Economia

Argentina mira mineração de US$ 35 bi como 3º pilar até 2035

Lítio, cobre e ouro lideram os planos. Objetivo é tornar o país uma potência mineral global na próxima década.

Argentina mira mineração de US$ 35 bi como 3º pilar até 2035

Argentina mira US$ 35 bilhões em exportações minerais até 2035 e pode criar terceiro pilar da economia

A Argentina está posicionando a mineração para se tornar, nas próximas décadas, a sua terceira grande indústria exportadora — ao lado da agricultura e da energia. A projeção é do Itaú BBA, que estima que o país poderá exportar cerca de US$ 35 bilhões em produtos minerais até 2035. O número foi destacado em análise divulgada pelo banco e reproduzida pelo portal InfoMoney.

Para dimensionar o peso da aposta, vale um parâmetro: segundo o Itaú BBA, em 2026 as exportações totais argentinas estão em torno de US$ 100 bilhões. Nesse mesmo horizonte de 2035, o governo local projeta exportações de energia de aproximadamente US$ 50 bilhões. A mineração, portanto, deixaria de ser uma atividade de nicho para ocupar um lugar equivalente ao de setores históricos da economia do país.

Como a mineração se encaixaria no novo mapa exportador

A composição das exportações argentinas projetada para 2035 passaria a ter três grandes geradores de divisas em dólar:

  • Agricultura — historicamente o principal pilar, baseado em soja, milho, trigo e derivados.
  • Energia — com meta oficial de cerca de US$ 50 bilhões em exportações até 2035, impulsionada principalmente por gás e petróleo não convencional.
  • Mineração — com potencial de US$ 35 bilhões, concentrada em lítio e cobre, metais diretamente ligados à transição energética global.

Na prática, isso significa que a mineração deixaria de figurar como atividade periférica e passaria a ter protagonismo na pauta externa, ainda que em volume inferior ao dos dois setores já consolidados.

O que é o RIGI e por que ele é considerado um divisor de águas

O principal motor dessa expectativa é o Regime de Incentivo para Grandes Investimentos (RIGI), criado pelo governo argentino nos últimos anos para atrair capital privado a projetos de grande porte. Segundo o Itaú BBA, o regime melhorou de forma significativa o marco regulatório para a mineração, oferecendo mais previsibilidade e reduzindo incertezas associadas a políticas públicas — um problema histórico que afastava investidores de projetos de maturação longa, como minas de cobre e salares de lítio.

Em termos práticos, o RIGI reúne três pilares que costumam pesar na decisão de grandes mineradoras globais:

  • Estabilidade tributária e cambial por prazos longos, o que reduz o risco de mudanças bruscas em regras fiscais e cambiais.
  • Procedimentos administrativos mais ágeis para licenciamento ambiental e operação.
  • Garantias jurídicas semelhantes às oferecidas em jurisdições mineradoras tradicionais, como Chile, Peru e Austrália.

Para o banco, esse novo cenário corrige uma das principais queixas de empresas globais que avaliavam a Argentina nos últimos anos: a imprevisibilidade regulatória.

Quais fatores estão convergindo para destravar o setor

O relatório do Itaú BBA aponta que não foi apenas a mudança regulatória que recolocou a Argentina no radar da mineração. Há uma combinação de fatores domésticos e externos acontecendo ao mesmo tempo.

Fatores domésticos

  • Avanço do RIGI, que criou um ambiente contratual mais seguro para projetos de décadas.
  • Pressão por novas fontes de divisas em dólar para sustentar o equilíbrio do balanço de pagamentos.
  • Maior estabilidade macroeconômica gradual, ampliando a capacidade do Estado de negociar com multinacionais.

Fatores internacionais

  • Demanda crescente por lítio, puxada pela expansão da fabricação global de baterias para veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia.
  • Consumo elevado de cobre, ligado a eletrificação, redes de transmissão e infraestrutura de energias renováveis.
  • Busca de diversificação de fornecedores por gigantes automotivas e de tecnologia, interessadas em reduzir a concentração geográfica da produção mineral.

