Economia

Ibovespa entre turnos: alta em 4 de 5 ciclos, mas volátil

Retorno médio histórico atrai atenção, porém especialistas recomendam cautela neste cenário

Ibovespa entre turnos: alta em 4 de 5 ciclos, mas volátil

Nos últimos cinco ciclos presidenciais no Brasil, o Ibovespa terminou o período entre o primeiro e o segundo turno no campo positivo em quatro ocasiões — um desempenho aparentemente estável. Mas, por trás do saldo acumulado, as duas semanas que separam as votações concentram alguns dos movimentos mais bruscos do calendário eleitoral. Em 2014, foram registrados seis pregões com variações superiores a 3% em apenas 14 dias úteis; em 2022, uma única sessão derrubou o índice em 4,4%. Os dados fazem parte de um levantamento conduzido por André Moraes, fundador e CEO da Trade ao Vivo e chairman da BFR Investimentos, e divulgado pelo portal InfoMoney.

O que o histórico dos últimos cinco ciclos eleitorais revela?

O estudo analisou o comportamento do principal índice da B3 entre o primeiro e o segundo turno das eleições de 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022. A leitura agregada sugere tranquilidade: em quatro dos cinco períodos, o Ibovespa fechou em alta. O detalhe, porém, está dentro do intervalo — e é onde mora o risco que o investidor precisa dimensionar.

Em vez de uma trajetória linear, o gráfico do índice costuma apresentar picos de volatilidade concentrados em sessões específicas. Segundo o portal InfoMoney, foi exatamente o que aconteceu em 2014, quando a disputa polarizada levou o mercado a absorver notícias em ritmo acelerado. Em 2022, mesmo com o índice fechando o período no positivo, uma sessão isolada de queda de 4,4% expôs a fragilidade do "otimismo de fim de turno".

Por que 2014 foi o ciclo mais turbulento entre os turnos?

O intervalo entre o primeiro e o segundo turno da disputa entre Dilma Rousseff e Aécio Neves é considerado o caso mais emblemático da série. Em cerca de duas semanas úteis de negociação, seis pregões registraram variações superiores a 3% — para cima ou para baixo.

Três fatores ajudam a explicar por que aquele ciclo foi tão ruidoso:

  • Polarização elevada: a campanha de 2014 ocorreu em meio a denúncias de corrupção envolvendo a Petrobras, com desdobramentos diretos sobre ações de estatais e expectativa de mudança na governança econômica.
  • Incerteza sobre políticas setoriais: setores regulados — como energia e bancos — costumam reagir de forma mais intensa quando o cenário político pode alterar regras do jogo.
  • Volume financeiro concentrado: entre os turnos, a liquidez migra para operações de curtíssimo prazo, ampliando o efeito de cada notícia sobre os preços.

Resultado: o investidor que avaliou o ciclo apenas pelo fechamento viu uma "eleição tranquila". Quem operou no intradiário teve pela frente um dos períodos mais imprevisíveis da história recente do índice.

Como o Ibovespa se comportou nos demais ciclos?

Embora o estudo destacado pelo portal InfoMoney detalhe com mais profundidade os episódios de 2014 e 2022, a série completa permite algumas observações relevantes:

  • 2006: cenário de continuidade política, com baixa volatilidade entre os turnos.
  • 2010: transição de governo (Lula → Dilma) avaliada com cautela pelos investidores, mas sem rupturas bruscas.
  • 2014: o ciclo mais instável da série, com seis sessões de oscilação acima de 3%.
  • 2018: alta volatilidade no acumulado, mas menos episódios de estresse concentrado entre os turnos.
  • 2022: fechamento positivo, porém marcado por um pregão de queda de 4,4%, suficiente para zerar boa parte da alta acumulada no intervalo.

O que explica a volatilidade no intervalo entre os turnos?

A dinâmica entre o primeiro e o segundo turno tem características próprias que a diferenciam de outras fases do calendário eleitoral:

1. Pesquisas viram gatilho de movimento

Após o primeiro turno, o conjunto de pesquisas eleitorais muda de cenário: os institutos passam a simular o duelo direto entre os dois candidatos mais votados. Divergências entre levantamentos costumam gerar repiques agudos no mercado.

2. Notícias concentradas em janela curta

Eventos políticos, fiscais e internacionais — incluindo decisões de bancos centrais estrangeiros — acontecem dentro do mesmo intervalo apertado, criando um ambiente propício a "tempestades perfeitas".

