Economia

Recuperações judiciais no Brasil batem recorde em 2025

Cenário econômico adverso e endividamento crescente explicam o salto; varejo e indústria lideram ranking de solicitações.

Recuperações judiciais no Brasil batem recorde em 2025

O que está por trás da onda de empresas quebradas no Brasil em 2025

O Brasil vive em 2025 o maior surto de recuperações judiciais e falências da sua história, um cenário que ameaça atravessar fronteiras setoriais e arrastar consigo cadeias inteiras de fornecedores e empregos. Por trás dos números recordistas está uma combinação explosiva entre endividamento barato acumulado na era de juros baixos e a chamada "farra fiscal" do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que despejou bilhões em estímulos de consumo e forçou a economia a crescer acima do seu potencial.

Segundo reportagem do portal Abril.com.br, o resultado prático é uma Selic (taxa básica de juros da economia) mantida em patamar estratosférico, contratos corporativos que ficaram muito mais caros da noite para o dia e um volume inédito de companhias incapazes de honrar compromissos.

Por que a economia brasileira "esquentou" demais a partir de 2023

Quando Lula retornou ao Palácio do Planalto em janeiro de 2023, o Produto Interno Bruto (PIB) potencial do país — a taxa máxima que o Brasil consegue crescer sem gerar inflação — era estimado em torno de 2% ao ano. A realidade, porém, foi outra: impulsionado por programas como a isenção do Imposto de Renda, o Gás do Povo e o Crédito do Trabalhador, o PIB avançou 3,1% em 2023 e 3,4% em 2024.

"Houve um impulso fiscal gigante. O problema é que ele veio em um mau momento", afirmou Roberto Padovani, economista-chefe do banco BV, à publicação. Para especialistas ouvidos pela reportagem, esse descompasso entre o ritmo da atividade e a capacidade real da economia é o combustível que mantém a inflação pressionada e o Banco Central (BC) de mãos atadas.

Os números da inadimplência que assustam o mercado

O retrato da deterioração pode ser conferido nos dados do bureau de crédito Serasa Experian:

  • 84 milhões de brasileiros inadimplentes — número histórico;
  • 9,2 milhões de negócios com dívidas em atraso;
  • Quase R$ 240 bilhões em dívidas corporativas atrasadas;
  • Mais de 6.300 empresas em recuperação judicial ou extrajudicial — o maior volume já registrado.

A lista de companhias que entraram com pedido de proteção contra falência em 2025 inclui nomes pesados do capitalismo nacional: as varejistas Casas Bahia, Marabraz e Grupo Pão de Açúcar, a petroquímica Braskem e a Raízen, líder em etanol e dona dos postos Shell no país.

E as pequenas e médias empresas? O estrago é ainda maior

A crise não se limita aos grandes grupos. De acordo com a consultoria RGF Associados, 2.400 micro e pequenas empresas e mais de 3.100 companhias de médio porte também estão em recuperação judicial. Para empresas dessa faixa, frequentemente sem acesso a capital próprio ou a linhas bancárias diferenciadas, o cenário é ainda mais dramático — em muitos casos, a própria proteção legal não consegue evitar a liquidação.

Só entre janeiro e abril de 2025, foram decretadas 292 falências no país, o maior número para o período desde o início da série histórica da Serasa, em 2012. "Atuo com reestruturação de empresas há quarenta anos. Este é o pior período que já testemunhei", resumiu André Pimentel, sócio da consultoria Performa Partners.

Como o juro barato da pandemia virou armadilha

Para entender a atual quebradeira, é preciso voltar ao teto de gastos instituído em 2017, na gestão de Henrique Meirelles à frente da Fazenda de Michel Temer. A regra fiscal ajudou a derrubar a Selic de 13% em janeiro de 2017 para 6,5% em março de 2018, onde se manteve até meados de 2019.

A pandemia acelerou o movimento. Para reaquecer a economia, o Comitê de Política Monetária (Copom) levou a Selic ao piso histórico de 2% ao ano, onde ficou do fim de 2020 até março de 2021. Com dinheiro farto e barato, empresas correram para tomar crédito: a concessão de empréstimos para pessoas jurídicas saltou de R$ 1,3 trilhão em 2017 para R$ 2 trilhões em 2020.

Grande parte desses contratos era do tipo pós-fixado, isto é, amarrado à taxa básica futura mais um prêmio de risco. Naquele cenário, um empresário podia pagar uma taxa total de 5% ao ano e ainda assim comemorar. "Mesmo contratos que embutiam grandes prêmios atraíam interessados", lembrou Fábio Flores, sócio da TCP Partners.

