Lula busca aproximação com Trump para frear ataques de Rubio às vésperas da eleição, aponta Financial Times
Em meio a uma escalada de ataques públicos com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aposta em uma frente diplomática considerada "improvável" por analistas: uma aliança pontual com o próprio Donald Trump. A estratégia foi revelada por reportagem publicada neste sábado (22/08) pelo jornal britânico Financial Times, com base em relatos de integrantes do governo americano e do entorno do Palácio do Planalto.
Segundo o Financial Times, Lula rompeu a lógica tradicional da diplomacia brasileira e decidiu tratar Trump não como adversário, mas como um possível contrapeso dentro da administração republicana. Na sexta-feira (21/08), os dois presidentes conversaram por telefone — primeira ligação formal desde o agravamento da crise bilateral que marcou o início do ano.
Como está a crise entre Brasil e Estados Unidos?
As relações entre Brasília e Washington viveram seu ponto mais delicado nos últimos meses, com troca de declarações em tom cada vez mais pessoal. Rubio, que é senador da Flórida e filho de imigrantes cubanos, acusou Lula de colocar "o próprio ego" acima do povo brasileiro. Em resposta, o presidente brasileiro afirmou que o chefe da diplomacia americana é um "latino-americano frustrado" que "odeia o Brasil".
O nível das ofensas chamou a atenção do Financial Times, que descreveu a troca de farpas como dotada de "franqueza notável" — expressão usada pelo jornal para qualificar o tom incomum entre chefes de Estado de democracias das Américas. A publicação lembra que o cenário ocorre a menos de dois meses da eleição presidencial brasileira de outubro, primeira desde o retorno de Lula ao Palácio do Planalto em 2023.
Por que Lula quer Trump como aliado?
De acordo com a reportagem do Financial Times, auxiliares próximos de Lula avaliam que Trump, apesar do histórico de posições duras sobre o Brasil, mantém uma relação pragmática com líderes estrangeiros e tende a responder a canais diretos de negociação. A leitura no Planalto, segundo o jornal, é a de que o presidente americano poderia atuar como moderador das investidas de Rubio.
Na semana passada, antes da ligação, Lula havia dito publicamente que telefonaria para Trump para reclamar do que classificou como "interferência" norte-americana no processo eleitoral brasileiro. A afirmação foi feita em meio a declarações de autoridades dos EUA sobre a condução da política interna no Brasil, incluindo temas como soberania na Amazônia, regulação de plataformas digitais e o julgamento de antigos aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.
"Em vez de encarar o chefe de Rubio como um obstáculo, Lula tenta conquistar Trump como aliado", resume o Financial Times.
O que disse a ligação entre Lula e Trump?
Detalhes do conteúdo da conversa telefônica não foram divulgados oficialmente nem pelo Palácio do Planalto nem pela Casa Branca. O governo brasileiro confirmou apenas que o diálogo ocorreu e que ambos os presidentes concordaram em manter o canal aberto. O Palácio do Planalto classificou o tom como "respeitoso e construtivo", enquanto assessores americanos, ouvidos pelo Financial Times, descreveram a ligação como "produtiva".
A reaproximação marca uma inflexão importante após meses de silêncio entre os dois governos. A última comunicação direta de alto nível havia ocorrido antes da posse de Trump, em janeiro, quando Lula manifestou publicamente preocupação com a política migratória e comercial do novo governo.
O que estaria por trás da estratégia de Lula?
Para integrantes da gestão americana ouvidos pelo Financial Times, há uma leitura mais fria por trás da retórica de Lula: a de que o confronto com Rubio serviria como combustível para a campanha à reeleição. A tese levantada por fontes ouvidas pelo jornal é a de que uma reação nacionalista contra interferência norte-americana poderia ser explorada eleitoralmente para combater o principal adversário de Lula no pleito, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que lidera as pesquisas de intenção de voto na corrida pelo Palácio do Planalto.
Embora a avaliação não tenha partido do governo brasileiro — e nem Lula, nem seus aliados tenham confirmado essa hipótese publicamente —, ela ajuda a explicar por que o presidente optou por não baixar o tom, mesmo após a reabertura do diálogo com Washington.
