Fundo Zaftra trava em disputa entre gestoras e vai à CVM

Cotistas estão sem acesso ao dinheiro há meses e cobram explicações sobre o bloqueio.

Fundo Zaftra trava em disputa entre gestoras e vai à CVM

Disputa entre gestoras trava fundo que aposta em eleições brasileiras e vai parar na CVM

Uma queda de braço entre gestoras de recursos colocou em xeque o único fundo de investimento do Brasil dedicado a operar resultados de eleições. Cotistas de quatro fundos criados pela Gauss Capital — que desde o ano passado estavam sob gestão da ASA, de Alberto Safra — aprovaram, em assembleias realizadas no dia 8 deste mês, a transferência da gestão de dois deles para a B.Side Wealth Management. A votação de um terceiro fundo, porém, terminou em impasse e foi encaminhada à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), deixando o Zaftra em uma situação operacionalmente delicada às vésperas da montagem de suas posições para o pleito.

Segundo o portal InfoMoney, que revelou o caso, o imbróglio ocorre em um momento decisivo para o fundo, que corre o risco de não conseguir operar a próxima eleição brasileira. A preocupação foi manifestada por um executivo que acompanhou o processo e pediu para não ser identificado. Ele lembrou, ainda, que a ASA está registrando na CVM um fundo com propósito semelhante, o ASA Election, também voltado para explorar oportunidades em torno do calendário eleitoral.

O que é o Zaftra e por que ele é único no país

O Zaftra é descrito no mercado como o único fundo em funcionamento no Brasil estruturado especificamente para operar o calendário eleitoral brasileiro. Na prática, fundos desse tipo montam estratégias — compradas ou vendidas — em ativos que reagem ao resultado das urnas, como câmbio, juros futuros, ações de setores sensíveis ao governo e derivativos atrelados a índices.

Esse tipo de estratégia é mais conhecido no exterior, especialmente nos Estados Unidos, onde plataformas de previsão de mercado e fundos especializados existem há décadas. No Brasil, a oferta de produtos regulados voltados exclusivamente a esse tema é restrita, o que torna o Zaftra uma referência singular no segmento e amplia o impacto de qualquer turbulência em sua gestão.

Como funciona a estrutura em dois fundos

Para entender o impasse, é preciso acompanhar a engenharia do produto. O Zaftra é dividido em duas camadas:

  • Zaftra CIC: é o fundo de cotas que recebe o dinheiro dos investidores e funciona como "feeder" — ou seja, aplica os recursos em outro fundo da mesma estrutura.
  • Zaftra Multimercado: é o fundo operacional, onde efetivamente se monta a estratégia. O Zaftra CIC detém 62,65% das cotas desse fundo.

Os 37,35% restantes do Zaftra Multimercado pertencem a outros cotistas. Esse desenho é comum no mercado brasileiro e foi justamente o detalhe que travou a votação.

O que aconteceu nas assembleias do dia 8

De acordo com as atas divulgadas pela administradora das carteiras, a S3 Caceis, quatro fundos foram votados no mesmo dia, com os seguintes resultados:

  • Gauss Multimercado: transferência aprovada com 79,84% dos votos.
  • Zaftra CIC: transferência aprovada com 70,96% dos votos.
  • Gauss CIC: mudança rejeitada por pouco — 49,55% dos votos, sem atingir os 50% exigidos para aprovação.
  • Zaftra Multimercado: votação inconclusa, levada à CVM.

A movimentação no Zaftra CIC foi estratégica: na assembleia da manhã, os cotistas orientaram a ASA, enquanto gestora representante do fundo, a votar pela transferência do Zaftra Multimercado na assembleia da tarde. A expectativa era de que o voto do Zaftra CIC — 62,65% — levasse a aprovação. A ASA, no entanto, não compareceu à sessão da tarde.

Sem os votos do Zaftra CIC, os demais representantes, que somam 37,35% das cotas do Zaftra Multimercado, votaram pela transferência, mas o percentual ficou aquém do necessário. A S3 Caceis optou por não proclamar o resultado e submeteu a questão ao regulador.

Por que o timing preocupa o mercado

O calendário eleitoral brasileiro impõe janelas curtas para a montagem e o ajuste de posições. A expectativa é de que os gestores precisem estar com a estratégia definida até o fim deste mês para capturar de forma eficiente os movimentos do mercado financeiro decorrentes da corrida eleitoral.

Foi justamente isso que o executivo ouvido pelo InfoMoney quis destacar ao classificar a situação como "extremamente complicada". Quanto mais tempo o fundo permanecer sem conseguir definir sua governança, menor a janela operacional para se posicionar — e maior a chance de o fundo chegar ao dia da eleição sem exposição consistente, anulando parte da proposta de valor do produto.

