Um estudo de longo prazo realizado nos Estados Unidos associou, pela primeira vez em uma população norte-americana, o consumo regular de bebidas açucaradas a um aumento significativo no risco de câncer gástrico — o câncer de estômago. A pesquisa, publicada no periódico científico Gastro Hep Advances e divulgada pelo portal Olhardigital.com.br, acompanhou mais de 112 mil pessoas por décadas e identificou que quem consumia pelo menos uma porção diária dessas bebidas tinha 2,45 vezes mais risco de desenvolver a doença em comparação com quem não consumia.
O que o estudo descobriu e por que ele é relevante
A análise utilizou dados de duas das maiores coortes prospectivas já conduzidas no mundo: o Nurses' Health Study (NHS) e o Health Professionals Follow-up Study (HPFS), ambos mantidos há décadas pela Universidade Harvard. Ao todo, foram acompanhados 112.284 participantes — 68.311 mulheres e 42.973 homens — durante 3.204.001 pessoas-ano, o equivalente a cerca de 28 anos de observação média por indivíduo.
Durante esse período, foram registrados 278 casos de câncer gástrico (140 no NHS e 138 no HPFS). Quando os pesquisadores cruzaram os dados de consumo de bebidas com a incidência da doença, o resultado chamou a atenção: o grupo que relatava pelo menos uma porção diária apresentou risco 2,45 vezes maior do que o grupo que praticamente não consumia essas bebidas, mesmo após ajustes estatísticos para outros fatores de risco conhecidos, como tabagismo, consumo de álcool, índice de massa corporal e histórico familiar.
"Até onde sabemos, este é o primeiro estudo a demonstrar uma associação entre bebidas açucaradas e incidência de câncer gástrico", afirmam os autores Tae-Geun Gweon, Jane Ha, Hanseul Kim, Mengxi Du, Mingyang Song e Andrew T. Chan, responsáveis pelo trabalho.
Que tipo de bebida foi considerado açucarado no estudo?
A pesquisa definiu como "bebida açucarada" um grupo específico de produtos:
- Refrigerantes (gaseificadas comuns e dietéticas não entraram no recorte principal);
- Punch — bebida à base de sucos de frutas, geralmente adoçada;
- Limonada e outras bebidas cítricas adoçadas;
- Bebidas esportivas (isotônicos).
Uma porção foi padronizada em 8 onças fluidas, o equivalente a 237 ml — pouco menos do que uma lata de refrigerante padrão (350 ml). O consumo foi dividido em cinco categorias, que iam de "menos de uma porção por mês" até "mais de uma porção por dia".
Por que o câncer gástrico preocupa?
O câncer de estômago é o quinto tipo de câncer mais incidente no mundo e a quarta causa de morte por câncer, segundo dados da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à Organização Mundial da Saúde. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estimou, para o triênio 2023–2025, cerca de 21 mil novos casos por ano, com maior incidência nas regiões Sul e Sudeste.
Os fatores de risco já consolidados pela medicina incluem:
- Infecção crônica pela bactéria Helicobacter pylori;
- Consumo elevado de alimentos ultraprocessados, embutidos e salgados;
- Baixa ingestão de frutas, legumes e verduras;
- Tabagismo e consumo excessivo de álcool;
- Histórico familiar e predisposição genética.
Agora, o novo estudo adiciona as bebidas açucaradas a essa lista — ao menos como hipótese que exige novas investigações.
O que explica a ligação entre açúcar e câncer de estômago?
Embora o trabalho norte-americano não tenha aprofundado os mecanismos biológicos, a literatura científica já oferece algumas pistas consistentes. O consumo frequente de bebidas açucaradas está associado a:
- Obesidade e acúmulo de gordura visceral, que promovem um estado inflamatório crônico e elevam os níveis de insulina e de fator de crescimento semelhante à insulina (IGF-1), ambos relacionados ao crescimento tumoral;
- Resistência à insulina, fator que pode favorecer a proliferação de células malignas;
- Alterações na microbiota gástrica, com possível desequilíbrio na barreira protetora do estômago;
- Estresse oxidativo, provocado pelo excesso de frutose e glicose, que pode danificar o DNA das células da mucosa gástrica.
Os autores reforçam, no entanto, que associação não é o mesmo que causalidade: o estudo encontrou uma correlação estatística robusta, mas mais pesquisas são necessárias para confirmar se o açúcar presente nessas bebidas age diretamente como gatilho da doença.
