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Morre Emma Bonino, ícone da luta pelo aborto na Itália, aos 78 anos

Sobreviveu a um atentado nos anos 1970 e se tornou referência na defesa dos direitos das mulheres na Europa.

Morre Emma Bonino, ícone da luta pelo aborto na Itália, aos 78 anos

A política e ativista italiana Emma Bonino morreu nesta sexta-feira em Roma, aos 78 anos, após meses de internação por insuficiência respiratória. A notícia foi divulgada pelo partido Più Europa, que ela própria fundou em 2017, por meio das redes sociais. Considerada uma das vozes mais influentes do liberalismo europeu, Bonino ficou conhecida internacionalmente pela defesa dos direitos civis, pela luta pela legalização do aborto na Itália e pela carreira como comissária europeia e ministra em seu país. Segundo o portal Observador.pt, ela havia sido hospitalizada em dezembro e não chegou a se recuperar.

Quem foi Emma Bonino?

Nascida em 1948 na cidade de Bra, no Piemonte, Emma Bonino se formou em Linguística pela Universidade de Milão antes de se tornar uma das figuras mais marcantes da política italiana do pós-guerra. Sua trajetória foi construída em torno de pautas consideradas polêmicas em sua época, mas que acabaram incorporadas ao ordenamento jurídico italiano e europeu nas décadas seguintes.

Três grandes eixos guiaram sua vida pública, segundo o próprio partido Più Europa: a luta contra o aborto clandestino, o combate à mutilação genital feminina e a defesa intransigente das liberdades individuais. Em comunicado publicado após a confirmação do falecimento, a legenda europeísta de centro-esquerda afirmou que "a sua vida foi uma longa luta contra tudo o que nega a liberdade: contra o aborto clandestino, a fome mundial, o domínio da política partidária, a mutilação genital feminina, a justiça punitiva, o genocídio e todas as formas de autoritarismo".

Como tudo começou? O aborto clandestino que mudou sua vida

O ingresso de Bonino na militância política aconteceu em um momento pessoal delicado. Em 1975, acreditando ser estéril, ela engravidou aos 27 anos e recorreu a um aborto clandestino. Diante da experiência, decidiu tornar o caso público em um gesto de desobediência civil que culminou em sua detenção pelas autoridades italianas.

Naquele mesmo ano, fundou o CISA (Centro de Informação, Esterilização e Aborto), entidade dedicada a orientar mulheres sobre saúde reprodutiva em um país em que a interrupção voluntária da gravidez era crime. O trabalho do CISA foi determinante para pressionar o Parlamento italiano a aprovar, em 1978, a Lei 194, que regulamentou o aborto no país — legislação que segue em vigor, apesar de pressões periódicas de grupos conservadores para restringi-la.

Foi nesse contexto que Bonino conheceu Adele Faccio, ativista dos direitos das mulheres e figura proeminente do Partido Radical italiano. A aproximação com a legenda marcou o início de uma carreira parlamentar que começaria oficialmente em 1976, quando ela foi eleita deputada em um cenário em que mulheres jovens no Parlamento italiano eram raras.

Por que o aborto era proibido na Itália até 1978?

Até a aprovação da Lei 194, a Itália mantinha a criminalização total da interrupção voluntária da gravidez herdada do código penal da era fascista. Mulheres, médicos e qualquer pessoa envolvida no procedimento podiam ser processados, o que empurrava a prática para clínicas clandestinas, com sérios riscos à saúde. A mobilização de feministas, profissionais de saúde e parlamentares progressistas ao longo da década de 1970 criou as condições políticas para a mudança legislativa.

Bonino foi uma das vozes que transformou a experiência pessoal em bandeira política, defendendo que o aborto seguro era questão de saúde pública e de direitos das mulheres, não de moral religiosa. A trajetória italiana guarda paralelo com a do Brasil, onde a discussão sobre descriminalização só avançou de forma mais ampla a partir de decisões recentes do Supremo Tribunal Federal, que ampliaram as situações em que o procedimento pode ser realizado.

De deputada a comissária europeia: a ascensão internacional

Ao longo das décadas de 1980 e 1990, Emma Bonino construiu uma carreira que extrapolou as fronteiras italianas. Foi deputada em múltiplas legislaturas, chegou à liderança do Partido Radical e ocupou cargos de destaque na Comissão Europeia, em Bruxelas, onde atuou como comissária responsável pelas áreas de Política do Consumidor e Pescas. Segundo o Observador.pt, ela defendia suas causas independentemente de ter apoio à esquerda ou à direita.

