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Biorregionalismo evita colapso, diz pesquisadora de Harvard

Economias organizadas em torno de bacias e biomas demonstram maior resiliência. Estudo identifica caminhos concretos contra a degradação sistêmica.

Biorregionalismo evita colapso, diz pesquisadora de Harvard
>A economista, pesquisadora e professora adjunta da Universidade de Harvard, Gaya Herrington, defendeu nesta terça-feira, 1º, durante o Encontro Futuro Vivo, o biorregionalismo como uma das saídas possíveis para evitar um colapso ambiental e social à medida que a economia global avança sobre os limites do planeta. A fala ganha peso porque Herrington é uma das vozes mais ouvidas internacionalmente sobre a atualização do clássico estudo "Limites do Crescimento", do Clube de Roma, publicado originalmente em 1972.

O que é o biorregionalismo e por que voltou ao debate

O biorregionalismo é uma corrente de pensamento que propõe reorganizar as atividades humanas — em especial a produção de alimentos, energia e bens — a partir dos limites e das características dos ecossistemas locais. Em vez de uma economia global padronizada, que extrai recursos de um ponto e descarta resíduos em outro, a ideia é fortalecer comunidades aptas a viver dentro da capacidade de regeneração da biorregião onde estão inseridas.

Segundo o portal Terra.com.br, Gaya Herrington foi categórica ao afirmar, durante o evento, que a divisão em biorregiões tende a produzir comunidades mais saudáveis quando as necessidades básicas já estão atendidas: "Uma vez que nossas necessidades básicas estão assistidas, há mais altruísmo e vontade de trabalhar em comunidade. Por isso, a divisão das biorregiões faz com que as organizações humanas se construam em comunidades saudáveis".

A proposta dialoga diretamente com o conceito de limites planetários, formulado em 2009 pelo cientista sueco Johan Rockström e sua equipe no Stockholm Resilience Centre, que identificou nove processos biofísicos — como mudanças climáticas, perda de biodiversidade e ciclo do nitrogênio — que regulam a estabilidade do planeta e que já teriam sido rompidos ou estarem próximos do limite.

Por que a pesquisadora decidiu revisitar "Os Limites do Crescimento"

Em 2021, Herrington ganhou projeção mundial ao publicar uma releitura do relatório Limits to Growth ("Os Limites do Crescimento"), encomendado pelo Clube de Roma em 1972. O trabalho original, que utilizou modelos computacionais do MIT, concluiu que o crescimento econômico e populacional contínuo entraria em choque com os recursos naturais ainda no século XXI caso nada mudasse.

Quase cinco décadas depois, a pesquisadora decidiu comparar os dados atuais com os cenários traçados em 1972 para entender o quanto a humanidade se aproximou ou se afastou daquele prognóstico. O resultado, divulgado em artigo acadêmico e amplamente debatido em veículos como The Guardian, Financial Times e Bloomberg, apontou que as tendências reais de industrialização, poluição e produção de alimentos estão seguindo o chamado "cenário padrão" do estudo — justamente o mais preocupante dos cenários simulados.

O que isso significa na prática?

Significa que, mantida a trajetória atual, o planeta pode enfrentar, nas próximas décadas, um declínio simultâneo de produção industrial, capacidade agrícola, serviços ecossistêmicos e bem-estar humano. Não se trata de um apocalipse cinematográfico, mas de uma desaceleração brusca acompanhada de escassez, migrações forçadas e aumento de desigualdades.

"Não dá para adivinhar onde será seguro", alerta a pesquisadora

Em entrevista ao Terra, Herrington chamou a atenção para um movimento que considera equivocado: o de pessoas que tentam mapear regiões do mundo "relativamente seguras" em caso de colapso sistêmico. Para ela, a imprevisibilidade torna esse exercício frágil.

"Eu conheço pessoas que estão tentando calcular em que lugar do mundo é suposto ser relativamente seguro, e é completamente imprevisível. Você realmente não sabe, porque há tantas tendências se interconectando, não apenas as mudanças climáticas. Sim, você pode apostar onde é relativamente mais seguro em relação às mudanças climáticas, mas há tantas outras coisas: geopolítica, por exemplo".

A advertência dialoga com análises recentes de instituições como o Global Risks Report do Fórum Econômico Mundial, que há anos coloca riscos ambientais entre as principais ameaças globais, ao lado de tensões geopolíticas, desinformação e desigualdade. A mensagem central é que riscos climáticos não podem ser analisados isoladamente.

