Os primeiros partidos políticos do Brasil nasceram no Império, em 1837, e revelam um detalhe curioso sobre a elite que governava o país
A história dos partidos políticos no Brasil costuma ser contada a partir de movimentos populares e sociais que sacudiram o século XX, mas as primeiras agremiações com cara de partido surgiram quase cinquenta anos antes, ainda durante o Brasil Império. Segundo o portal Abril.com.br, a maior parte dos historiadores concorda que o Partido Conservador, apelidado de saquaremas, e o Partido Liberal, conhecido como luzias, foram as primeiras organizações políticas formalmente constituídas do país, tendo como marco inicial o ano de 1837.
Apesar da rivalidade declarada, os dois partidos tinham mais semelhanças do que divergências — uma característica que marcou a política brasileira por décadas e que ajuda a explicar por que algumas críticas ao atual sistema partidário ainda ecoam ecos de quase dois séculos atrás.
Por que surgiram os primeiros partidos brasileiros em 1837?
Para entender o nascimento desses partidos, é preciso voltar ao Período Regencial (1831-1840), a fase que se seguiu à abdicação de Dom Pedro I e durante a qual o Brasil foi governado por regentes, já que Dom Pedro II ainda era menor de idade.
Até então, a vida política no Império era dominada por grupos informais e clubes dispersos. A fragilidade do poder central, somada à pressão das províncias por mais autonomia, abriu espaço para que facções regionais ganhassem força, sobretudo entre os chamados exaltados — liberais radicais que defendiam reformas profundas, incluindo o fim da escravidão e até a possibilidade de uma república.
Em reação ao avanço radical, os liberais moderados começaram a se organizar. Foi essa ruptura interna entre liberais moderados e exaltados que deu origem aos dois partidos imperiais. Os moderados formaram o Partido Conservador (oficialmente chamado de "Partido da Ordem" em alguns documentos da época) e mantiveram o nome Liberal para a ala mais à esquerda, que continuou se identificando como liberal — embora, na prática, ambos os lados fossem ligados à elite agrária.
Qual a origem dos apelidos "saquaremas" e "luzias"?
Os nomes populares dos dois partidos nasceram de circunstâncias geográficas e militares — não de programas de governo. O termo saquaremas, usado para se referir aos conservadores, tem ligação direta com a região de Saquarema, hoje um município do litoral fluminense. Naquela época, porém, a vila pertencia à província do Rio de Janeiro, e muitos membros do Partido Conservador tinham propriedades ou residência ali. As reuniões políticas do grupo se concentravam nas redondezas, e o nome acabou pegando — inicialmente como deboche dos adversários, depois incorporado pela própria legenda.
Já luzias surgiu de forma igualmente jocosa, mas a partir de um episódio militar. Em 1842, quando os liberais chegaram ao poder com a ascensão de novas forças políticas, uma série de revoltas conservadoras estourou pelo país em reação ao cenário que se desenhava. Uma dessas revoltas aconteceu perto da cidade de Santa Luzia, em Minas Gerais, onde os conservadores venceram o confronto e os liberais foram derrotados. A partir daí, os adversários passaram a chamar os liberais de luzias, em tom de zombaria pela derrota no episódio que ficou conhecido como Batalha de Santa Luzia.
Quais eram as diferenças reais entre o Partido Conservador e o Partido Liberal?
A resposta curta: poucas, segundo historiadores. A longa: muito mais pessoais e regionais do que ideológicas. Tanto o Partido Conservador quanto o Partido Liberal eram formados majoritariamente por grandes proprietários de terra, conhecidos como senhores de engenho e fazendeiros, que compunham a elite agrária do Império.
Em termos de pensamento econômico, os dois partidos compartilhavam a base do liberalismo clássico, defendendo pouca intervenção do Estado na economia. Nos costumes e na estrutura social, ambos apoiavam a manutenção da escravidão, regime que só seria abolido em 1888, com a Lei Áurea, pela princesa Isabel.
A principal — e quase única — divergência dizia respeito à organização do poder político:
- Partido Conservador (saquaremas): defendia um governo central forte, sediado no Rio de Janeiro, com poder concentrado nas mãos do Imperador e do gabinete ministerial.