Quais caminhos a partir de agora

Com o impasse, a transferência da gestão do Zaftra Multimercado para a B.Side Wealth Management depende de duas vias possíveis:

  1. Decisão da CVM: o regulador avalia o caso e determina os passos a seguir, o que pode incluir a validação da votação ou a convocação de um novo processo.
  2. Nova assembleia do Zaftra Multimercado: se houver nova votação, a B.Side votará diretamente como gestora do Zaftra CIC, somando 62,65% dos votos — o que, em tese, viabilizaria a aprovação. Esse caminho, porém, pode levar semanas, justamente o recurso que o calendário eleitoral não oferece.

A B.Side Wealth Management, portanto, já controla, na prática, três das quatro votações (Gauss Multimercado, Zaftra CIC e Gauss CIC, este último por margem apertadíssima). O nó restante é a operacionalização do fundo mais estratégico do grupo.

O que está em jogo para os investidores

Para os cotistas atuais, o cenário envolve três tipos de risco no curto prazo:

  • Risco operacional: o fundo pode não conseguir montar posições a tempo, reduzindo a chance de entregar a tese original.
  • Risco de governança: a indefinição sobre quem efetivamente gere o fundo pode gerar decisões apressadas ou custosas para equalizar interesses.
  • Risco de concentração: como o Zaftra é praticamente o único produto do tipo no mercado brasileiro, quem quer manter exposição a essa estratégia tem pouca alternativa para migrar.

Para o mercado em geral, o caso serve como teste sobre como o regulador brasileiro trata situações em que a transição de gestão coincide com janelas estratégicas estreitas, um tema que pode se repetir à medida que fundos temáticos ganhem relevância.

O peso do ASA Election e a nova frente da ASA

Paralelamente ao impasse, a ASA já protocolou na CVM o ASA Election, fundo com proposta semelhante à do Zaftra. Caso a gestora consiga lançar o produto a tempo, parte da "captura" de investidores frustrados com o imbróglio pode migrar automaticamente para a nova casa, ainda que sob gestão e filosofia distintas.

A movimentação sugere que a ASA se prepara para assumir protagonismo no nicho de fundos eleitorais independentemente do desfecho do Zaftra. Do lado da B.Side, manter o fundo sob gestão é importante para preservar a tese original e a base de cotistas conquistada nos últimos meses.

Por que fundos de eleição ainda são raros no Brasil

O modelo de fundo voltado a eventos políticos enfrenta no mercado brasileiro uma combinação de entraves regulatórios, complexidade de modelagem e dificuldade de comunicação com o investidor. Fundos multimercado tradicionais podem eventualmente montar posições eleitorais, mas poucos se propõem a fazer disso o eixo central da estratégia.

Quando surgem, tendem a atrair atenção justamente pela escassez. É o que torna o Zaftra um caso sensível: o produto carrega uma proposta de nicho e, ao mesmo tempo, virou pivô de uma disputa societária que extrapola o campo financeiro.

Perguntas frequentes

O que é o fundo Zaftra?

É um fundo multimercado brasileiro estruturado especificamente para operar oportunidades em torno do calendário eleitoral. Segundo a reportagem do InfoMoney, é o único do tipo em funcionamento no país.

Por que a votação do Zaftra foi para a CVM?

Porque a gestora ASA, que detém indiretamente 62,65% do Zaftra Multimercado via Zaftra CIC, não compareceu à assembleia da tarde. Sem esses votos, a transferência de gestão para a B.Side não atingiu o quórum necessário, e a administradora S3 Caceis encaminhou o caso ao regulador.

Quem é a B.Side Wealth Management?

É a gestora para a qual os cotistas aprovaram a transferência dos fundos Gauss Multimercado e Zaftra CIC. Também deve assumir a gestão do Gauss CIC em uma nova rodada e do Zaftra Multimercado, caso a CVM valide o processo ou uma nova assembleia seja realizada.

O fundo Zaftra pode deixar de operar a próxima eleição?

Existe esse risco, segundo avaliação de executivos do mercado ouvidos pela reportagem. A indefinição sobre a gestão ocorre justamente no período em que as estratégias eleitorais precisam ser montadas, e a eventual demora em uma decisão pode esvaziar a janela operacional do fundo.

O que é o ASA Election?

É um fundo que está sendo estruturado pela ASA, com registro já protocolado na CVM, segundo as informações divulgadas pelo InfoMoney. O produto terá finalidade semelhante à do Zaftra, voltado a operar mercados em períodos de eleição.

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Yuri Augusto
Escrito por
Yuri Augusto

Yuri Augusto Jornalista e entusiasta de inovação digital, Yuri acompanha de perto as principais movimentações do mercado, economia e tecnologia. Com foco em traduzir informações complexas em análises acessíveis, é o responsável por trazer os conteúdos mais relevantes e em primeira mão para os leitores do GCBS News.

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