Brasil

Inquérito das fake news: Moraes deixa relatoria no STF

Caso que apura ataques à corte e à democracia será redistribuído após quase seis anos sob o mesmo comando.

Inquérito das fake news: Moraes deixa relatoria no STF

O que é o inquérito das fake news e por que ele mudou de mãos no STF

O inquérito 4.781, conhecido popularmente como inquérito das fake news, deixou de ser relatado pelo ministro Alexandre de Moraes após decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, em meio a uma crise institucional que envolve atritos internos na Corte. A reestruturação abre caminho para o encerramento de uma das investigações mais controversas da história recente do Judiciário brasileiro, instaurada há cerca de sete anos. Segundo o portal Terra.com.br, a mudança ocorre após quase uma década desde a criação do procedimento.

Como o inquérito das fake news foi criado em 2019

O inquérito foi instaurado em março de 2019, durante a presidência do então presidente do STF Dias Toffoli, por meio de uma portaria emitida de ofício pela própria Corte — sem solicitação do Ministério Público. O objetivo inicial, registrado no documento, era apurar "ameaças, ataques e disseminação de informações falsas que atingiam a honorabilidade e a segurança do Supremo Tribunal Federal, de seus membros e de seus familiares".

Na mesma portaria, Toffoli designou o ministro Alexandre de Moraes como relator. A escolha foi alvo de críticas desde o início, já que quem investiga e quem decide é a mesma pessoa, sem participação da Procuradoria-Geral da República na origem do procedimento — um arranjo incomum no sistema jurídico brasileiro.

O que tornava esse inquérito diferente de qualquer outro

Dois pontos distanciavam o inquérito das fake news da praxe do direito brasileiro:

  • Titularidade incomum: normalmente, cabe ao Ministério Público instaurar inquéritos e conduzir investigações criminais. No caso, foi o próprio STF quem abriu o procedimento.
  • Relator definido sem sorteio: a investigação foi entregue diretamente a um ministro indicado pelo presidente da Corte, sem a distribuição aleatória que costuma definir os relatores de processos no tribunal.

Toffoli fundamentou a decisão em uma norma do Regimento Interno do STF que autoriza a abertura de inquéritos quando há infração à lei penal nas dependências do tribunal. A interpretação adotada estendeu esse dispositivo para cobrir ataques supostamente praticados contra os próprios ministros, dentro e fora das dependências físicas da Corte.

A ampliação do escopo ao longo dos anos

O que começou como uma investigação sobre ofensas e ameaças direcionadas a integrantes do STF ganhou proporções significativamente maiores nos anos seguintes. Sob a relatoria de Alexandre de Moraes, o escopo foi ampliado para apurar a atuação de estruturas de financiamento e disparos em massa nas redes sociais, descritas como tendo o objetivo de "lesar ou expor a perigo de lesão a independência do Poder Judiciário e ao Estado de Direito".

Na prática, o inquérito se desdobrou em:

  • Operações de busca e apreensão contra influenciadores digitais, empresários e políticos;
  • Ordens judiciais de bloqueio de perfis em redes sociais;
  • Quebras de sigilo bancário, telemático e fiscal de investigados;
  • Determinações de remoção de conteúdo em plataformas digitais.

Todo o processo correu sob sigilo desde o início, o que gerou críticas de setores do próprio Judiciário, da academia e de entidades de imprensa, que apontaram falta de transparência e dificuldade de controle social sobre as decisões.

Por que a relatoria mudou agora

A reestruturação determinada por Fachin ocorre em meio a uma crise institucional no STF, alimentada por atritos recentes entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça. Segundo a reportagem do Terra.com.br, Fachin retirou Moraes da condução do inquérito 4.781, encerrando um ciclo que durava desde 2019.

A decisão reposiciona a investigação em outro relator, que ainda não foi definido publicamente até a publicação desta matéria, mas pode vir a ser sorteado ou designado pelo novo presidente da Corte — o que, na prática, devolve o procedimento a uma trilha mais alinhada às regras tradicionais do tribunal.

O que está em jogo com essa reestruturação

A mudança de relatoria não é apenas um detalhe burocrático. Ela carrega três implicações concretas para o país:

  1. Possível encerramento ou esvaziamento do inquérito. Um novo relator pode optar por não dar prosseguimento às linhas de investigação abertas, devolver peças ao Ministério Público ou mesmo determinar o arquivamento de partes do procedimento.
  2. Reorientação de processos derivados. Diversas ações penais e decisões cautelares — incluindo bloqueios e quebras de sigilo — foram fundamentadas no inquérito. Qualquer alteração na relatoria pode reverberar em outras frentes processuais.
  3. Sinal político sobre limites da atuação judicial. Ao redesenhar a investigação, o STF sinaliza internamente sobre os limites do uso de inquéritos de ofício e sobre o papel das redes sociais no debate público.

Para o leitor brasileiro, o desfecho desse inquérito é relevante porque ele envolveu milhões de pessoas cujas postagens, perfis e contas foram alvo de ordens judiciais derivadas diretamente da investigação. Qualquer mudança de rumo tem impacto direto sobre processos em curso e sobre a jurisprudência futura sobre liberdade de expressão e modulação de conteúdo online no país.

Por que o caso virou símbolo do debate sobre fake news

O inquérito das fake news ganhou esse apelido porque se tornou o principal instrumento judicial do STF para lidar com a propagação de desinformação em larga escala — um fenômeno que ganhou força no Brasil a partir das eleições de 2018 e se intensificou durante a pandemia de covid-19 e os ciclos eleitorais seguintes.

Para críticos, a investigação representou um instrumento de censura prévia disfarçada e um uso expansivo do poder judicial sobre o debate nas redes. Para defensores, foi uma resposta necessária a um ataque organizado à integridade das instituições. Ambos os lados concordam, porém, que o procedimento foge aos padrões tradicionais do processo penal brasileiro — daí a relevância da reestruturação atual.

Perguntas frequentes

O que é o inquérito das fake news?
É o inquérito 4.781, aberto pelo STF em março de 2019 para apurar ataques, ameaças e desinformação contra ministros da Corte, com escopo posteriormente ampliado para investigar redes de financiamento e disparos em massa.

Quem criou o inquérito das fake news?
Foi instaurado por portaria do então presidente do STF, Dias Toffoli, com Alexandre de Moraes designado como relator desde o início.

Por que o inquérito é considerado controverso?
Porque foi aberto de ofício pelo próprio Judiciário — e não pelo Ministério Público — e teve o relator escolhido diretamente pelo presidente da Corte, em vez de sorteado, além de ter corrido sob sigilo por anos.

O que muda com a saída de Alexandre de Moraes da relatoria?
A condução passa a outro ministro, o que pode levar ao encerramento parcial ou total do inquérito, à revisão de decisões cautelares e a uma mudança de rumo nas investigações em curso.

O inquérito das fake news já foi encerrado?
A reportagem do Terra.com.br indica que a reestruturação abre caminho para o encerramento, mas até o momento não há confirmação oficial sobre o desfecho final do procedimento.

Gostou desta matéria? Compartilhe com quem precisa ficar bem informado e assine a newsletter do GCBS NEWS para receber as principais notícias direto no seu e-mail.

Yuri Augusto
Escrito por
Yuri Augusto

Yuri Augusto Jornalista e entusiasta de inovação digital, Yuri acompanha de perto as principais movimentações do mercado, economia e tecnologia. Com foco em traduzir informações complexas em análises acessíveis, é o responsável por trazer os conteúdos mais relevantes e em primeira mão para os leitores do GCBS News.

Leia também