A Argentina pode se consolidar, na próxima década, como uma potência mineradora global. Segundo projeção do Itaú BBA divulgada pelo portal InfoMoney, o país tem potencial para exportar cerca de US$ 35 bilhões em produtos de mineração até 2035 — volume suficiente para transformar a mineração no terceiro grande pilar exportador da economia, ao lado da agricultura e da energia.
O número ganha dimensão quando comparado ao tamanho atual da balança comercial argentina. As exportações totais do país estão projetadas em torno de US$ 100 bilhões em 2026, conforme o próprio banco. Já o governo local estima que as exportações de energia possam alcançar aproximadamente US$ 50 bilhões até 2035, o que reforça a leitura de que o país está se reestruturando para diversificar suas fontes de receita em dólar após anos de crises recorrentes.
O que diz a projeção do Itaú BBA?
O cálculo divulgado pelo Itaú BBA, e reproduzido pelo InfoMoney, combina fatores domésticos e internacionais que, segundo os analistas, parecem estar convergindo para viabilizar um ciclo de expansão dos investimentos em mineração na Argentina. A avaliação é que o país reúne uma combinação rara de recursos naturais ainda pouco explorados, custos operacionais competitivos e, mais recentemente, um marco regulatório mais favorável a projetos de longo prazo.
Para o banco, três ingredientes aparecem como decisivos nesse cenário:
- Dotação mineral abundante, especialmente em lítio e cobre, com projetos de classe mundial já mapeados em províncias como Salta, Jujuy, Catamarca e San Juan;
- Estabilização macroeconômica, em curso desde as reformas promovidas pelo governo do presidente Javier Milei;
- Regimes de incentivo robustos, com destaque para o Regime de Incentivo para Grandes Investimentos (RIGI).
O que é o RIGI e por que ele importa?
O RIGI foi criado em 2024, no contexto do programa de estabilização econômica do governo Milei, e aprovado pelo Congresso argentino ainda naquele ano. O mecanismo estabelece um regime tributário, cambial e administrativo diferenciado para projetos considerados estratégicos, com aportes mínimos de US$ 200 milhões — e critérios específicos para o setor de mineração.
Entre os principais benefícios do regime estão:
- Previsibilidade tributária, com alíquotas congeladas por até 30 anos;
- Liberdade cambial, sem restrições para repatriação de lucros após um período inicial de carência;
- Estabilidade regulatória, com proteção contra mudanças unilaterais nas regras do jogo;
- Procedimentos administrativos simplificados, o que reduz prazos e burocracia para licenciamento ambiental e operacional.
Segundo o Itaú BBA, conforme relatado pelo InfoMoney, o RIGI melhorou de forma significativa o marco de investimentos para projetos de mineração de longa duração — justamente o tipo de empreendimento que exige horizontes de maturação superiores a uma década, caso clássico das grandes minas de cobre e lítio.
Quais minerais estão no centro dessa expansão?
A aposta na mineração argentina se concentra em dois grupos de commodities que ganharam protagonismo na transição energética global: lítio e cobre. Mas a pauta mineral do país também inclui ouro, prata e borato.
Lítio: a Argentina no "Triângulo"
O país integra, ao lado da Bolívia e do Chile, o chamado Triângulo do Lítio, que concentra a maior parte das reservas conhecidas do mineral no planeta. A Argentina já figura entre os quatro maiores produtores mundiais de lítio e vem recebendo investimentos bilionários de empresas como a chinesa Ganfeng, a sul-coreana Posco, a australiana Pilbara Minerals e a canadense Lithium Americas. A maior parte da produção se destina ao mercado de baterias para veículos elétricos.
Cobre: projetos de classe mundial
O cobre é o ativo que pode dar a maior contribuição para a meta de US$ 35 bilhões em exportações minerais até 2035. O projeto Vicuña — que reúne os depósitos Filo del Sol e Josemaria, nas províncias de San Juan e Catamarca — está entre os maiores depósitos de cobre e ouro ainda não desenvolvidos do mundo e é operado por meio de joint venture entre BHP e Lundin Mining. A expectativa do mercado é que entre em operação nos próximos anos, consolidando o país como fornecedor relevante do metal vermelho, essencial para eletrificação, redes de transmissão e infraestrutura de energia limpa.