Como o biorregionalismo se aplica ao Brasil

O Brasil é um caso particularmente relevante para o debate, pois abriga seis biomas continentais — Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pampa e Pantanal — cada um com características ecológicas, hidrológicas e culturais próprias. Políticas públicas que tentam tratar o território de forma homogênea costumam fracassar justamente por ignorar essas diferenças.

Iniciativas locais já existentes no país guardam parentesco com a lógica biorregionalista:

  • Moedas sociais e bancos comunitários, como o Banco Palmas em Fortaleza (CE), que fomentam economias circulares dentro de um território delimitado;
  • Cooperativas agroextrativistas na Amazônia, que organizam a produção com base no manejo florestal e na sociobiodiversidade local;
  • Planos diretores participativos em municípios que reconhecem zonas rurais e áreas de proteção como parte do mesmo tecido urbano-econômico;
  • Ações de transição agroecológica no Sul do país, que resgatam saberes camponeses e reduzem a dependência de insumos externos.

A proposta de Herrington, nesse contexto, oferece um enquadramento teórico para práticas que, na ponta, já buscam reorganizar economias em torno dos limites do território.

O Encontro Futuro Vivo e o debate sobre colapso

O Encontro Futuro Vivo reúne especialistas e lideranças de referência em desenvolvimento sustentável no Brasil e no exterior. O formato, transmitido ao vivo, funciona como espaço de articulação entre ciência, política e sociedade civil em um momento em que o debate sobre transição ecológica deixou de ser restrito a ambientalistas e passou a ocupar mesas de CEOs, bancos centrais e fóruns de segurança internacional.

A inclusão da pauta do biorregionalismo sinaliza justamente essa mudança: a ideia de que o colapso, quando discutido com seriedade, exige abandonar soluções únicas e experimentar modelos adaptados a cada realidade ecossistêmica.

O que ainda está em aberto

A pesquisadora reconhece que o cenário não é determinístico. Os modelos usados em 1972 — e atualizados por ela em 2021 — não prevêem um futuro único, mas uma família de trajetórias possíveis. Mudanças tecnológicas, decisões políticas e padrões de consumo podem deslocar o planeta para cenários mais brandos, embora a janela de tempo esteja se estreitando.

Para o Brasil, a discussão levanta questões práticas: como redesenhar cadeias produtivas extensivas (commodities agrícolas, mineração, energia) sem abandonar a dimensão continental do país? Como fortalecer economias regionais sem isolar comunidades? Quais políticas públicas podem induzir essa transição sem aprofundar desigualdades já existentes? São perguntas que ainda estão sem resposta consolidada e que tendem a dominar a agenda nos próximos anos.

Perguntas frequentes

Quem é Gaya Herrington?

Economista, pesquisadora e professora adjunta na Universidade de Harvard, conhecida internacionalmente pela atualização de 2021 do estudo "Os Limites do Crescimento", originalmente publicado pelo Clube de Roma em 1972.

O que é biorregionalismo?

É a proposta de organizar as atividades econômicas e sociais das comunidades de acordo com os limites ecológicos e as características da biorregião em que elas estão inseridas, em vez de seguir uma lógica global padronizada.

O que dizia o relatório "Os Limites do Crescimento"?

Publicado em 1972 pelo Clube de Roma com modelagem do MIT, o relatório alertava que o crescimento contínuo da economia e da população levaria a um colapso dos recursos naturais ainda no século XXI caso o modelo não fosse alterado.

O colapso ambiental é inevitável?

Não. Os modelos projetam tendências, não destinos. A atualização de Herrington mostrou que estamos seguindo o cenário mais preocupante, mas mudanças de política e comportamento ainda podem alterar a trajetória, embora com janela de tempo cada vez menor.

O que o Brasil pode aprender com o biorregionalismo?

O país abriga seis biomas continentais com realidades ecológicas e culturais distintas. Políticas que respeitem essas diferenças e fortaleçam economias locais — como cooperativas agroextrativistas, moedas sociais e transição agroecológica — já dialogam com a lógica biorregionalista na prática.

📌 Fonte: Reportagem originalmente publicada pelo portal Terra.com.br sobre a participação de Gaya Herrington no Encontro Futuro Vivo.

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Yuri Augusto
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Yuri Augusto

Yuri Augusto Jornalista e entusiasta de inovação digital, Yuri acompanha de perto as principais movimentações do mercado, economia e tecnologia. Com foco em traduzir informações complexas em análises acessíveis, é o responsável por trazer os conteúdos mais relevantes e em primeira mão para os leitores do GCBS News.

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