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Classe C: Lula perdeu o eleitor que ajudou a criar

Recuo de 18 pontos em dois anos expõe fragilidade da base que sustentou três vitórias do PT

Classe C: Lula perdeu o eleitor que ajudou a criar

O pesquisador que mapeou a classe C diz que Lula não soube se reconectar com o eleitorado que ajudou a criar

Mais de 100 milhões de brasileiros pertencem à chamada classe C, um contingente que representa a maioria absoluta do eleitorado brasileiro e cujo comportamento nas urnas vem redesenhando o cenário político nacional. A avaliação é de Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, pesquisador de referência no estudo desse segmento socioeconômico, que acaba de lançar o livro "O Brasil da maioria". Em entrevista ao portal Abril.com.br, Meirelles afirma que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não conseguiu estabelecer uma nova agenda de diálogo com a fatia da população que ele próprio ajudou a ascender entre 2003 e 2010, e que esse descolamento tende a pesar nas eleições estaduais deste ano e nas disputas nacionais que se desenharão nos próximos ciclos.

Quem é Renato Meirelles e o que propõe o livro "O Brasil da maioria"

Renato Meirelles comanda o Instituto Locomotiva, organização especializada em pesquisas sobre comportamento de consumo, opinião pública e dinâmica da classe média no Brasil. Ao longo de mais de duas décadas, o instituto se tornou uma das principais fontes de dados sobre a chamada "nova classe média", denominação que se popularizou nos anos 2000 para descrever a parcela da população que ascendeu socialmente nas décadas recentes.

No livro "O Brasil da maioria", o pesquisador se debruça sobre os últimos 25 anos de ascensão e, agora, de estagnação da classe C. O ponto central da obra, segundo Meirelles, é demonstrar que esse grupo não pode mais ser tratado como bloco monolítico nem pauta eleitoral única. A tese se apoia em dados demográficos, eleitorais e socioeconômicos para explicar por que a política brasileira tem dificuldade crescente de falar com a fatia mais numerosa do País.

O que é a classe C no Brasil e por que ela importa

A classe C, na classificação mais utilizada por economistas e institutos de pesquisa, abrange famílias com renda domiciliar mensal que vai de aproximadamente quatro a pouco mais de dez salários mínimos, dependendo da referência metodológica. Esse grupo reúne hoje mais de 100 milhões de pessoas, conforme o Instituto Locomotiva, o que o torna a maior fatia do eleitorado brasileiro.

Sua relevância política vem justamente de uma posição intermediária peculiar: acima dos que dependem fortemente de programas de transferência direta de renda, como o Bolsa Família, e abaixo dos mais ricos, que dispõem de capital próprio e recorrem pouco a serviços públicos. É nesse "meio" que se concentra a maior parte do consumo, da força de trabalho formal e, especialmente, da demanda por serviços públicos de qualidade.

Para os candidatos, ignorar essa camada tem custo eleitoral direto. "Na hora que essa fatia da população precisa que o Samu chegue no momento certo, o Estado falta. Quando ela vai abrir seu pequeno negócio, sobra o Estado com a burocracia", resume Meirelles.

Esse trecho sintetiza o dilema vivido por milhões de famílias: ao mesmo tempo em que demandam do poder público infraestrutura básica, também enxergam a máquina estatal como empecilho à ascensão econômica por meio do empreendedorismo.

Por que a classe C votou em Lula nos dois primeiros mandatos

Entre 2003 e 2010, primeiro e segundo governos Lula, a classe C se mobilizou em peso nas urnas a favor do petista. Três promessas de plataforma, pontuais e verificáveis no dia a dia, foram decisivas para esse apoio, segundo Meirelles: a expectativa de que os filhos chegassem à universidade, a conquista da casa própria e a expansão de pequenos negócios sustentada por aumento real do salário mínimo.

O resultado foi a consolidação de uma geração inteira que conheceu a mobilidade social como experiência concreta, não como promessa abstrata. Programas como o Universidade para Todos (ProUni), o Minha Casa, Minha Vida e a política de valorização do salário mínimo criaram as condições materiais para que milhões de brasileiros transpusessem a linha da pobreza e ingressassem na faixa de consumo mais dinâmica da economia.

O que mudou na classe C após 2010

Os dados mais recentes de mobilidade social, no entanto, indicam uma desaceleração. O ciclo virtuoso de ascensão perdeu fôlego a partir de 2014, com o fim do boom das commodities, a crise fiscal e o aprofundamento da recessão entre 2015 e 2016. A pandemia de Covid-19, em 2020, e a inflação acumulada nos anos seguintes reforçaram a sensação de estagnação ou retrocesso, especialmente entre famílias que estavam na fronteira entre a classe C e a classe D.

Meirelles destaca que, mesmo entre os que conseguiram permanecer na classe C, emergiu uma nova geração que não tem memória da pobreza vivida pelos pais. Essa geração, nascida ou criada já em famílias de classe C, não se enquadra nos critérios de programas sociais clássicos e, ao mesmo tempo, não acumulou patrimônio suficiente para se sentir em segurança econômica.

Lula e o descolamento da nova classe C

É exatamente sobre essa geração que recai a crítica mais direta de Meirelles. "Lula não aprendeu a lidar com a classe C que ele mesmo criou", afirma o pesquisador, em síntese que viralizou ao ser reproduzida no portal Abril.com.br.