Quem é Marco Rubio e por que ele se opõe ao governo Lula?
Marco Rubio é senador republicano pela Flórida, uma das vozes mais conservadoras do Congresso americano e figura influente em política externa. Indicado por Trump para o cargo de secretário de Estado, ele comanda a diplomacia dos EUA desde o início de 2025. Historicamente, Rubio mantém posições críticas sobre o PT e sobre o que considera aproximação do Brasil com China e Venezuela.
Nos últimos meses, o secretário concentrou críticas ao governo brasileiro em três frentes:
- Política ambiental: pressão por maior abertura da Amazônia à exploração econômica e cobrança sobre desmatamento.
- Liberdade de expressão: questionamentos sobre a regulação de redes sociais e o tratamento dado a adversários políticos, em especial ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
- Soberania sobre dados e big techs: divergências sobre projetos de lei brasileiros que afetam empresas norte-americanas de tecnologia.
Qual o impacto para o leitor brasileiro?
O cenário descrito pelo Financial Times mostra que a diplomacia brasileira está sendo conduzida em duas velocidades simultâneas: a do confronto retórico com Rubio e a da reaproximação pragmática com Trump. Para a população, o desfecho dessa disputa pode ter consequências concretas em áreas como:
- Comércio exterior: os EUA são o segundo maior parceiro comercial do Brasil. Qualquer deterioração adicional pode afetar exportações agrícolas, siderúrgicas e do setor de serviços.
- Investimentos: declarações hostis de autoridades americanas costumam provocar oscilações no mercado financeiro e impactar a percepção de risco-país.
- Relações multilaterais: a tensão bilateral pode influenciar votações conjuntas em organismos como ONU, OEA, G20 e BRICS.
- Custo de vida: mudanças em tarifas e barreiras comerciais tendem a refletir no preço de produtos importados e em itens do dia a dia.
Quais são os próximos passos esperados?
A expectativa, segundo o Financial Times, é de que Lula procure manter um canal direto com Trump nas próximas semanas, período que antecede a corrida presidencial de outubro. Analistas ouvidos pelo jornal britânico avaliam que novos telefonemas e declarações públicas devem ocorrer, sempre com o objetivo de separar a relação entre os dois presidentes da relação com Rubio.
Do lado americano, a Casa Branca ainda não se manifestou oficialmente sobre as declarações atribuídas a Lula. O Itamaraty também não respondeu publicamente ao conteúdo da reportagem do Financial Times até o fechamento deste texto.
Perguntas frequentes sobre Lula, Trump e Rubio
Lula e Trump realmente conversaram por telefone?
Sim. O Palácio do Planalto confirmou que o presidente brasileiro e o presidente dos Estados Unidos conversaram por telefone na sexta-feira (21/08). Foi a primeira ligação direta desde o início do mandato de Trump.
O que motivou as críticas de Marco Rubio ao Brasil?
Rubio tem criticado o governo brasileiro em temas como meio ambiente, regulação de redes sociais, julgamentos envolvendo aliados de Bolsonaro e aproximação com China e Venezuela. As críticas se intensificaram nas últimas semanas, segundo o Financial Times.
Por que Lula chama Rubio de "latino-americano frustrado"?
A expressão foi usada pelo presidente brasileiro em resposta às declarações de Rubio sobre a política interna do Brasil. Segundo Lula, o secretário de Estado teria uma visão hostil ao país por suas origens e trajetória política.
A estratégia de Lula com Trump tem chance de funcionar?
A reportagem do Financial Times descreve a aliança como "improvável", mas aponta que auxiliares de Lula consideram Trump mais pragmático do que Rubio em negociações bilaterais. O sucesso depende de como a Casa Blanca pretende conduzir a relação com o Brasil até outubro.
Como esse cenário pode afetar a eleição presidencial no Brasil?
Para fontes ouvidas pelo Financial Times, a estratégia de Lula busca mobilizar a opinião pública em torno da defesa da soberania nacional diante de pressões externas. A hipótese, não confirmada pelo governo brasileiro, é a de que o confronto com Rubio fortaleceria a campanha à reeleição contra Flávio Bolsonaro.
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