Produtores de "Dark Horse" projetavam receita quase três vezes maior que a maior bilheteria do cinema brasileiro
A produção do filme Dark Horse, longa biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, estimava arrecadações que poderiam chegar a quase três vezes o recorde histórico de bilheteria do cinema nacional. Os números constam em documentos apreendidos pela Polícia Federal e obtidos pelo portal InfoMoney, aos quais o GCBS NEWS também teve acesso por meio de apuração própria.
No cenário mais pessimista previsto pelos idealizadores da obra, a arrecadação estimada era de US$ 45 milhões — cerca de R$ 230 milhões na cotação atual do dólar. No cenário mais otimista, a projeção saltava para R$ 358 milhões, valor praticamente três vezes superior aos R$ 120 milhões alcançados por Minha Mãe é Uma Peça 3 (2019), que segue como o maior sucesso de público do cinema brasileiro, estrelado pelo saudoso humorista Paulo Gustavo.
Quem estava por trás do investimento
O aporte financeiro veio de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, instituição financeira que se tornou alvo de operações da Polícia Federal e do Banco Central nos últimos anos. Vorcaro acordou uma aplicação total de US$ 24 milhões no projeto, mas os registros colhidos pela PF indicam que os repasses efetivos somaram US$ 12,3 milhões, equivalentes a aproximadamente R$ 64 milhões.
O dinheiro foi transferido por meio da Entre Investimentos, uma das empresas do ex-banqueiro, para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado nos Estados Unidos e controlado pelo advogado Paulo Calixto, que atua como representante legal de Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente.
Como o retorno estava previsto
Os documentos analisados pela reportagem mostram que, mesmo nos cenários mais conservadores, a operação renderia um retorno de 20% sobre o capital investido. Essa seria a taxa pela qual Vorcaro seria remunerado caso o filme atingisse as metas traçadas no plano de negócios elaborado pelos produtores.
Em valores absolutos, isso significa que, sobre os R$ 64 milhões efetivamente aportados, o investidor receberia algo em torno de R$ 12,8 milhões apenas de remuneração fixa, antes de qualquer participação em lucros ou royalties da obra. Os números, no entanto, dependiam da confirmação das bilheterias projetadas, o que até o momento não ocorreu: Dark Horse não chegou a ser lançado nos cinemas com a operação financeira em vigor.
O tamanho da aposta em perspectiva
Para dimensionar a expectativa dos produtores, vale comparar os números com o histórico recente do cinema nacional:
- Minha Mãe é Uma Peça 3 (2019): cerca de R$ 120 milhões — referência absoluta entre filmes brasileiros;
- Os Farofeiros 2 (2024): aproximadamente R$ 60 milhões, entre os maiores do período pós-pandemia;
- Nosso Sonho (2023), cinebiografia da dupla Chitãozinho e Xororó: cerca de R$ 30 milhões.
Mesmo a estimativa pessimista de R$ 230 milhões para Dark Horse — o que representaria 91% a mais que o recorde de Paulo Gustavo — já seria um feito sem precedentes para uma produção 100% nacional. O número também supera com folga o que produções estrangeiras costumam arrecadar no mercado brasileiro, embora fique distante de blockbusters globais lançados simultaneamente em vários países.
Quem é Daniel Vorcaro e por que ele importa nesta operação
Daniel Vorcaro ficou conhecido no mercado financeiro por assumir o controle do Banco Master, instituição de pequeno porte que ganhou relevância no cenário nacional ao oferecer produtos de renda fixa com taxas acima da média, atraindo principalmente investidores de alto patrimônio. Nos últimos anos, o nome de Vorcaro passou a aparecer em investigações sobre esquemas de captação e operações suspeitas, especialmente após operações da Polícia Federal e da Receita Federal.
Para entender a relevância do aporte, é preciso considerar que o mercado cinematográfico brasileiro opera com margens apertadas e depende, em boa parte, de leis de incentivo fiscal e editais públicos para viabilizar produções de grande porte. Um investimento privado de R$ 64 milhões em um único projeto é, portanto, um movimento incomum e chama a atenção tanto do ponto de vista financeiro quanto regulatório.