- Partido Liberal (luzias): pregava mais autonomia para as províncias, criticando o excessivo poder central e dando espaço para as elites locais comandarem seus territórios.
Na prática, esse jogo se traduziu no famoso "turno" ou revezamento: liberais e conservadores se alternavam no poder por meio de nomeações imperiais, sem disputa popular direta pela chefia do governo — o que garantia estabilidade, mas impedia uma renovação política mais profunda.
Como esses partidos influenciaram a política brasileira do século XIX?
Os dois partidos imperiais dominaram a vida política brasileira durante todo o Segundo Reinado (1840-1889), ocupando cadeiras na Câmara dos Deputados e no Senado, indicando presidentes de províncias e ocupando ministérios. O sistema era controlado pelo voto censitário, que excluía mulheres, analfabetos, escravizados e homens sem renda — ou seja, a grande maioria da população.
Esse arranjo gerou uma série de críticas, entre elas a do conselheiro José Bonifácio, em textos da época, que já apontavam para o fato de os partidos não representarem a diversidade da sociedade brasileira. Outros movimentos, como o Partido Republicano (fundado em 1870), surgiram como reação à elite bipartidária e ganharam força ao longo da década de 1880.
Com a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, e o fim do Império, os dois partidos foram oficialmente extintos. Seus membros, em grande parte, migraram para os novos partidos republicanos, como o Partido Republicano Federal e o Partido Republicano Conservador, entre outros, mantendo, em certa medida, a influência política das antigas oligarquias rurais — agora adaptadas ao novo regime.
Os partidos imperiais ainda têm influência hoje?
Embora extintos formalmente, alguns traços dos primeiros partidos brasileiros permanecem no debate atual. A concentração de poder nas elites rurais, a dificuldade de renovação política e o sistema de alianças regionalistas são temas frequentemente lembrados por historiadores e cientistas políticos quando se analisa a transição do Império para a República.
Especialistas também costumam destacar que, ao contrário de países como Reino Unido ou Estados Unidos, o Brasil nunca construiu partidos com base ideológica clara e duradoura — o que ajuda a explicar a fragmentação partidária observada desde a redemocratização, nos anos 1980, até os dias de hoje.
Para quem se pergunta "qual foi o primeiro partido político do Brasil?", a resposta histórica é clara: foram o Partido Conservador e o Partido Liberal, surgidos em 1837, durante o Império. Mas a leitura mais útil talvez esteja em entender que a identidade dos partidos brasileiros nasceu mais do que eles tinham em comum do que do que os separava — um padrão que, segundo muitos analistas, segue marcando a política nacional.
Perguntas frequentes sobre os primeiros partidos políticos do Brasil
Qual foi o primeiro partido político do Brasil?
Foram o Partido Conservador e o Partido Liberal, oficialmente organizados a partir de 1837, durante o Brasil Império. Ambos surgiram da divisão entre os liberais moderados e a ala mais radical, os exaltados, durante o Período Regencial.
Por que os conservadores eram chamados de saquaremas?
O apelido tem origem geográfica: muitos membros do Partido Conservador tinham ligações com a vila de Saquarema, na então província do Rio de Janeiro, onde ocorriam as reuniões políticas do grupo. O nome era usado pelos adversários e acabou sendo incorporado pelo próprio partido.
Por que os liberais eram chamados de luzias?
O apelido surgiu após a Batalha de Santa Luzia, em Minas Gerais, em 1842, quando os conservadores venceram um confronto durante uma série de revoltas contra a ascensão liberal. A expressão foi usada pelos adversários em tom de zombaria pela derrota dos liberais.
Quais eram as diferenças ideológicas entre os dois partidos?
Na prática, as diferenças eram poucas. Os dois partidos eram formados pela elite agrária, defendiam o liberalismo econômico clássico e apoiavam a escravidão. O ponto de maior divergência era o grau de centralização do poder: os conservadores queriam um governo central forte no Rio de Janeiro, enquanto os liberais defendiam mais autonomia para as províncias.
Por que esses partidos foram extintos?
Com a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, o regime monárquico foi substituído pela República e o sistema bipartidário do Império chegou ao fim. Os antigos membros migraram para os novos partidos republicanos, que passaram a disputar as eleições sob novas regras.
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