A Europa se prepara para mais um teste de coordenação geopolítica na próxima segunda-feira, quando líderes da Coligação das Vontades — o grupo informal de países europeus que sustenta militarmente a Ucrânia — se reúnem para discutir o futuro do apoio a Kiev em meio a um dos momentos mais delicados da guerra. A análise é do professor de Relações Internacionais da Universidade de Lisboa, Bernardo Valente, em entrevista ao programa Gabinete de Guerra, da Rádio Observador, e foi sintetizada pelo portal Observador.pt.
Do lado europeu, dois temas dominam a pauta: a discussão do 22º pacote de sanções contra a Rússia e a corrida para substituir a escassez de baterias antiaéreas que tem colocado Kiev em desvantagem. Do lado ucraniano, uma crise política interna envolvendo o ex-ministro da Defesa Fedorov ameaça enfraquecer o presidente Volodymyr Zelensky. Já Moscou, embora sob pressão econômica crescente, segue tentando manter sua máquina de guerra funcionando.
O que está em jogo na reunião da Coligação das Vontades?
A Coligação das Vontades é o agrupamento de países europeus — com participação ativa de França, Reino Unido, Alemanha, Polônia e países nórdicos, entre outros — que articula o apoio militar à Ucrânia fora do canal institucional da Otan. A reunião da próxima segunda-feira, segundo a análise do professor Bernardo Valente, terá duas frentes principais de discussão.
A primeira é o desenho de um novo pacote de sanções econômicas, o 22º desde o início da guerra. A segunda, mais urgente, é como resolver o gargalo de interceptores antiaéreos — peças que estão se tornando o "calcanhar de Aquiles" tanto de Kiev quanto de Moscou.
Por que os interceptores antiaéreos viraram o tema mais crítico?
Segundo a entrevista, a produção mundial de baterias antiaéreas gira em torno de duas unidades por dia, o equivalente a cerca de 700 por ano. Esse volume ínfimo precisa ser distribuído entre vários países e teatros de operação simultâneos, e o resultado é a escassez generalizada.
Os sistemas Patriot — equipados com os mísseis PAC-2 e PAC-3 — são considerados os mais eficientes do mercado contra mísseis balísticos. Mas foram massivamente redirecionados para defender as monarquias do Golfo Pérsico no conflito recente entre Estados Unidos e Irã. O professor destaca um dado relevante: em apenas seis meses de conflito EUA-Irã foram usados mais Patriots do que nos mais de quatro anos de guerra entre Ucrânia e Rússia.
Com os estoques esgotados, a Ucrânia passou a depender de sistemas europeus mais antigos, com baixa taxa de interceptação. Para Valente, esses modelos já estão "fora da equação".
O que é o Projeto Freya?
Para tentar contornar a dependência externa, alguns países da Coligação das Vontades estão apostando no Projeto Freya, uma iniciativa voltada a desenvolver baterias antiaéreas de produção europeia dentro do conceito de "autonomia estratégica e militar" do bloco. A ideia é criar capacidade real de defesa, e não apenas substituições residuais.
O 22º pacote de sanções: o que muda?
Os 21 pacotes anteriores já estão produzindo efeitos visíveis sobre a economia russa. Segundo a análise, a escassez de combustível na Rússia não se deve apenas aos ataques ucranianos a refinarias — também é resultado direto das sanções petrolíferas. Moscou passou a exportar combustível para depois recomprá-lo a preços mais altos, em um circuito que sangra o orçamento nacional e afeta especialmente regiões sensíveis como a Crimeia.
A novidade do 22º pacote será ampliar a pressão sobre o setor petrolífero e financeiro. Mas o histórico recente mostra que os obstáculos não vêm apenas da Hungria e da Eslováquia, usualmente apontadas como "cavalos de Troia" de Moscou na UE. Na rodada anterior, Alemanha, Grécia e até Portugal chegaram a bloquear trechos das medidas, especialmente em exportações de bens alimentícios.
Segundo o portal Observador.pt, o objetivo declarado das sanções europeias é criar tensões crescentes entre o Kremlin e a sociedade civil russa, apostando no desgaste interno de Vladimir Putin.
E as sanções secundárias contra o Irã?
Valente lembrou que as sanções secundárias norte-americanas contra o Irã — em razão do conflito no Golfo — também terão efeito cascata sobre o mercado petrolífero russo, uma vez que boa parte do tráfego energético passa pelo Estreito de Ormuz. A China, grande compradora de petróleo iraniano e russo, terá de buscar novos parceiros, o que enfraquece simultaneamente Moscou e Teerã.
A crise política interna que ameaça Zelensky
Enquanto a Europa discute sanções e interceptores, Kiev vive uma turbulência política paralela que pode minar a coesão do governo ucraniano justamente no pior momento da guerra.
Quem é Fedorov e por que ele incomoda Zelensky?
