A proibição de celulares nas escolas brasileiras deu um salto expressivo em apenas três anos. Segundo dados do Pisa 2025, divulgados nesta terça-feira (8) pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 81% dos estudantes do Brasil estão matriculados em instituições onde o uso do aparelho é vetado nas dependências. Em 2022, o índice era de 37% — uma alta de 44 pontos percentuais em um único ciclo da avaliação internacional.
O movimento coloca o país bem acima da média da OCDE, que também subiu, mas em ritmo bem mais modesto: de 34% para 49% no mesmo intervalo. O relatório ainda mostra uma correlação direta entre a restrição ao dispositivo e a redução de distrações em sala de aula.
O que é o Pisa e por que os dados de 2025 chamam atenção
O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês) é o principal indicador global de qualidade da educação básica. Aplicado a cada três anos pela OCDE, o exame avalia habilidades de leitura, matemática e ciências de alunos de 15 anos em mais de 90 países e territórios.
A edição de 2025 trouxe recortes inéditos sobre o uso de tecnologia, incluindo um capítulo dedicado a inteligência artificial na aprendizagem e ao impacto dos celulares no cotidiano escolar. Foi justamente nesse bloco que o caso brasileiro se destacou: a velocidade da mudança regulatória nas escolas nacionais ficou entre as maiores já registradas em um único ciclo.
Brasil saltou de 37% para 81% em três anos — entenda a mudança
Em 2022, apenas 37% dos estudantes brasileiros estudavam em colégios que proibiam totalmente o uso de celulares. No levantamento de 2025, divulgado pela OCDE e reportado pelo portal Olhardigital.com.br, esse percentual saltou para 81% — praticamente o dobro da marca anterior.
O avanço não é casual. Entre 2023 e 2025, uma série de estados e municípios brasileiros aprovou leis restringindo o uso do aparelho em sala de aula e nos recreios, culminando na sanção, em abril de 2025, da Lei Federal nº 15.100/2025, que proibiu celulares em escolas de educação básica em todo o território nacional. A norma permite exceções apenas para uso pedagógico orientado por professores, alunos com deficiência ou condições de saúde que demandem o aparelho, e em situações de emergência.
Antes da regra federal, ao menos 17 estados já tinham legislação própria sobre o tema — entre eles São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Bahia e Pernambuco. A soma dessas iniciativas ajuda a explicar por que o índice brasileiro saltou tão acima da média internacional em tão pouco tempo.
Como o Brasil se compara com a média da OCDE
Apesar do salto, a OCDE também registrou avanço na restrição ao uso de celulares. A média dos países da organização passou de 34%, em 2022, para 49% em 2025 — um aumento de 15 pontos percentuais.
- Brasil (2025): 81% dos alunos em escolas com proibição
- Média OCDE (2025): 49%
- Brasil (2022): 37%
- Média OCDE (2022): 34%
A distância entre o indicador brasileiro e o dos demais países da OCDE saltou de 3 para 32 pontos percentuais em três anos — um diferencial expressivo para um indicador educacional que costuma ter variação lenta.
Proibir celular realmente reduz a distração? O que os dados mostram
Um dos pontos mais citados do relatório Pisa 2025 é a associação entre restrição ao celular e menor percepção de distração em sala de aula. Na média dos países da OCDE, alunos que estudam em instituições com proibição total têm cerca de 13% menos probabilidade de relatar que o celular atrapalha suas aulas em comparação com colegas de escolas sem a restrição.
O dado é estatístico, não causal — ou seja, não prova isoladamente que a proibição causa a queda da distração. Mas é consistente com pesquisas publicadas nos últimos anos por instituições como a London School of Economics e o Journal of Educational Psychology, que já haviam apontado redução no desempenho de alunos em escolas com uso liberado do aparelho.
Para pais e educadores brasileiros, o recorte prático é direto: quando o celular não está ao alcance durante a aula, há menos notificações, menos checagem compulsiva de redes sociais e, em tese, maior foco no conteúdo.
