O que diz a nova projeção do Fórum para a Competitividade sobre a economia portuguesa?
A economia de Portugal deve crescer acima de 2% em 2024, e somente um cenário muito adverso — com "muita coisa a correr mal" — tiraria o país dessa faixa, avalia o Fórum para a Competitividade. A conclusão está na nota de conjuntura de agosto divulgada pela associação, que reúne economistas e empresariais portugueses, e foi destacada nesta sexta-feira pelo portal Observador.pt.
Segundo o Fórum, com um crescimento próximo de 2,5% no primeiro semestre do ano, seria preciso uma deterioração acentuada do cenário macroeconômico — guerras, choque energético, crise financeira, freio brusco nas exportações — para que o PIB do conjunto do ano ficasse muito abaixo dos 2%. O cenário central, portanto, mantém a expectativa de expansão robusta.
Qual foi o desempenho da economia portuguesa no segundo trimestre?
No segundo trimestre de 2024, o Produto Interno Bruto (PIB) de Portugal cresceu 2,5% em relação ao mesmo período do ano anterior, conforme confirmou o Instituto Nacional de Estatística (INE). O número reforça a trajetória de recuperação sustentada da economia portuguesa após os impactos da pandemia de Covid-19 e da crise energética provocada pela guerra na Ucrânia.
O dado dá margem para que o governo português atinja — ou até supere — a meta de crescimento estimada para o ano. Para se ter uma ideia, o Produto Interno Bruto português vinha reagindo de forma gradual desde 2023, impulsionado por três vetores principais:
- Turismo: Portugal voltou a receber volumes recordes de turistas internacionais, com receitas acima dos níveis pré-pandemia.
- Exportações: O setor de bens e serviços, especialmente calçado, têxtil, vinho, máquinas e serviços tecnológicos, segue competitivo no mercado europeu.
- Investimento: A execução de fundos europeus do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) continuou a dinamizar obras públicas e investimento privado.
Por que a queda do desemprego preocupa os economistas?
O lado positivo do boletim é a queda da taxa de desemprego de 6,1% para 5,3% entre o primeiro e o segundo trimestre — o valor mais baixo desde o início da série histórica, em 2011. Houve aceleração simultânea da população ativa e do emprego, o que indica que mais pessoas estão conseguindo entrar ou reentrar no mercado de trabalho.
Apesar do número animador, o Fórum para a Competitividade aponta um "aspeto menos positivo" na análise: a baixa produtividade dos postos de trabalho criados. A explicação técnica é simples — quando o emprego cresce mais rápido do que o PIB, a produtividade média tende a cair, porque cada trabalhador está gerando proporcionalmente menos riqueza.
Em outras palavras, Portugal está a criar muitos empregos, mas muitos deles são de baixa qualificação e baixa remuneração, o que pode limitar a sustentabilidade do crescimento no médio prazo.
O emprego público em Portugal atingiu recorde?
Sim. O boletim divulgado pelo Fórum destaca que o emprego nas administrações públicas portuguesas chegou a 768 mil pessoas no segundo trimestre — um novo recorde da série histórica, com alta de 1% em termos homólogos. O crescimento foi puxado sobretudo pela administração local (câmaras municipais, juntas de freguesia e empresas municipais).
A associação considera o movimento preocupante num contexto de escassez de mão de obra. Portugal tem hoje uma das taxas de desemprego mais baixas da União Europeia, o que significa que há mais vagas do que candidatos em vários setores, sobretudo na construção civil, hotelaria, agricultura e tecnologia.
"Numa fase de escassez de mão de obra, compreende-se mal que o setor público esteja a competir desta forma com o setor privado", critica o Fórum. Na prática, salários e estabilidade oferecidos por câmaras e órgãos do Estado podem canidatos que poderiam atuar em empresas privadas, agravando gargalos produtivos em áreas estratégicas.
Quais são os riscos para o cenário de crescimento de 2%?
Mesmo com o cenário central positivo, o Fórum lista riscos que poderiam derrubar o crescimento abaixo de 2% em 2024:
- Aceleração da inflação na zona do euro: Pressionaria juros do Banco Central Europeu e encareceria o crédito.
- Estagnação dos principais parceiros comerciais: Alemanha e França, maiores compradores de produtos portugueses, já dão sinais de fraqueza.
- Cenário político interno: Instabilidade governativa poderia atrasar reformas e execução de fundos europeus.
- Choques externos: Escalada de conflitos geopolíticos, novas sanções ou crise energética.
Nenhum desses fatores é considerado iminente, o que sustenta a previsão otimista. Ainda assim, a entidade alerta que o crescimento baseado em empregos de baixa produtividade pode tornar a economia mais vulnerável a ciclos futuros.
Qual o impacto dessas notícias para o Brasil?
A boa fase da economia portuguesa interessa diretamente ao Brasil por três razões principais:
1. Comunidade brasileira em Portugal
Mais de 200 mil brasileiros vivem legalmente em Portugal, segundo estimativas consulares. Uma economia aquecida significa mais oportunidades de emprego formal, salários pressionados para cima e maior facilidade de integração no mercado de trabalho local. Setores como construção civil, hotelaria, restauração, saúde e tecnologia são os que mais absorvem imigrantes brasileiros.
2. Investimentos e empresas
Empresas brasileiras com operação em Portugal — e há várias nos setores bancário, energético, construção e varejo — se beneficiam da expansão do consumo interno e da estabilidade macroeconômica. Para investidores pessoa física, o cenário de crescimento mantém a atratividade de títulos portugueses e fundos imobiliários listados em Lisboa.
3. Exportações e turismo recíproco
O crescimento português abre espaço para aumento das exportações brasileiras, principalmente alimentos, café, frutas tropicais e manufaturados. Além disso, o turismo de brasileiros para Portugal segue em alta — e uma economia aquecida costuma gerar mais renda para viagens ao exterior.
Perguntas frequentes
Quem é o Fórum para a Competitividade?
É uma associação portuguesa sem fins lucrativos que reúne economistas, gestores e académicos para analisar a economia nacional e propor políticas de crescimento. Suas notas de conjuntura são frequentemente citadas pela imprensa e pelo governo de Portugal.
Portugal está oficialmente fora da recessão?
Sim. Após o impacto da pandemia em 2020, quando o PIB contraiu mais de 8%, Portugal registrou crescimento forte em 2021, 2022 e 2023. O primeiro semestre de 2024 mantém essa trajetória de expansão.
Por que o recorde de emprego público preocupa?
Porque ocorre justamente quando o país tem falta de mão de obra para o setor privado. O aumento de funcionários públicos reduz a oferta de trabalhadores disponíveis para empresas que geram bens e serviços exportáveis, comprometendo a produtividade e a competitividade no médio prazo.
O crescimento de 2,5% no segundo trimestre é o maior da Europa?
Portugal tem figurado entre os países com maior crescimento da zona do euro, mas Espanha, Irlanda e alguns países do leste europeu também registram taxas elevadas no período. A comparação direta exige considerar o tamanho e a estrutura de cada economia.
Como o Banco Central Europeu influencia esse cenário?
A política de juros do BCE afeta diretamente o custo do crédito em Portugal. Juros altos freiam investimentos e consumo; juros em queda tendem a estimular a atividade. A expectativa é de manutenção ou leve redução dos juros ao longo do segundo semestre de 2024.
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