O que isso significa para o leitor brasileiro?
O Brasil está entre os maiores consumidores de bebidas açucaradas do planeta. Dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE mostram que o consumo médio de refrigerantes no país gira em torno de 50 litros por habitante ao ano. Sucos industrializados, energéticos e isotônicos cresceram de forma acelerada nos últimos anos, ampliando a exposição da população ao mesmo grupo de produtos analisado pela pesquisa norte-americana.
A Organização Mundial da Saúde recomenda que o consumo de açúcar livre — aquele adicionado a alimentos e bebidas — fique abaixo de 10% das calorias diárias totais, com benefícios adicionais quando reduzido a 5%. Para uma dieta de 2.000 calorias, isso equivale a no máximo 50 gramas (cerca de 10 colheres de chá) por dia. Uma única lata de refrigerante de 350 ml já entrega, em média, 35 a 40 gramas de açúcar, ultrapassando o limite em uma só ingestão.
O Ministério da Saúde brasileiro, por meio de guias alimentares, também orienta a preferência por água, sucos naturais da fruta (sem adição de açúcar) e refeições frescas em detrimento de ultraprocessados — categoria na qual se enquadram as bebidas açucaradas.
Quais cuidados práticos adotar a partir de agora?
Ainda que o estudo seja norte-americano e precise ser replicado em outras populações, especialistas ouvidos em coberturas internacionais recomendam medidas preventivas simples:
- Reservar bebidas açucaradas para ocasiões esporádicas, e não para o dia a dia;
- Substituir refrigerantes por água, água com gás, chás sem açúcar ou sucos naturais sem adição de açúcar;
- Reduzir a porção quando consumir, optando por latas menores em vez de garrafas;
- Verificar rótulos, já que bebidas vendidas como "saudáveis" — como isotônicos e certos sucos prontos — também podem conter altos teores de açúcar adicionado;
- Manter acompanhamento médico regular, especialmente quem tem histórico familiar de câncer gástrico ou fatores de risco como infecção por H. pylori.
Quais são os próximos passos da pesquisa?
Os próprios autores reconhecem que o estudo observacional precisa ser complementado por outras investigações. As próximas etapas incluem:
- Replicação dos resultados em populações de outros países, incluindo latino-americanas;
- Estudos que isolem mecanismos biológicos específicos (por exemplo, o papel da frutose sobre a mucosa gástrica);li>
- Avaliação do impacto de políticas públicas, como tributação de bebidas açucaradas, na incidência da doença;
- Análises que diferenciem o efeito de refrigerantes comuns, diet/zero e sucos industrializados.
Enquanto esses desdobramentos não chegam, a recomendação de reduzir o consumo de bebidas açucaradas já se apoia em um conjunto amplo de evidências que vão do ganho de peso à saúde bucal e cardiovascular — e, agora, possivelmente, à saúde do estômago.
Perguntas frequentes sobre bebidas açucaradas e câncer gástrico
1. Quantas latas de refrigerante por dia já representam risco?
O estudo aponta aumento expressivo de risco em quem consome pelo menos uma porção de 237 ml por dia. A partir desse volume, o risco relativo subiu 2,45 vezes em comparação com quem quase não consome.
2. Suco de caixinha entra na conta?
Sim. Bebidas industrializadas com açúcar adicionado — incluindo sucos de caixinha, néctares e refrescos em pó — fazem parte do grupo de bebidas açucaradas associado ao risco. Suco natural da fruta, sem adição de açúcar, não se enquadra na mesma categoria.
3. Refrigerante zero ou diet tem o mesmo risco?
A pesquisa norte-americana não encontrou associação clara para versões com adoçantes artificiais, mas a literatura ainda debate o tema. Como o açúcar zero não traz benefícios nutricionais adicionais, especialistas recomendam priorizar água e bebidas sem qualquer tipo de adoçante.
4. O consumo na infância e adolescência também preocupa?
Embora o estudo tenha avaliado adultos, outras pesquisas já associaram o consumo precoce e elevado de bebidas açucaradas a maior risco de obesidade e doenças metabólicas na vida adulta — fatores que, por sua vez, elevam o risco de diversos cânceres.
5. Parar de consumir reduz o risco?
Ainda não há dados específicos sobre o tempo necessário para reversão do risco de câncer gástrico. No entanto, abandonar ou reduzir drasticamente o consumo tende a melhorar marcadores metabólicos em poucas semanas e a diminuir a inflamação crônica ao longo dos meses.
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