Economia

Orçamento 2027: superávit de R$ 18,6 bi e rombo de R$ 45 bi

Resultado primário positivo contrasta com déficit nominal puxado por juros da dívida pública e despesas obrigatórias em alta.

Orçamento 2027: superávit de R$ 18,6 bi e rombo de R$ 45 bi

Orçamento de 2027 promete superávit de R$ 18,6 bilhões, mas mercado vê “buraco” de até R$ 45,6 bilhões

A proposta do governo federal para o Orçamento de 2027, entregue ao Congresso na noite de segunda-feira (31), projeta um superávit primário de R$ 18,6 bilhões, o equivalente a 0,13% do Produto Interno Bruto (PIB). Caso a meta seja de fato cumprida, será a primeira vez desde 2022 em que as contas públicas federais fecharão no azul — e apenas a segunda vez em 12 anos. A peça, no entanto, já nasce sob forte desconfiança de analistas do mercado financeiro, que apontam premissas excessivamente otimistas e estimam um rombo consideravelmente maior.

O Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) 2027 ainda precisa ser apreciado e aprovado pelos parlamentares até 31 de dezembro para entrar em vigor em janeiro do próximo ano. Enquanto o governo fala em equilíbrio, instituições como a gestora Warren e o banco BTG Pactual projetam déficits de 0,38% do PIB e R$ 27 bilhões, respectivamente — apontando um fosso de até R$ 45,6 bilhões entre o número oficial e as expectativas do setor privado.

O que o governo está propondo?

O PLOA é a peça orçamentária que define, ano a ano, quanto o governo espera arrecadar e como pretende gastar. Para 2027, o Ministério do Fazenda, sob comando de Fernando Haddad, desenhou um cenário em que a arrecadação será suficiente para cobrir todas as despesas não financeiras do Estado, sobrando ainda aquele volume de R$ 18,6 bilhões.

Desde 2014, o governo central brasileiro só conseguiu fechar as contas no azul em um único exercício: 2022, último ano do governo Jair Bolsonaro. Nos demais anos — incluindo todo o primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva —, o resultado foi deficitário, sustentado por gastos com benefícios sociais, previdência e o elevado custo da dívida pública.

Por que analistas desconfiam do número?

Para executivos do mercado financeiro ouvidos pelo GCBS NEWS e em relatórios públicos recentes, a proposta parte de três pilares que consideram pouco realistas:

  • Crescimento econômico acima do esperado, com projeções de PIB mais otimistas do que as de bancos e consultorias;
  • Receita arrecadatória superestimada, especialmente diante de um cenário de desaceleração gradual da atividade;
  • Despesas contidas artificialmente, graças à inclusão, no cálculo, do chamado empoçamento de recursos.

"A composição entre receitas e despesas difere de maneira relevante em relação às nossas projeções para o próximo ano", afirmou Fabio Serrano, analista do BTG Pactual, em relatório distribuído a clientes. Segundo ele, a diferença se explica tanto pela superestimativa de receitas quanto, principalmente, pelo empoçamento — uma conta estimada em R$ 27 bilhões que o banco inclui no cálculo e que a proposta do governo não traz de forma explícita.

O que é o “empoçamento” e por que ele é contestado?

O termo técnico se refere ao represamento de verbas que sobram ao fim do exercício financeiro porque os ministérios não conseguem executá-las a tempo. Atrasos em licitações, problemas em projetos, entraves burocráticos e contingenciamentos fazem com que parcelas autorizadas no orçamento acabem não sendo gastas de fato.

Na prática, esse dinheiro não utilizado melhora artificialmente o resultado primário, porque a despesa registrada é menor do que a autorizada. Para muitos analistas, ignorar o empoçamento — ou tratá-lo como se fosse economia real — equivale a mascarar o rombo estrutural das contas públicas. Por isso, instituições financeiras costumam descontar esse valor ao avaliar a saúde fiscal do país.

"É como se a pessoa anotasse no caderno que vai gastar R$ 1.000, mas como só conseguiu pagar R$ 700, concluísse que economizou R$ 300 em vez de admitir que, na verdade, tinha R$ 300 a menos para aplicar", compara um especialista em contas públicas ouvido pela reportagem, ilustrando o mecanismo.

Quanto o mercado acredita que será o rombo?

Os números variam de casa para casa, mas apontam todos na mesma direção — déficit, não superávit:

  • Warren Gestão: déficit primário de 0,38% do PIB em 2027 — quase 0,5 ponto percentual abaixo do prometido pelo governo;
  • BTG Pactual: déficit de R$ 27 bilhões, o equivalente a um "buraco" de R$ 45,6 bilhões em relação à estimativa oficial;
  • Grandes bancos e consultorias em geral têm trabalhado com projeções entre 0,2% e 0,5% do PIB de déficit primário para 2027.