O elo com Eduardo Bolsonaro
O fato de o fundo receptor dos recursos — Havengate Development Fund LP — ser controlado por Paulo Calixto, advogado pessoal de Eduardo Bolsonaro, levanta uma camada política relevante à operação. Dark Horse é descrito como um filme biográfico sobre Jair Bolsonaro, e a conexão entre o investidor, o operador financeiro e a família do ex-presidente coloca o projeto no centro de investigações que cruzam mercado financeiro, política e indústria do entretenimento.
Não há, até o momento, confirmação oficial sobre o estágio atual de produção do longa, se ele segue em fase de gravação ou pós-produção, ou se os aportes foram suspensos após a deflagração das operações que envolvem o Banco Master. A reportagem procurou os envolvidos, mas não obteve posicionamento até o fechamento deste texto.
Como a Polícia Federal chegou aos documentos
Os documentos que embasam as projeções de receita de Dark Horse foram apreendidos durante o cumprimento de medidas cautelares e buscas integradas às apurações sobre o Banco Master. A PF analisou contratos, planilhas financeiras e apresentações de negócio que detalhavam o plano de viabilidade econômica da produção cinematográfica.
Essas peças integram o material probatório que vem sendo utilizado para mapear o fluxo de recursos entre as empresas do grupo controlado por Vorcaro e fundos no exterior. A existência de uma estrutura offshore, como a Havengate, com sede nos Estados Unidos, é típica de operações que buscam blindagem patrimonial e dificultam o rastreamento de valores — característica que, segundo investigadores ouvidos pela reportagem, costuma aparecer em esquemas de lavagem de dinheiro.
O que se sabe sobre "Dark Horse" como obra
O filme é apresentado como uma cinebiografia de Jair Bolsonaro, com foco em recortes específicos de sua trajetória política e pessoal. Pouco se sabe publicamente sobre o roteiro, o elenco e a direção, já que a produção evitou divulgar detalhes enquanto as tratativas financeiras estavam em curso. A expectativa, segundo pessoas próximas ao projeto, era de que a obra fosse tratada como um grande lançamento comercial, não como um produto de nicho.
Esse posicionamento ajuda a explicar as projeções tão otimistas: os produtores apostavam que um tema de forte apelo polarizador, aliado a uma estratégia de distribuição massiva e ao financiamento privado robusto, pudesse repetir ou até superar fenômenos de bilheteria raros no cinema nacional.
Impactos e próximos passos da investigação
A operação envolvendo Vorcaro e o Banco Master segue em fase de apuração, com ramificações em diversos setores — do financeiro ao cinematográfico. A tendência é que a Polícia Federal e o Ministério Público Federal analisem se os aportes em Dark Horse tinham origem lícita, se houve regularidade fiscal e se existem indícios de que o projeto tenha sido utilizado para movimentar ou dissimular recursos.
Para o leitor, o caso é mais um capítulo de uma investigação que mistura economia, política e cultura, e mostra como produtos audiovisuais de grande porte podem se tornar palco de operações financeiras complexas, nem sempre transparentes.
Perguntas frequentes
O filme "Dark Horse" foi lançado?
Não há confirmação oficial de que a obra tenha chegado aos cinemas ou a plataformas de streaming até o momento. A produção ainda não tem data de estreia divulgada publicamente.
Quem é o investidor Daniel Vorcaro?
É o controlador do Banco Master, instituição financeira que vem sendo alvo de operações da Polícia Federal, do Banco Central e da Receita Federal.
Quanto foi efetivamente investido no filme?
Os documentos obtidos pela PF indicam repasses de cerca de US$ 12,3 milhões, o equivalente a aproximadamente R$ 64 milhões, embora o contrato inicial previsse até US$ 24 milhões.
Por que as projeções de receita eram tão altas?
Os produtores apostavam em uma cinebiografia de forte apelo comercial e em um público polarizado, estimando arrecadações entre R$ 230 milhões e R$ 358 milhões.
Qual é a relação com Eduardo Bolsonaro?
O advogado de Eduardo Bolsonaro, Paulo Calixto, controla a Havengate Development Fund LP, fundo nos Estados Unidos que recebeu os recursos vindos da Entre Investimentos, empresa de Vorcaro.
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