A Argentina integra o chamado Triângulo do Lítio sul-americano, junto com Bolívia e Chile, e detém algumas das maiores reservas comprovadas do mundo do metal. No cobre, há projetos relevantes em estágio avançado de licenciamento em províncias andinas, historicamente ricas em mineração polimetálica.

Por que o impacto na Bolsa brasileira deve ser limitado

Apesar da magnitude dos números projetados para 2035, o Itaú BBA destaca que o efeito direto sobre a B3 tende a ser restrito. Isso porque as grandes beneficiárias do ciclo argentino serão mineradoras globais — em geral listadas em Toronto, Londres ou Sidney — e não empresas de capital aberto com presença relevante na Bolsa brasileira.

Mesmo assim, há efeitos indiretos que investidores e empresas brasileiras podem monitorar nos próximos anos:

  • Logística e infraestrutura: empresas brasileiras de engenharia, transporte e serviços técnicos com experiência em projetos minerais podem participar de licitações no país vizinho.
  • Setor financeiro: bancos e gestoras com exposição a fundos especializados em commodities ou América Latina emergente podem capturar parte da demanda.
  • Insumos e bens de capital: fornecedores de equipamentos de mineração, tubos, válvulas e componentes industriais com atuação regional.

Para o investidor pessoa física no Brasil, a leitura mais prudente é manter o tema no radar, sem esperar uma repercussão imediata nos principais índices locais. O ciclo argentino tende a se refletir primeiro em commodities e em balanços de multinacionais estrangeiras.

O que vale acompanhar de perto

Mesmo com impacto direto limitado na B3, alguns indicadores podem antecipar o ritmo real do avanço da mineração argentina nos próximos anos:

  1. Anúncios de novos projetos contemplados pelo RIGI, especialmente em lítio e cobre.
  2. Investimentos anunciados por multinacionais em joint ventures com empresas locais ou estatais provinciais.
  3. Evolução das exportações argentinas nos relatórios mensais de comércio exterior.
  4. Movimentos regulatórios complementares, como regras ambientais e tributação de royalties.

A convergência entre reforma regulatória interna e demanda externa por metais críticos cria, segundo o Itaú BBA, uma janela rara para a Argentina. Ainda assim, o tamanho efetivo do setor em 2035 dependerá da velocidade de licenciamento, da infraestrutura disponível e da manutenção da estabilidade das regras — três variáveis historicamente sensíveis no país.

Perguntas frequentes

Qual é a projeção de exportação mineral da Argentina até 2035?

Segundo o Itaú BBA, a Argentina pode exportar cerca de US$ 35 bilhões em produtos de mineração até 2035, volume que consolidaria o setor como o terceiro grande pilar exportador do país, atrás da agricultura e da energia.

O que é o RIGI argentino?

O Regime de Incentivo para Grandes Investimentos (RIGI) é um programa criado pelo governo da Argentina para atrair capital privado a projetos de grande porte, oferecendo estabilidade tributária, cambial e jurídica por prazos longos.

Quais minerais estão no centro da estratégia argentina?

As apostas prioritárias são lítio e cobre, ambos diretamente ligados à transição energética global e ao crescimento da demanda por veículos elétricos e infraestrutura de energia limpa.

Por que o impacto na Bolsa brasileira deve ser limitado?

Porque as grandes mineradoras globais com exposição direta à Argentina não têm presença relevante na B3. Os efeitos no mercado brasileiro tendem a ser indiretos, via logística, engenharia, financiamento e fornecedores de bens de capital.

A mineração pode substituir a agricultura na Argentina?

Não. A expectativa é de que a mineração se torne um terceiro pilar complementar, e não substituto. A agricultura e a energia devem seguir como os dois maiores geradores de divisas do país, segundo a projeção do Itaú BBA.

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Yuri Augusto
Escrito por
Yuri Augusto

Yuri Augusto Jornalista e entusiasta de inovação digital, Yuri acompanha de perto as principais movimentações do mercado, economia e tecnologia. Com foco em traduzir informações complexas em análises acessíveis, é o responsável por trazer os conteúdos mais relevantes e em primeira mão para os leitores do GCBS News.

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