O que disse Marina Grossi sobre a posição do Brasil na agenda verde
A presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), Marina Grossi, afirmou em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, reproduzida pelo portal Terra.com.br, que o Brasil reúne duas vantagens competitivas raras no atual contexto internacional: a posse de ativos naturais estratégicos para a transição climática e um trânsito geopolítico que não depende de alinhamentos extremos com nenhum bloco. Na avaliação dela, essa combinação torna o país "indispensável" para o mundo nas discussões sobre sustentabilidade.
Segundo a reportagem do Terra.com.br, a declaração foi feita no contexto da publicação, no fim de agosto, da "Carta aos Presidenciáveis" — documento do CEBDS que reúne recomendações do setor privado aos candidatos ao Palácio da Planalto para incluir a agenda verde no planejamento de governo. A entrevista ganha relevância adicional em ano eleitoral e às vésperas da COP30, conferência da ONU sobre mudanças climáticas que será sediada em Belém, no Pará, em novembro.
Por que o Brasil é considerado "indispensável" na transição climática
De acordo com Marina Grossi, a relevância brasileira não é retórica: o país abriga boa parte da maior floresta tropical do planeta, mananciais que alimentam a maior bacia hidrográfica do mundo e uma das biodiversidades mais ricas do planeta. Esses ativos são cada vez mais cobiçados por economias que precisam compensar emissões, conservar estoques de carbono e garantir cadeias produtivas resilientes ao aquecimento global.
A outra frente é geopolítica. Em um mundo no qual potências médias são frequentemente pressionadas a escolher entre os Estados Unidos, a China ou blocos regionais, o Brasil aparece, na leitura da executiva, com margem de manobra para dialogar com todos. Essa autonomia, segundo ela, reforça o poder de negociação climática e abre espaço para que o país venda não apenas commodities, mas soluções ambientais.
O que é a Carta aos Presidenciáveis do CEBDS
O documento divulgado pelo CEBDS no fim de agosto reúne diretrizes do setor empresarial para candidatos à Presidência da República. O foco está em proteger os biomas e acelerar a economia verde, com financiamento e ambiente regulatório adequados.
Para Grossi, a carta cumpre uma dupla função: pressionar candidatos a incluir a pauta no plano de governo e mostrar que o setor privado está "articulado e unido" em torno do tema, independentemente de quem vença as eleições. A mensagem central é que sustentabilidade deixou de ser diferencial ideológico e passou a ser vantagem competitiva mensurável.
Quais são as prioridades urgentes apontadas pela CEBDS
Na entrevista, Marina Grossi listou duas frentes que, em sua avaliação, precisam ser tratadas com rapidez pela próxima gestão federal.
Regularização fundiária
A primeira é a regularização fundiária de territórios, especialmente na Amazônia. Para a presidente do CEBDS, sem títulos de terra claros não há como avançar em crédito de carbono, no combate ao desmatamento, na redução da grilagem e no enfraquecimento das redes criminosas que atuam na fronteira agrícola. A questão, segundo ela, é base para oferecer segurança jurídica, previsibilidade e planejamento a investidores e produtores.
O tema é apontado há anos por pesquisadores e pelo Ministério Público Federal como entrave ao desenvolvimento sustentável da região: áreas sem titularidade definida incentivam ocupação predatória, dificultam a cobrança por crimes ambientais e travam a entrada de capital privado em projetos de conservação e produção de baixo carbono.
Implementação do mercado de carbono
A segunda prioridade é a implementação efetiva do mercado de carbono brasileiro. Grossi avalia que o país tem "vantagem competitiva muito grande" no setor e que a regulamentação precisa ser tratada como política de Estado, em instância elevada de governo. O alerta é que, na transição para uma economia global que valoriza créditos de alta integridade, o Brasil precisa garantir que seus créditos respeitem simultaneamente três dimensões: climática, de biodiversidade e social.
Segundo o portal Terra.com.br, a executiva defende que a implementação precisa ser "ambiciosa", com regras claras para transferência de créditos entre países, de modo a preservar a competitividade brasileira e evitar que o produto nacional perca valor no mercado internacional.
Por que a pauta ambiental ainda é tratada como "periférica" e polarizada
Grossi reconheceu, segundo a reportagem do Terra.com.br, que a agenda verde ainda é debatida de forma "periférica" no debate eleitoral, tratada como tema "muito polarizado" e "muito mais político" do que técnico. Para a presidente do CEBDS, o setor empresarial está procurando tirar a discussão desse impasse, recusando-se a "tomar partido".
A estratégia, explicou, é apresentar a sustentabilidade como pauta de competitividade — e não como bandeira de um campo ideológico. "Mostrar, então, que o setor empresarial se articulou, está unido e vai apoiar essa pauta, seja quem for o presidente", resumiu. O objetivo declarado é reconhecer que a transição já está em curso no país porque é economicamente vantajosa.
Para Grossi, o Brasil precisa superar a lógica do "ou isso ou aquilo" e avançar para o "como vamos fazer". A execução, o planejamento, a previsibilidade e a estabilidade regulatória são, em sua leitura, os pré-requisitos para atrair capital privado e deslanchar a agenda.
O papel da energia renovável na competitividade brasileira
Um dos argumentos centrais da entrevista é que a matriz elétrica brasileira já é, simultaneamente, a mais competitiva e a mais renovável entre as grandes economias, com forte presença de hidrelétrica, eólica, solar e biomassa. Grossi usou o dado como ponto de partida para uma provocação ao próximo governo.
A pergunta que a executiva propõe é: o Brasil vai apenas receber data centers estrangeiros que se interessam por eletricidade limpa, ou vai usar essa base energética para construir uma nova indústria nacional de baixo carbono? Na leitura dela, é nessa segunda possibilidade que está a chance de o país capturar mais valor agregado na transição global.
O que esperar dos próximos passos
A entrevista e a "Carta aos Presidenciáveis" se somam a um movimento mais amplo de incidência empresarial sobre as eleições. Nos próximos meses, espera-se que o CEBDS e outras entidades intensifiquem o diálogo com campanhas e partidos, cobrando compromissos públicos com regularização fundiária, mercado regulado de carbono, financiamento à economia verde e integração entre política industrial e política climática.
Paralelamente, a aproximação da COP30 em Belém tende a amplificar a pressão interna por resultados concretos, com investidores e parceiros comerciais avaliando a credibilidade do país a partir de decisões concretas do próximo governo — e não apenas de discurso em conferências internacionais.
Perguntas frequentes
O que é o CEBDS?
O Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável é uma entidade que reúne grandes empresas e reúne o setor privado em torno de práticas e políticas de sustentabilidade no Brasil.
O que é a Carta aos Presidenciáveis?
É um documento divulgado pelo CEBDS no fim de agosto com recomendações do setor privado aos candidatos à Presidência da República, focadas em proteção da natureza e no financiamento da economia verde.
Por que a regularização fundiária é considerada urgente?
Porque terras sem título definido dificultam o combate ao desmatamento e à grilagem, travam o crédito de carbono e afastam investidores que precisam de segurança jurídica.
Qual a importância do mercado de carbono para o Brasil?
O país tem ativos naturais relevantes para gerar créditos valorizados no exterior — desde que o sistema local seja implementado de forma ambiciosa, com regras claras e padrões de integridade climática, social e de biodiversidade.
O que Marina Grossi quer dizer com "sair do ou isso ou aquilo"?
Para a presidente do CEBDS, o debate ambiental precisa deixar de ser tratado como tema polarizado e passar a ser discutido como agenda de competitividade, com foco em execução, planejamento e regulação estável.
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