidos. Não se trata de vender terra nem de permitir desmatamento livre. A área continua sendo bem público, e a empresa apenas opera um serviço de manejo autorizado.
Na prática, o concessionário só pode cortar árvores previamente autorizadas pelo plano de manejo, em volume calculado para garantir que a floresta se mantenha produtiva no próximo ciclo. Toda a cadeia é rastreada, da árvore ao produto final, por meio de sistemas como o DOF (Documento de Origem Florestal) e o Sinaflor. Se houver desmatamento ilegal ou descumprimento de cláusulas, o contrato pode ser rescindido e a empresa excluída do programa.
O modelo é gerenciado pelo Serviço Florestal Brasileiro (SFB), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, que conduz os editais, fiscaliza a execução e audita os resultados. As concessões são justamente uma das apostas do governo para demonstrar que é possível gerar renda na Amazônia sem abrir novas áreas para pasto ou lavoura.
Impacto direto para a região e o país
A entrada em operação das três UMFs tende a produzir efeitos concretos já nos primeiros meses. Entre os mais esperados estão:
- Geração de emprego local: o manejo florestal é intensivo em mão de obra qualificada para inventário, abate técnico, arraste de toras e operação de serrarias móveis.
- Pressão reduzida sobre a floresta ilegal: ao criar oferta legal de madeira com origem rastreável, o leilão tende a desidratar parte do mercado clandestino que alimenta o desmatamento em Canutama e municípios vizinhos.
- Arrecadação pública de longo prazo: além dos R$ 19 milhões de outorga fixa, a concessão prevê recolhimento de royalties variáveis proporcionais à produção.
- Sinal regulatório para investidores: cada leilão bem-sucedido em uma Flona amplia a confiança do mercado no Brasil como destino para capital estrangeiro e fundos voltados a uso sustentável da floresta.
Para o consumidor brasileiro, o efeito mais visível será indireto, mas relevante: madeiras certificadas tendem a entrar no mercado com maior oferta, especialmente espécies amazônicas usadas na construção civil e na fabricação de móveis de alto padrão, ainda que a preços compatíveis com a rastreabilidade exigida.
Próximos passos e o que acompanhar
Com o leilão concluído na B3, as próximas etapas envolvem a assinatura dos contratos, a apresentação dos planos de manejo detalhados, a aprovação pelo órgão ambiental competente e o início efetivo das operações. Antes do primeiro corte, as empresas precisam passar por vistorias técnicas e licenças operacionais específicas.
Vale acompanhar de perto três indicadores nos próximos meses:
- Publicação dos contratos e planos de manejo no Diário Oficial e no portal do SFB.
- Contratação de pessoal e início das atividades de campo.
- Resultados dos primeiros inventários florestais pós-concessão.
Esses três movimentos dirão se o leilão de Balata-Tufari será lembrado como mais um capítulo burocrático ou como um divisor de águas na relação entre economia e floresta na Amazônia.
Perguntas frequentes
O que é a Floresta Nacional de Balata-Tufari?
É uma unidade de conservação de uso sustentável localizada no município de Canutama, no sul do Amazonas. A categoria permite a exploração racional de recursos naturais sob regras estritas de manejo, conciliando conservação e geração de renda.
Qual foi a área total concedida no leilão?
Foram concedidos 266,9 mil hectares de floresta nativa, divididos em três unidades de manejo florestal (UMFs) independentes.
Por quanto tempo as empresas vão administrar a área?
O contrato tem duração de 35 anos, prazo considerado compatível com o ciclo de maturação das árvores amazônicas exploradas sob manejo.
Quem venceu o leilão?
A B2 Comércio e Exportação de Madeiras Ltda. ficou com as UMFs I e III, e a Madeirantes Serviços, Indústria e Comércio de Madeira Ltda. venceu a UMF II. Juntas, as outorgas fixas somaram cerca de R$ 19 milhões.
Quanto será investido nas unidades de manejo?
A previsão total de investimentos ao longo dos 35 anos gira em torno de R$ 2 bilhões, sendo mais de R$ 300 milhões em infraestrutura e aproximadamente R$ 1,78 bilhão em operações de manejo florestal.
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