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PF acessa celular sem senha e recupera mensagens de Vorcaro

Investigadores contornaram bloqueio do aparelho e já encaminharam conversas à Justiça; defesa contesta legalidade da prova.

PF acessa celular sem senha e recupera mensagens de Vorcaro

A divulgação de mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, acendeu um debate que vai muito além do escândalo financeiro: como a Polícia Federal consegue recuperar dados de um celular mesmo quando o investigado se recusa a fornecer a senha de desbloqueio? A pergunta voltou ao centro da cena pública depois que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça retirou o sigilo do inquérito que apura as conversas.

Segundo reportagem do portal Olhardigital.com.br, o material revelado inclui diálogos entre Vorcaro e o também ministro do STF Alexandre de Moraes, além de outras figuras do cenário político nacional. O caso expôs não apenas o conteúdo das mensagens, mas a sofisticação dos métodos usados tanto para tentar ocultá-las quanto para recuperá-las.

O que aconteceu no caso Vorcaro

A operação que resultou na apreensão do aparelho de Vorcaro faz parte de uma investigação mais ampla sobre irregularidades atribuídas ao Banco Master. Após o levantamento do sigilo pelo ministro André Mendonça, trechos das mensagens passaram a circular publicamente, provocando repercussão nos meios jurídico e político.

O ponto central, porém, não é apenas o teor das conversas. É o fato de que os investigadores conseguiram reconstruir comunicações que, em tese, haviam sido desenhadas para deixar o menor rastro possível — incluindo o uso de mensagens de visualização única no WhatsApp, que se autodestroem após serem abertas.

Como Vorcaro tentou apagar os rastros — e por que não funcionou

De acordo com a apuração divulgada pelo Olhar Digital, o empresário adotou uma estratégia deliberada para dificultar o trabalho da perícia. O procedimento, descrito nos autos, funcionava em três etapas:

  1. O texto era redigido no bloco de notas do próprio celular, aplicativo que armazena o conteúdo localmente no aparelho.
  2. Em seguida, era feita uma captura de tela da anotação.
  3. A imagem era então enviada pelo WhatsApp como mensagem de visualização única, recurso que, em condições normais, impede que o destinatário salve, encaminhe ou tire print da conversa.

O interlocutor utilizava mecanismos semelhantes para reduzir vestígios. A combinação dos dois lados sugere um padrão de comunicação previamente combinado para minimizar registros nas plataformas de mensagem.

Mesmo assim, a estratégia não impediu a apuração. A perícia não recuperou as conversas diretamente do WhatsApp, que adota criptografia de ponta a ponta e protocolos rígidos de segurança. O caminho encontrado foi outro: os peritos localizaram as anotações originais e as capturas de tela que permaneceram gravadas na memória interna do próprio dispositivo.

Esses arquivos, cruzados com registros do sistema operacional e metadados do aparelho, permitiram reconstruir boa parte do conteúdo das comunicações. Em outras palavras, mesmo que a mensagem tenha sido apagada do chat, o "rascunho" usado para produzi-la continuou acessível dentro do celular.

Como a PF acessa um celular sem senha

Vorcaro não forneceu a senha de desbloqueio do iPhone 17 Pro apreendido durante a operação. Mesmo assim, segundo a reportagem, a Polícia Federal recorreu a ferramentas especializadas para extrair informações do dispositivo. As duas soluções mais conhecidas no trabalho pericial brasileiro são:

Cellebrite

Desenvolvido pela empresa israelense Cellebrite, o sistema é uma das plataformas mais usadas worldwide em investigações criminais e em ações de inteligência. O software é capaz de extrair dados físicos (armazenados internamente) e lógicos (gerados pelo sistema) de milhares de modelos de smartphones, incluindo aparelhos com criptografia avançada.

Em muitos casos, a ferramenta consegue contornar ou explorar vulnerabilidades em versões específicas do sistema operacional para acessar o conteúdo. A própria Cellebrite vende duas linhas principais de produtos: uma voltada para forças policiais (UFED) e outra, mais restrita, usada em operações de alto nível.

GrayKey

Fabricado nos Estados Unidos pela Grayshift, o GrayKey é considerado uma das ferramentas mais poderosas para desbloquear iPhones. O aparelho se conecta fisicamente ao smartphone por cabo e, dependendo do modelo e da versão do iOS, consegue descobrir o código de acesso em horas ou dias, realizando ataques de força bruta com limitações controladas.

O uso do GrayKey é restrito a órgãos governamentais e agências de aplicação da lei. Sua capacidade de quebrar a proteção de aparelhos Apple já foi tema de disputas judiciais nos EUA, justamente pelo conflito entre a privacidade do usuário e a necessidade de investigação criminal.

Além dessas duas soluções, peritos da PF também utilizam outras técnicas complementares, como análise de backups em nuvem (quando há autorização judicial), cruzamento de metadados de antenas de telefonia e registros de operadoras, além de perícias em chips SIM e cartões de memória.