3. Aumento da participação de pessoas físicas

Eleições presidenciais costumam atrair novos investidores para a renda variável, tanto pela busca de oportunidades de curto prazo quanto pela necessidade de proteger patrimônio da moeda local. O aumento do fluxo costuma ampliar oscilações.

4. Efeito das estatais

Empresários e analistas monitoram de perto expectativas de mudanças regulatórias em setores como petróleo, energia elétrica e bancos. Ações de empresas estatais, com peso relevante na composição do Ibovespa, costumam funcionar como termômetro do humor do mercado.

Qual é o impacto concreto para o investidor brasileiro?

Do ponto de vista prático, o levantamento traz três lições aplicáveis a quem opera ou investe na bolsa:

  • Saldo agregado pode enganar: analisar apenas a variação acumulada entre os turnos mascara os picos de estresse. Métricas como volatilidade intradiária e amplitude das sessões oferecem leitura mais fiel do período.
  • Janela entre turnos exige gestão de risco reforçada: stop loss, dimensionamento de posição e cuidado com alavancagem deixam de ser opcionais e passam a ser obrigatórios.
  • Horizonte de investimento importa mais do que o calendário eleitoral: investidores de longo prazo tendem a ser menos afetados pela volatilidade pontual; o desafio real é evitar reações emocionais diante de pregões atípicos.

A discussão também dialoga com práticas de day trade em períodos eleitorais, quando a volatilidade tende a ser maior — e, junto com ela, o risco. Decisões tomadas no calor de uma sessão de queda de 4,4%, como a registrada em 2022, costumam custar caro a quem não tem estratégia previamente estabelecida.

O que observar no próximo ciclo eleitoral?

Embora o estudo não projete cenários futuros, o padrão identificado permite antecipar pontos de atenção para o investidor:

  1. Acompanhar a distância entre os candidatos nas pesquisas após o primeiro turno — quanto menor a diferença, maior tende a ser a volatilidade.
  2. Monitorar a comunicação dos candidatos sobre temas sensíveis ao mercado: política fiscal, tributária, regulação de estatais e ambiente de negócios.
  3. Observar o calendário econômico internacional dentro da janela: decisões de juros nos Estados Unidos, dados de inflação e tensões geopolíticas podem amplificar os movimentos locais.
  4. Evitar decisões de portfólio baseadas exclusivamente em um único pregão — a experiência de 2022 mostra que um dia atípico pode coexistir com fechamento positivo no acumulado.

Para André Moraes, autor do levantamento, o recado central é que o investidor não deve confundir "fechamento positivo" com "período estável". A volatilidade entre os turnos tende a se concentrar em poucas sessões, e é justamente nessas sessões que estratégias de proteção de capital fazem diferença.

Perguntas frequentes

O Ibovespa sempre sobe entre os turnos das eleições no Brasil?

Não. Nos últimos cinco pleitos presidenciais, o índice fechou em alta em quatro deles. Em 2022, por exemplo, o saldo positivo ocorreu apesar de uma sessão isolada de queda de 4,4% — mostrando que o resultado agregado pode ser bem diferente do caminho percorrido.

Qual foi a eleição com maior volatilidade entre os turnos?

Segundo o levantamento do analista André Moraes, o ciclo de 2014 é o mais turbulento da série, com seis pregões registrando variações superiores a 3% em aproximadamente 14 dias úteis entre o primeiro e o segundo turno.

Por que a bolsa brasileira reage tanto em períodos eleitorais?

A reação está ligada à incerteza sobre políticas futuras — fiscais, regulatórias e setoriais. Decisões que dependem do governo, como regras para estatais, tributos e gastos públicos, podem mudar com a troca de gestão, e o mercado precifica essas possibilidades em tempo real.

Vale a pena fazer day trade na bolsa entre os turnos?

A estratégia pode oferecer oportunidades, mas o risco é elevado. A volatilidade elevada exige disciplina, gestão de posição e proteção contra movimentos adversos — quem não tem experiência consolidada tende a ser mais prejudicado do que beneficiado.

Investidores de longo prazo devem se preocupar com o período entre os turnos?

Em geral, não. Picos de volatilidade pontuais costumam ter efeito limitado em carteiras com horizonte dilatado. O cuidado maior é não tomar decisões emocionais baseadas em um único pregão atípico.

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Yuri Augusto
Escrito por
Yuri Augusto

Yuri Augusto Jornalista e entusiasta de inovação digital, Yuri acompanha de perto as principais movimentações do mercado, economia e tecnologia. Com foco em traduzir informações complexas em análises acessíveis, é o responsável por trazer os conteúdos mais relevantes e em primeira mão para os leitores do GCBS News.

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