A política e ativista italiana Emma Bonino morreu nesta sexta-feira, aos 78 anos, em Roma, em consequência de uma insuficiência respiratória que a mantinha hospitalizada desde dezembro. A confirmação foi feita pelo partido Più Europa — legenda centrista e europeísta que ela própria havia fundado em 2017 — e registrada pelo portal Observador.pt.
Ao longo de quase meio século de vida pública, Bonino se tornou uma das vozes mais marcantes da Itália contemporânea: foi a primeira mulher a se candidatar à Presidência da República Italiana, exerceu o cargo de comissária europeia e ocupou ministérios em diferentes governos, sempre mantendo uma agenda de direitos civis que atravessava blocos ideológicos.
Quem foi Emma Bonino?
Poucas mulheres italianas do século XX construíram uma trajetória política tão longa e tão identificada com pautas de direitos civis. Bonino entrou na vida pública em um país onde o aborto era crime e a presença feminina em parlamentos ainda era exceção.
Foi eleita deputada federal em 1976 pelo Partito Radicale, agremiação que, segundo o Observador.pt, integrava o campo de esquerda italiano. Naquela época, como registrou a fonte, "mulheres jovens no Parlamento italiano eram uma raridade".
Durante esse período inicial, ela se aproximou de Adele Faccio, ativista dos direitos das mulheres e figura proeminente do mesmo partido. A parceria ajudou a consolidar a campanha pela legalização do aborto, que se tornaria o tema mais emblemático da carreira de Bonino.
O que levou Emma Bonino a se tornar ativista pela legalização do aborto?
O episódio que definiu sua militância foi, ao mesmo tempo, pessoal e político. Diagnosticada como estéril, ela descobriu aos 27 anos que estava grávida — e, sem acesso legal ao aborto na Itália da época, recorreu à clandestinidade.
Em vez de silenciar o caso, decidiu torná-lo público em um gesto explícito de desobediência civil. Foi detida, ganhou espaço nos jornais e usou a visibilidade para pressionar pelo fim da proibição.
Em 1975, fundou o CISA — Centro de Informação, Esterilização e Aborto — uma organização que orientava mulheres sobre métodos contraceptivos e alternativas seguras. A entidade se tornou peça-chave da pressão que culminou, três anos depois, na aprovação da Lei 194, que regulamentou o aborto na Itália e descriminalizou o procedimento em determinados casos.
Da militância ao Executivo europeu
A combatividade de Bonino abriu portas que pareciam intransponíveis para uma mulher sem origem nas grandes máquinas partidárias italianas. Ao longo das décadas de 1980 e 1990, acumulou mandatos parlamentares e migrou para cargos executivos em âmbito internacional.
Conforme registro do Observador.pt, ela exerceu o cargo de comissária europeia responsável pela Política do Consumidor e Pescas entre 1995 e 1999, durante as gestões de Jacques Santer e Manuel Marín na Comissão Europeia. Nessa função, atuou em dossiers sensíveis como a crise da "vaca louca" e a regulação de organismos geneticamente modificados.
Mais tarde, assumiu a chefia da diplomacia italiana como ministra das Relações Exteriores em diferentes governos de centro-esquerda, ganhando protagonismo na gestão de crises internacionais.
Por que a candidatura de Bonino à Presidência italiana foi histórica?
Em 2013, Bonino entrou para a história ao se tornar a primeira mulher a se candidatar formalmente ao cargo de presidente da República Italiana, no processo que se seguiu à renúncia de Giorgio Napolitano. Embora não tenha sido eleita, a candidatura teve valor simbólico ao romper uma barreira de gênero que se mantinha desde 1948.
A tentativa refletiu uma característica marcante da sua trajetória: a capacidade de flutuar entre coalizões de esquerda e de centro sem se vincular a um único campo ideológico — qualidade que, segundo analistas italianos, também explica o relativo isolamento de Bonino na vida partidária.
As causas que ela nunca abandonou
Mesmo após deixar cargos executivos, Bonino continuou ativa em campanhas que atravessavam continentes. A fundação do Più Europa, em 2017, foi o último grande projeto político da sua vida — uma legenda explicitamente europeísta, criada para defender a integração continental em meio à ascensão de partidos nacionalistas.
Em comunicado divulgado após a morte, o Più Europa resumiu a agenda da fundadora em uma frase: "a sua vida foi uma longa luta contra tudo o que nega a liberdade". Entre as pautas listadas pela legenda estavam:
- O combate ao aborto clandestino e a defesa da saúde reprodutiva das mulheres;
- O enfrentamento da fome e de crises humanitárias;
- A luta contra a mutilação genital feminina;
- A crítica à justiça punitiva e ao uso desproporcional da prisão;
- A denúncia de genocídios e regimes autoritários em diferentes regiões do mundo;
- A defesa da integração política e institucional da União Europeia.
O que a trajetória dela significa para o debate brasileiro
A morte de Bonino acontece em um momento em que o Brasil também discute os rumos da sua legislação sobre aborto, com decisões recentes do Supremo Tribunal Federal reabrindo o debate sobre a descriminalização até a 12ª semana de gestação. A trajetória italiana é frequentemente citada como referência nesses debates: o país europeu passou da criminalização total, no início da década de 1970, para um sistema legal com prazos e exceções em menos de uma década — uma transição que teve em Bonino uma de suas principais artífices políticas.
Para além do tema do aborto, a biografia dela dialoga com pautas correntes no país — como a baixa representação feminina em parlamentos, o papel de mulheres pioneiras em espaços de poder e a relação entre militância de direitos humanos e política institucional.
Repercussão imediata
A morte de Bonino gerou reações em diferentes espectros da política europeia. O próprio Più Europa publicou nota classificando-a como "uma das protagonistas mais lúcidas, corajosas e livres da história política do nosso país e do mundo livre". Figuras da esquerda e da direita italianas reconheceram publicamente a relevância da trajetória dela, mesmo onde havia divergência em pautas específicas.
A sucessão interna do Più Europa e o legado político de Bonino tendem a entrar na agenda imediata da legenda nos próximos dias.
Perguntas frequentes
O que defendia Emma Bonino?
Emma Bonino defendia um conjunto amplo de pautas ligadas a direitos civis, com destaque para a legalização do aborto, o combate à mutilação genital feminina, a luta contra a fome e contra genocídios, a reforma da justiça criminal e a integração europeia.
Quem foi a primeira mulher a se candidatar à Presidência da Itália?
Emma Bonino, em 2013, foi a primeira mulher a se candidatar formalmente ao cargo de presidente da República Italiana — posição ocupada historicamente apenas por homens desde 1948.
Qual foi a contribuição de Bonino para a legalização do aborto na Itália?
Bonino fundou em 1975 o CISA, organização que orientava mulheres sobre saúde reprodutiva, e usou a visibilidade do próprio aborto clandestino para pressionar pela descriminalização. Sua militância ajudou a pavimentar a aprovação da Lei 194, de 1978.
Bonino ocupou cargos internacionais?
Sim. Foi comissária europeia para a Política do Consumidor e Pescas entre 1995 e 1999 e ministra das Relações Exteriores da Itália em diferentes governos de centro-esquerda, conduzindo a política externa em crises internacionais.
O que é o Più Europa?
O Più Europa é um partido político italiano de centro e viés europeísta fundado por Bonino em 2017 para defender maior integração da União Europeia e pautas liberais no espectro político italiano.
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