Sua trajetória internacional incluiu ainda o trabalho em causas humanitárias, como o combate à fome no mundo e o apoio a dissidentes em regimes autoritários. Bonino foi também ministra em dois governos italianos, sendo lembrada pela capacidade de articular pautas progressistas mesmo em coalizões que reuniam partidos de diferentes orientações ideológicas.

Em 2013, seu nome ganhou projeção global ao se tornar a primeira mulher candidata à Presidência da República Italiana, em votação no Parlamento. Embora não tenha sido eleita, a candidatura foi considerada histórica por simbolizar a entrada das mulheres na disputa pelo principal cargo do Estado italiano.

Os últimos anos e a fundação do Più Europa

Em 2017, Emma Bonino decidiu fundar uma nova legenda para abrigar suas bandeiras liberais e europeístas no espectro de centro-esquerda: o Più Europa, partido pelo qual continuou atuando até os últimos meses de vida. Mesmo com a saúde fragilizada, manteve presença em debates sobre União Europeia, migração e direitos humanos.

Em dezembro, ela foi hospitalizada em Roma com um quadro de insuficiência respiratória, do qual não conseguiu se recuperar. A confirmação da morte foi feita pelo Più Europa nas redes sociais, com uma publicação em italiano que a descreveu como "uma das protagonistas mais lúcidas, corajosas e livres da história política do nosso país e do mundo livre".

Repercussão internacional e legado

A morte de Bonino foi lamentada por diversas lideranças europeias e organizações de direitos humanos. Sua trajetória é frequentemente citada como referência em debates sobre legalização do aborto, laicidade do Estado e proteção de minorias. No Brasil, o caso costuma ser lembrado em discussões sobre saúde pública e autonomia feminina, especialmente pela proximidade entre as trajetórias italiana e brasileira — em ambos os países, a descriminalização do aborto foi fruto de mobilizações sociais conduzidas por mulheres.

Para pesquisadoras de gênero e políticas públicas, Bonino deixa um legado singular: o de mostrar que pautas consideradas marginais em determinado momento histórico podem se tornar consenso democrático décadas depois, desde que haja persistência, coragem pública e articulação política.

O que acontece agora com o Più Europa?

Com a morte de sua principal fundadora e líder, o Più Europa enfrenta o desafio de se reposicionar no cenário político italiano antes das próximas eleições. A legenda integra o bloco de centro que tem sido apontado como peça-chave para a formação de maiorias parlamentares, especialmente diante do crescimento de forças populistas na Itália. A sucessão interna na presidência do partido ainda não havia sido anunciada até o fechamento desta matéria.

Perguntas frequentes

Quem foi Emma Bonino?

Emma Bonino foi uma política e ativista italiana nascida em 1948 em Bra, no Piemonte. Foi deputada, comissária europeia, ministra em dois governos italianos e a primeira mulher a se candidatar à Presidência da Itália, em 2013. Fundou o partido Più Europa em 2017.

Por que Emma Bonino ficou conhecida?

Bonino se tornou símbolo da luta pelos direitos civis na Itália, especialmente pela defesa da legalização do aborto. Sua militância começou em 1975, quando revelou publicamente ter feito um aborto clandestino, em ato de desobediência civil que resultou em sua prisão.

Quando o aborto foi legalizado na Itália?

O aborto foi legalizado na Itália em 1978, por meio da Lei 194, após anos de campanha de movimentos feministas e parlamentares como Bonino, que atuou diretamente para pressionar o Parlamento.

Qual era o estado de saúde de Bonino antes da morte?

Segundo o Observador.pt, Emma Bonino foi hospitalizada em dezembro em Roma com insuficiência respiratória e não se recuperou. A causa detalhada do falecimento não foi divulgada pelas fontes oficiais até o fechamento desta matéria.

Qual é a relação entre Bonino e o Brasil?

Não há relação política direta registrada entre Emma Bonino e o Brasil, mas sua trajetória é frequentemente citada por feministas brasileiras como exemplo de como a mobilização social pode resultar na descriminalização do aborto, processo que também avançou no país por decisões do Supremo Tribunal Federal.

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Yuri Augusto
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Yuri Augusto

Yuri Augusto Jornalista e entusiasta de inovação digital, Yuri acompanha de perto as principais movimentações do mercado, economia e tecnologia. Com foco em traduzir informações complexas em análises acessíveis, é o responsável por trazer os conteúdos mais relevantes e em primeira mão para os leitores do GCBS News.

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