O ponto em comum é que nenhum dos principais cenários privados enxerga folga suficiente nas contas para entregar o resultado positivo que a equipe econômica apresenta.

Qual o contexto fiscal do Brasil hoje?

Para entender a relevância da proposta, é preciso considerar o quadro mais amplo. O país convive há mais de uma década com déficits primários sucessivos, financiados por emissão de dívida. O estoque da Dívida Pública Interna (DPMFi) já ultrapassa a casa dos R$ 7 trilhões, e os gastos com juros consomem uma fatia crescente do orçamento — em 2024, chegaram a ultrapassar R$ 380 bilhões por ano.

Dentro desse cenário, o equilíbrio das contas é uma das variáveis mais observadas por agências de classificação de risco, investidores estrangeiros e pelo próprio mercado de câmbio. Promessas de superávit — quando não cumpridas — costumam provocar pressão sobre o dólar e sobre os juros futuros, com impacto direto em financiamentos imobiliários, crédito ao consumidor e no custo da dívida corporativa.

O que pode acontecer agora?

O PLOA 2027 agora seguirá o rito legislativo:

  1. Análise pela Comissão Mista de Orçamento (CMO) do Congresso, com emendas parlamentares;
  2. Votação no plenário da Câmara dos Deputados e, em seguida, no Senado Federal;
  3. Prazo final: 31 de dezembro de 2026 para que o texto seja sancionado e passe a valer em janeiro de 2027.

A expectativa de analistas é que a proposta original sofra alterações relevantes, principalmente no lado das despesas, com a inclusão de emendas de bancada e ajustes de prioridades políticas — o que costuma pressionar ainda mais o resultado fiscal previsto.

O que isso significa para o brasileiro?

Mesmo sendo um tema predominantemente técnico, o resultado primário do governo afeta a vida concreta do cidadão de várias formas:

  • Juros mais altos a longo prazo: se a desconfiança se confirmar e o déficit for maior do que o projetado, o mercado pode exigir taxas maiores para financiar a dívida pública, encarecendo crédito imobiliário, cartão e empréstimos;
  • Pressão sobre o câmbio: dúvidas fiscais costumam se traduzir em dolarização da poupança e alta do dólar, elevando o preço de importados como combustível, eletrônicos e medicamentos;
  • Risco de classificação de crédito: caso se consolide a percepção de descontrole fiscal, o Brasil pode perder ou rebaixar o chamado investment grade em algumas agências, afastando investidores;
  • Margem para gastos sociais: o espaço fiscal é o que permite ao governo ampliar programas sociais, reajustar o salário mínimo acima da inflação ou descontingenciar verbas em áreas como saúde e educação.

Em resumo, o tamanho real do rombo estimado pelos analistas, se confirmado ao longo de 2027, pode reduzir o espaço para novos investimentos públicos e pressionar indicadores que já pesam no bolso da população.

Perguntas frequentes

O que é o resultado primário do governo?

É a diferença entre as receitas (arrecadação de impostos e contribuições) e as despesas do governo, excluindo os juros da dívida pública. Quando positivo, é chamado de superávit primário; quando negativo, déficit primário.

O que é a PLOA?

A Proposta de Lei Orçamentária Anual é o projeto enviado pelo Executivo ao Congresso todos os anos com a previsão de receitas e despesas para o exercício seguinte. Precisa ser aprovada até o fim do ano anterior para valer a partir de janeiro.

O que significa “empoçamento” no orçamento?

É o volume de verba autorizada que não foi gasta até o fim do ano por atrasos em licitações ou execução. Essa sobra reduz artificialmente a despesa registrada e melhora o resultado fiscal no papel, sem representar economia real.

Quando o Brasil ficou no azul pela última vez?

Em 2022, último ano do governo anterior. Desde 2014, com exceção desse ano, a União sempre fechou no vermelho.

Qual a próxima etapa do orçamento de 2027?

A PLOA será analisada pela Comissão Mista de Orçamento, receberá emendas e precisará ser votada na Câmara e no Senado, com prazo final em 31 de dezembro de 2026, conforme o portal Abril.com.br.

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Yuri Augusto
Escrito por
Yuri Augusto

Yuri Augusto Jornalista e entusiasta de inovação digital, Yuri acompanha de perto as principais movimentações do mercado, economia e tecnologia. Com foco em traduzir informações complexas em análises acessíveis, é o responsável por trazer os conteúdos mais relevantes e em primeira mão para os leitores do GCBS News.

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