Quando a curva de juros virou, veio a armadilha

O ponto de virada começou com a reabertura da economia pós-pandemia, quando a demanda reprimida se chocou com cadeias produtivas desarranjadas. A inflação subiu, o Copom começou a subir a Selic e, em janeiro de 2023, quando Lula iniciou seu terceiro mandato, a taxa básica já havia voltado para 13,75% ao ano.

O governo respondeu atacando o então presidente do BC, Roberto Campos Neto, indicado por Jair Bolsonaro, acusando-o de agir contra o Palácio do Planalto. A troca de comando do BC, com a posse de Gabriel Galípolo em janeiro de 2025, desmontou a narrativa: indicado por Lula, Galípolo levou a Selic ao pico de 15% em 2025 — o maior nível desde 2006.

Em setembro, o Copom iniciou um ciclo tímido de cortes e reduziu a taxa em 0,25 ponto percentual, para 13,75%, mas o comunicado veio acompanhado de alertas sobre "estímulos à demanda agregada, em particular ao componente de consumo, que tenham como resultado o crescimento da atividade econômica acima do produto potencial". Em outras palavras: o BC entende que, se o gasto público continuar pressionando, o aperto monetário terá de ser mantido por mais tempo.

Qual o impacto real nas contas das empresas?

Para entender por que empresas sólidas estão afundando, basta colocar no papel o efeito da alta de juros sobre contratos pós-fixados. Um empréstimo contratado a 2% de Selic, com prêmio de risco, podia custar cerca de 5% ao ano. Com a Selic em 15% e prêmios de risco cada vez maiores, o custo total do crédito corporativo saltou para uma faixa de 18% a 30% ao ano, dependendo da modalidade.

"Quando o juro estava em 2%, uma empresa com 14% de margem era bem saudável. Agora, não tem margem de lucro que sustente um custo assim", comparou Flores, da TCP Partners. Tradução prática: o caixa que antes sobrava para pagar fornecedores, salários e investimentos agora é consumido pelo serviço da dívida, mesmo em companhias que continuam faturando.

Para José Alfaix, economista da gestora Rio Bravo, o problema central é a insistência do Executivo em manter estímulos. "O governo deveria respeitar a desaceleração da economia inerente a um ciclo de aperto monetário, mas ele optou por resistir e criar novos estímulos", afirmou.

O que esperar dos próximos meses

A trajetória da Selic nas próximas reuniões do Copom depende diretamente do comportamento fiscal. Caso o governo persevere nos estímulos de demanda, o BC tende a segurar os cortes — o que prolonga o sufocamento das empresas endividadas. Movimentos contrários, como anúncios de contenção de gastos primários, poderiam abrir espaço para uma desaceleração mais rápida da taxa básica e, na esteira, do custo do crédito corporativo.

Enquanto esse equilíbrio não chega, o sinal que o mercado recebe é claro: o volume de recuperações judiciais deve continuar batendo recordes em 2025, com efeito direto sobre o emprego, sobre a oferta de crédito e sobre a confiança do consumidor.

Perguntas frequentes

Quantas empresas estão em recuperação judicial no Brasil em 2025?
Mais de 6.300, segundo a Serasa Experian — o maior volume da série histórica. O número inclui grandes varejistas, petroquímicas e companhias do agronegócio, além de milhares de micro, pequenas e médias empresas.

Qual a relação entre a política fiscal e a alta de juros?
Quando o governo gasta mais do que arrecada e injeta estímulos na economia, a demanda cresce acima da capacidade produtiva, gerando inflação. Para conter a alta de preços, o Banco Central eleva a taxa Selic, o que encarece o crédito e pressiona o caixa das empresas endividadas.

Por que contratos pós-fixados se tornaram um problema agora?
Eles são indexados à Selic vigente. Quando a taxa saiu de 2% para 15% ao ano, o custo mensal dessas dívidas disparou, consumindo o caixa das empresas em ritmo muito superior ao previsto quando os contratos foram assinados.

Quais setores são os mais afetados pela quebradeira?
Varejo, indústria de bens duráveis, petroquímica, agronegócio e comércio atacadista aparecem entre os mais atingidos. Fornecedores dessas cadeias também sentem o impacto, em um efeito cascata que ameaça chegar a pequenas empresas e ao mercado de trabalho.

O que pode mudar esse cenário?
Uma combinação de ajuste fiscal crível por parte do governo, corte mais agressivo da Selic pelo BC e renegociação de dívidas em escala. Sem um sinal claro nessa direção, consultorias e escritórios de reestruturação projetam que o número de falências deve seguir em alta nos próximos trimestres.

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Yuri Augusto
Escrito por
Yuri Augusto

Yuri Augusto Jornalista e entusiasta de inovação digital, Yuri acompanha de perto as principais movimentações do mercado, economia e tecnologia. Com foco em traduzir informações complexas em análises acessíveis, é o responsável por trazer os conteúdos mais relevantes e em primeira mão para os leitores do GCBS News.

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