O que a lei brasileira permite

O acesso a dispositivos eletrônicos no Brasil é regulado por um conjunto de normas que equilibram — nem sempre de forma consensual — o poder investigativo do Estado e o direito à privacidade. Três pilares se destacam:

  • Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014): estabelece que o acesso a registros de conexão e de aplicações de internet só pode ser feito mediante ordem judicial fundamentada.
  • Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD): prevê que dados pessoais só podem ser tratados para finalidades legítimas, específicas e explícitas, com bases legais claras.
  • Código de Processo Penal: prevê a possibilidade de busca e apreensão de dispositivos eletrônicos, mas exige autorização judicial para acesso ao conteúdo.

Na prática, quando a PF apreende um celular e precisa acessá-lo sem a colaboração do investigado, a medida precisa estar fundamentada em decisão judicial. O uso de ferramentas como Cellebrite e GrayKey, portanto, não acontece de forma discricionária: depende de autorização prévia e de cadeia de custódia bem documentada, sob pena de o material ser considerado prova ilícita.

O que o caso ensina sobre segurança digital no cotidiano

A investigação envolvendo Vorcaro deixou lições úteis para qualquer usuário de smartphone, não apenas para alvos de grandes operações. Alguns pontos merecem destaque:

  • Apagar uma mensagem não significa destruí-la. Os dados podem continuar no dispositivo em backups, memórias temporárias, blocos de notas ou capturas de tela.
  • Mensagens autodestrutivas deixam rastros. O recurso de visualização única do WhatsApp protege o chat, mas não o conteúdo que foi gerado ou capturado fora dele.
  • Ferramentas de bloqueio existem, mas não são absolutas. Fabricantes como Apple e Google reforçam constantemente a criptografia, mas vulnerabilidades em sistemas operacionais e engenharia social ainda abrem brechas.
  • A nuvem é outro vetor de investigação. Mesmo que o aparelho esteja bloqueado, informações sincronizadas em serviços como iCloud, Google Drive ou OneDrive podem ser obtidas com ordem judicial direcionada às empresas.

Para o cidadão comum, a recomendação dos especialistas em segurança digital passa por medidas preventivas: usar senhas fortes e autenticação biométrica, manter o sistema operacional atualizado, evitar armazenar informações sensíveis em blocos de notas sem proteção e habilitar a criptografia de backups em nuvem.

Por que o tema importa agora

O caso Vorcaro ocorre em um momento de expansão do uso de provas digitais no Judiciário brasileiro. Estimativas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) indicam que a maior parte dos processos criminais em tramitação já envolve algum tipo de evidência eletrônica — de mensagens em aplicativos a registros de localização e transações financeiras.

A cada operação de grande repercussão, o debate sobre os limites entre privacidade e segurança pública ganha novos contornos. Se, por um lado, as ferramentas de perícia digital são fundamentais para desarticular esquemas criminosos e de corrupção, por outro, seu uso indiscriminado pode configurar abuso de poder e violação de direitos fundamentais.

O que o episódio deixa claro é que não existe, na prática, o "apagamento total". Em um celular, tudo o que é criado, recebido ou visualizado tende a deixar algum tipo de marca — seja no sistema de arquivos, em logs do sistema ou em cópias de segurança. Para a Polícia Federal, essa é uma ferramenta poderosa de investigação. Para o usuário comum, um lembrete constante de que a segurança digital começa nos próprios hábitos.

Perguntas frequentes

A Polícia Federal consegue desbloquear qualquer celular?

Não existe garantia universal de acesso. O sucesso depende do modelo do aparelho, da versão do sistema operacional, do nível de atualização e do tipo de criptografia. Dispositivos mais novos, com softwares atualizados, costumam ser mais difíceis de acessar do que modelos antigos ou com sistemas desatualizados.

Mensagens apagadas do WhatsApp podem ser recuperadas?

Em regra, não diretamente do servidor do aplicativo, devido à criptografia de ponta a ponta. No entanto, vestígios podem ser encontrados no próprio celular — como backups, notificações armazenadas, capturas de tela e arquivos temporários — ou em nuvens vinculadas à conta.

Usar mensagem de visualização única é seguro?

O recurso reduz a possibilidade de o destinatário compartilhar o conteúdo, mas não impede que ele seja fotografado por outro meio (como uma câmera externa) nem que o remetente deixe rastros no próprio aparelho ao redigir a mensagem.

A PF pode acessar meu celular sem autorização judicial?

Não. O acesso a dados armazenados em dispositivos apreendidos depende de ordem judicial fundamentada, sob pena de a prova ser considerada ilícita e descartada pelo Judiciário.

O que posso fazer para proteger melhor meus dados?

Entre as recomendações mais comuns estão manter o sistema e os aplicativos atualizados, ativar a autenticação em dois fatores, usar senhas longas e biométricas, evitar armazenar informações sensíveis em notas desprotegidas e revisar periodicamente as permissões concedidas a aplicativos.

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Yuri Augusto
Escrito por
Yuri Augusto

Yuri Augusto Jornalista e entusiasta de inovação digital, Yuri acompanha de perto as principais movimentações do mercado, economia e tecnologia. Com foco em traduzir informações complexas em análises acessíveis, é o responsável por trazer os conteúdos mais relevantes e em primeira mão para os leitores do GCBS News.

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