A explicação para o descolamento é, segundo Meirelles, geracional e ideológica. Os jovens da nova classe C, diferente dos pais, não carregam a memória política do PT como o partido da ascensão pessoal. Muitos se identificam com ideias liberais na economia e se reconhecem como empreendedores, mesmo quando empreendem por necessidade, sem acesso a crédito, formalização ou proteção social.

Para esse grupo, o Estado aparece cada vez menos como motor de ascensão e cada vez mais como obstáculo. O excesso de burocracia, a morosidade da Justiça, a dificuldade de abrir e fechar empresas e a baixa qualidade de serviços públicos essenciais formam um quadro que se choca com a mentalidade de quem quer crescer, consumir e empreender.

O que os candidatos que vão ganhar a eleição deste ano têm em comum, segundo Meirelles

O presidente do Instituto Locomotiva defende que, principalmente nas disputas estaduais, sairão na frente os candidatos que conseguirem chamar a nova classe C para dentro do processo decisório, com pauta concreta e voltada para a vida real. A palavra-chave, em sua análise, é participação: abrir canais efetivos de diálogo em vez de oferecer promessas genéricas.

Esse diagnóstico dialoga com um eixo mais amplo do debate político: a descrença em relação a discursos ideológicos de alto nível e o aumento da exigência por entregas mensuráveis em saúde, educação, segurança e infraestrutura.

O peso das mulheres na definição do voto da classe C

Um dado demográfico que ganha peso desproporcional na análise eleitoral é o protagonismo feminino dentro da classe C. De acordo com Meirelles, as mulheres lideram 53% dos lares desse segmento, o que significa que a decisão sobre voto, saúde dos filhos, educação e uso do orçamento familiar passa, em primeiro lugar, por elas.

Na prática, esse protagonismo se traduz em uma relação direta com o Estado. "São elas que querem saber concretamente se vai ter vaga ou não na creche. São elas que utilizam serviços públicos. Quando o homem vai na UPA, vai levado pela mulher. É a mulher que fica na fila da matrícula na escola pública para os filhos", descreve o pesquisador.

Esse padrão ajuda a explicar, segundo Meirelles, a vantagem de Lula sobre nomes como o do senador Flávio Bolsonaro entre eleitoras femininas da classe C. Em pautas sensíveis a serviços públicos essenciais, principalmente saúde e educação, o histórico do ex-metalúrgico na implementação de programas sociais massivos e o recall como presidente durante a pandemia ainda funcionam como ativos relevantes.

O que está em jogo para a classe C nas próximas eleições

A análise de Meirelles coloca em evidência três frentes que tendem a definir a relação entre classe C e poder público nos próximos ciclos eleitorais:

  • Qualidade dos serviços públicos essenciais: saúde, educação e segurança são as bandeiras mais cobradas pela fatia da população que não tem plano de saúde, não paga escola particular e depende do atendimento público para tocar a vida.
  • Redução de burocracia para empreendedores: micro e pequenos negócios são a principal porta de entrada da classe C para a formalização e para a geração de renda. Qualquer reforma que simplifique a relação com o Estado tende a ter impacto eleitoral direto.
  • Comunicação direta e participação: a leitura de Meirelles, alinhada a pesquisas de opinião mais recentes, mostra que a classe C responde melhor a discursos práticos e a canais de escuta efetiva do que a plataformas ideológicas abstratas.

Quem conseguir articular essas três frentes com coerência, segundo o pesquisador, terá vantagem competitiva em um eleitorado que, sozinho, é capaz de decidir qualquer disputa majoritária no Brasil.

Perguntas frequentes

O que é a classe C no Brasil?

A classe C é a faixa intermediária da pirâmide socioeconômica brasileira, formada por famílias com renda mensal geralmente entre quatro e pouco mais de dez salários mínimos. Concentra mais de 100 milhões de pessoas e é a maior fatia do eleitorado do País.

Quem é Renato Meirelles?

Renato Meirelles é o presidente do Instituto Locomotiva, pesquisador e referência nacional em estudos sobre o comportamento da classe média brasileira. É autor do livro "O Brasil da maioria".

O que o Instituto Locomotiva faz?

O Instituto Locomotiva é uma organização dedicada a pesquisas sobre consumo, opinião pública e dinâmica da classe média no Brasil, com atuação em levantamentos próprios e em parceria com veículos de comunicação, universidades e empresas.

Por que a classe C estaria se afastando do PT?

Segundo Renato Meirelles, a nova geração da classe C não tem memória da ascensão dos pais e tende a enxergar o Estado como empecilho à sua mobilidade social, deslocando-se gradualmente para pautas liberais na economia e defesa do empreendedorismo.

Por que as mulheres da classe C são decisivas nas eleições?

Porque as mulheres lideram mais da metade dos lares da classe C, são as principais responsáveis pelo uso de serviços públicos e pelas decisões de saúde e educação da família, o que influencia diretamente o voto do segmento.

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Yuri Augusto
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Yuri Augusto

Yuri Augusto Jornalista e entusiasta de inovação digital, Yuri acompanha de perto as principais movimentações do mercado, economia e tecnologia. Com foco em traduzir informações complexas em análises acessíveis, é o responsável por trazer os conteúdos mais relevantes e em primeira mão para os leitores do GCBS News.

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