Ouro, prata e outros minerais
A Argentina também é produtora relevante de ouro, com minas tradicionais como Veladero (controlada pela Shandong Gold e Barrick) e Cerro Negro (Newmont). Prata, zinco e borato completam a pauta mineral do país e seguem atraindo investimentos de menor escala.
Por que o impacto na Bolsa brasileira deve ser limitado?
Apesar do tamanho do potencial argentino, o efeito sobre a B3 tende a ser restrito — e isso decorre de uma combinação de fatores estruturais que vale a pena entender.
Em primeiro lugar, as grandes mineradoras que operam (ou pretendem operar) na Argentina são companhias globais listadas em Nova York, Londres, Toronto ou Hong Kong, não na B3. É o caso de BHP, Rio Tinto, Glencore, Lundin Mining e da própria Lithium Americas. O investidor brasileiro que quiser se expor diretamente a esses projetos precisará comprar BDRs, ADRs ou ações em bolsas estrangeiras, dependendo da disponibilidade do ativo.
Em segundo lugar, há poucas empresas argentinas relevantes listadas na bolsa brasileira. A maior parte do capital privado do setor está concentrada em grupos locais e familiares, fora do alcance direto do investidor de varejo. Empresas listadas na B3 com ligação mais clara ao setor de mineração sul-americano são exceções.
Por fim, persiste uma barreira de risco-país. Mesmo com o RIGI, a Argentina carrega décadas de default, inflação descontrolada e mudanças bruscas de regras. Para um capital internacional, o prêmio de risco ainda é elevado, e a diversificação natural leva os grandes investidores a aplicar diretamente nas multinacionais — não em empresas argentinas.
O que isso significa para o investidor brasileiro?
O cenário argentino abre três tipos de oportunidades indiretas para quem opera a partir do Brasil e quer surfar o ciclo minerador do país vizinho:
- Exposição via mineradoras globais listadas em Wall Street, com tíquetes acessíveis para o investidor pessoa física brasileiro por meio de corretoras que permitem operar no exterior;
- Fundos e ETFs setoriais que acompanham índices de mineradoras ou, mais especificamente, de empresas de lítio e cobre;
- Empresas brasileiras da cadeia de valor, como fabricantes de baterias, fornecedores de equipamentos para mineração e produtoras de lítio com planos de expansão internacional — caso da Sigma Lithium, com operações em Minas Gerais.
Para o leitor que acompanha a cobertura econômica, a lição é clara: a Argentina pode estar prestes a viver um ciclo de prosperidade mineral comparável ao que o Chile viveu nos anos 1990, mas o dividendo desse crescimento deve ser capturado, sobretudo, fora da B3. O investidor brasileiro interessado precisa, na prática, atravessar a fronteira.
Perguntas frequentes
A Argentina pode mesmo virar uma potência mineral?
Sim, do ponto de vista da dotação de recursos. O país tem algumas das maiores reservas inexploradas de lítio do mundo e projetos de cobre de classe internacional. O desafio é converter essa riqueza em produção efetiva, o que depende de estabilidade regulatória, infraestrutura e capital — itens que estão em construção.
O que é o RIGI argentino?
É o Regime de Incentivo para Grandes Investimentos, criado em 2024 pelo governo Milei. Oferece estabilidade tributária por até 30 anos, liberdade cambial e proteção regulatória para projetos acima de US$ 200 milhões, com regras específicas para o setor de mineração.
Quais minerais a Argentina mais exporta hoje?
A pauta atual é liderada por ouro, prata e lítio. A expectativa é que o cobre se torne o principal produto mineral exportado pelo país até 2035, caso projetos como Vicuña entrem em operação comercial.
Como investir em mineração argentina a partir do Brasil?
A forma mais direta é comprar ações de mineradoras globais (como BHP, Lundin Mining e Lithium Americas) em bolsas estrangeiras, via corretora com acesso internacional. ETFs setoriais e fundos especializados são alternativas para quem prefere não escolher ativos individuais.
Por que o impacto na bolsa brasileira é limitado?
Porque as grandes mineradoras que vão se beneficiar do ciclo argentino não são listadas na B3, e as empresas argentinas relevantes têm pouca presença na bolsa brasileira. A exposição tende a ser indireta, via multinacionais da mineração ou empresas da cadeia de valor.
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