Fedorov, ex-ministro da Defesa e figura influente na Ucrânia por sua aposta em tecnologias militares e digitais durante a gestão à frente da pasta, protagonizou três movimentos críticos em uma única semana, conforme relatado pelo Observador.pt:
- Entrevista à CBS, em sinal claro de que busca diálogo direto com Washington, fora do circuito de Zelensky.
- Vídeo de tom agressivo em fundo preto, com trilha sonora de campanha, criticando a transição do governo e lançando um prazo para novas eleições — um tema delicado, já que qualquer disputa interna pode ser explorada pela Rússia.
- Possível viagem a Washington para se reunir com representantes diplomáticos norte-americanos, embora ainda sem confirmação oficial.
Por que Zelensky está enfraquecido?
Há pouco mais de um ano, o presidente Zelensky reconfigurou seu governo aproximando-o dos Estados Unidos, com Yulia Swiridenko como figura-chave. Agora, esse arranjo desmorona sob denúncias de corrupção, que provocaram a saída do próprio Fedorov do Ministério da Defesa. Um novo ministro, Yevhen Nikmara, foi nomeado esta semana — e o diretor de compras do Ministério da Defesa pediu demissão na sequência. Protestos de rua pedem o retorno de Fedorov.
O mais grave, segundo a análise: Zelensky criou uma armadilha para si mesmo. Sua incapacidade de consolidar uma relação firme com Washington abre espaço para que adversários internos ofereçam o que ele não conseguiu entregar — uma ponte direta com os Estados Unidos.
A Rússia sob pressão — mas ainda resistente
Do lado de Moscou, a situação econômica é crítica, mas o Kremlin mostra capacidade de adaptação. Entre os sinais de deterioração citados na entrevista:
- Armazéns da gigante do e-commerce Wildberries foram destruídos em ataques recentes.
- O governo reduziu a qualidade da gasolina e do diesel para mascarar a escassez.
- O crédito malparado cresce de forma acentuada nos bancos russos, segundo relatórios do setor financeiro.
- Ativistas russos denunciam alta de casos de alistamento forçado, embora o Kremlin consiga em grande medida silenciar essas vozes.
As eleições parlamentares russas e o caso Yabloko
Faltando cerca de dois meses para as eleições parlamentares na Rússia, o Kremlin moveu-se para eliminar a única voz declaradamente antiguerra do cenário: o partido Yabloko. Segundo a entrevista, Vladimir Putin conseguiu barrar a legenda das eleições alegando que ela usou uma canção de um artista russo sem pagar direitos autorais. Com isso, nenhum partido antiguerra estará nas urnas.
Qual o impacto para o Brasil?
A guerra na Ucrânia continua afetando o cotidiano do brasileiro mesmo a milhares de quilômetros do front. O conflito pressiona os preços globais de fertilizantes — a Rússia é um dos maiores exportadores mundiais, e Belarus, aliado estratégico, responde por boa parte da produção de potássio. Qualquer novo pacote de sanções pode ampliar a volatilidade no mercado agrícola.
Além disso, o realinhamento das rotas de petróleo — com a Rússia redirecionando vendas para a Ásia e o Irã vendo o Estreito de Ormuz sob nova tensão — altera a dinâmica da Opep+ e influencia o preço dos combustíveis nas bombas brasileiras, ainda impactadas pela política de preços da Petrobras.
Para o agronegócio e para a segurança energética nacional, o desfecho da próxima reunião da Coligação das Vontades e a evolução da crise política em Kiev merecem atenção direta.
Perguntas frequentes
O que é a Coligação das Vontades?
É um grupo informal de países europeus que articula apoio militar e diplomático à Ucrânia fora dos canais formais da Otan, reunindo nações como França, Reino Unido, Alemanha e países nórdicos.
O que são os mísseis Patriot e por que são tão importantes?
Os Patriots são sistemas antiaéreos norte-americanos equipados com mísseis PAC-2 e PAC-3, considerados os mais eficientes contra mísseis balísticos. São produzidos em ritmo limitado e disputados por vários países.
O que é o Projeto Freya?
É uma iniciativa de países da Coligação das Vontades para desenvolver baterias antiaéreas de produção europeia, com o objetivo de reduzir a dependência de tecnologia norte-americana.
Quem é Fedorov na política ucraniana?
Fedorov é o ex-ministro da Defesa da Ucrânia, figura influente por investir em tecnologia militar e digital. Segundo a análise do Observador.pt, ele disputa espaço político com Zelensky após ser removido do cargo em meio a denúncias de corrupção.
Por que o partido Yabloko foi barrado das eleições russas?
Segundo a entrevista, o Kremlin impediu a legenda — única abertamente antiguerra — de participar das eleições parlamentares alegando uso indevido de uma canção em campanha sem pagamento de direitos autorais.
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