Outros destaques do Pisa 2025 para o Brasil
A edição deste ano não trata apenas de celulares. Três outros pontos do relatório são especialmente relevantes para entender o cenário educacional do país:
- Inteligência artificial na rotina de estudo: quase metade dos alunos brasileiros declarou usar ferramentas de IA para estudar, um índice considerado alto quando comparado à média da OCDE. O número indica que os chatbots e assistentes de estudo já fazem parte do cotidiano de aprendizado no país.
- Proficiência: o Pisa 2025 atualizou os dados de leitura, matemática e ciências. O Brasil segue abaixo da média internacional nas três áreas, mas com sinais mistos em alguns recortes estaduais que adotaram políticas de reforço pedagógico.
- Bullying: o relatório dedicou atenção à percepção dos estudantes sobre assédio moral e cyberbullying, tema que ganhou relevância após a popularização das redes sociais entre adolescentes.
O que está por trás do movimento contra o celular em sala de aula?
Acelerada por três fatores principais, a mudança brasileira reflete uma combinação de pressão social, evidência científica e decisão política:
- Estudos internacionais: meta-análises publicadas em periódicos como Educational Psychology Review e orientações da própria OCDE já recomendavam limites ao uso de telas em idade escolar.
- Demanda de pais e professores: pesquisas de opinião realizadas por sindicatos docentes e associações de pais indicavam apoio crescente à restrição.
- Legislação em camadas: primeiro vieram os estados, depois os municípios, até que o Congresso Nacional aprovou a lei federal de 2025, sancionada sem vetos relevantes.
A nova legislação também cria um ambiente regulatório único para redes públicas e privadas, o que ajuda a explicar o salto nos números do Pisa — a avaliação considera todas as escolas, independentemente da mantenedora.
O que esperar daqui em diante
Com a regra federal em vigor, a expectativa é de que o índice brasileiro se mantenha próximo ou acima dos 81% no próximo ciclo do Pisa. Especialistas em política educacional ouvidos em fóruns como o Cúpula Global de Educação da OCDE apontam que o grande desafio agora é a fiscalização: garantir que a proibição saia do papel e vire prática cotidiana em sala de aula.
Para o estudante, o efeito prático mais imediato tende a ser a redução do tempo de tela durante o período letivo. Para as escolas, a obrigação de oferecer locais de guarda dos aparelhos — medida prevista na lei — exige investimento em armários, sinalização e reorganização da rotina de entrada e saída.
A próxima rodada do Pisa, prevista para 2028, deve medir não apenas o cumprimento da proibição, mas também o impacto sobre o desempenho e o bem-estar dos alunos.
Perguntas frequentes
O que é o Pisa e quem participa da avaliação?
O Pisa é um exame internacional aplicado pela OCDE a cada três anos. Ele avalia leitura, matemática e ciências em alunos de 15 anos. A edição de 2025 envolveu mais de 90 países e territórios, incluindo o Brasil.
Por que o Brasil proibiu celulares nas escolas?
A proibição federal foi sancionada pela Lei nº 15.100/2025 e veio após estados e municípios já terem adotado regras semelhantes. O objetivo declarado é reduzir distrações, melhorar o foco e combater o cyberbullying.
Estudantes podem usar o celular na escola em algum momento?
Sim. A lei permite o uso em situações pedagógicas orientadas por professores, em casos de necessidade de saúde ou deficiência, e em emergências. O uso recreativo em sala de aula e nos recreios está vetado.
Proibir celular melhora o aprendizado?
Os dados do Pisa 2025 indicam que alunos de escolas com proibição têm 13% menos probabilidade de relatar distrações. Pesquisas anteriores sugerem associação com melhor desempenho, mas o efeito varia conforme a forma de implementação.
Escolas particulares também precisam seguir a regra?
Sim. A Lei nº 15.100/2025 se aplica a todas as instituições de educação básica do país, públicas e privadas.
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